Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Anderson Valfré, escritor/poeta e teatrólogo.

Anderson Valfré: A VEIA TORTA DA CRUZ

Nascimento, passagem e partida na obra

A Veia Torta da Cruz, de Anderson Valfré

 

Gabriela Lages Veloso

 

Anderson Valfré, natural de Linhares (ES), é licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e qualificado em Teatro pela FAFI: Escola Técnica de Teatro, Dança e Música, localizada em Vitória (ES). Ao longo de seus 13 anos de carreira, tem colecionado importantes conquistas: autor de seis livros, dez peças teatrais, dez produções audiovisuais e trinta produções culturais (dentre elas, mediações e apresentações em festivais nacionais e internacionais), ganhou 4 prêmios. Além de escritor,  poeta e teatrólogo, é idealizador e coordenador nacional da Transvê Poesias, que conta com 12 anos de história e está presente em todo o Brasil.

A Veia Torta da Cruz: III Cantos (2026) é o primeiro livro solo de poesia do escritor Anderson Valfré, que conta com a capa de Deivison Silvestre e o prefácio de Josué da Silva. A obra trata-se de uma belíssima composição subdividida em três seções (cantos), respectivamente intitulados: “A Cruz”, “O Caos” e “A Morte”. A Veia Torta da Cruz aborda diferentes temáticas que convergem em um único ponto: o espelho que a vida é, em toda a sua complexidade.

O primeiro canto, cujo título é “A Cruz”, apresenta o nascimento, o brotar e o gerar a vida. Nele, temos o despertar do eu-lírico para o mundo que o cerca: “Um dia a vida te acorda / No outro você a reconhece” (VALFRÉ, 2026, p. 23). No entanto, com o (re)conhecimento, vem a dor: o mundo enfrenta graves crises, fome, egoísmo e desamor. Em luto e enxergando tudo isso, o eu-lírico se sente pequeno perante a vida e seus impasses: “O espelho revelou-me o quanto eu era pequeno” (VALFRÉ, 2026, p. 25). É preciso entender esse espelho de Valfré como uma metáfora da vida, que é muito bem tecida ao longo de toda a obra. Ao conhecer a “cor da dor que nos compõe”, a voz poética compreende que somos apenas “um grão em desatino” que deve seguir em frente, pois o caminho está em nossos passos.

O segundo canto, intitulado “O Caos”, traz a ideia de passagem, do lidar com as escolhas e as desigualdades do mundo. Nele, temos uma interessante construção que simula o turbilhão que é a nossa existência. Vemos a vida em movimento e a sabedoria que o eu-lírico adquire com o tempo. Há também um contraponto entre a beleza e ordem da natureza e a artificialidade e o desequilíbrio do urbano, das cidades do século XXI. Em meio a todo esse caos, o eu-lírico exclama: “Eu sou o espelho quebrado da história!” (VALFRÉ, 2026, p. 71). Perante o inexorável tempo e a amplidão da vida, a voz poética sente-se fragmentada.

Por fim, o terceiro canto, nomeado “A Morte”, trata da partida, do trauma e do luto por um ente querido, uma ideia ou sonho extraviado. Nele, o eu-lírico invoca todas as divindades que já habitaram a Terra, desafia a própria morte e clama pelo direito de renascer: “convoco todos os deuses e deusas que pisaram na terra e sentiram sua umidade. / Brado a morte, o teu sangue e o teu furor, / insisto no grito do nascer de novo” (VALFRÉ, 2026, p. 75). A voz poética, enfim, percebe que todos somos “Filhos da terra / somos Filhos do Vento / somos Filhos da água / herdeiros de tempos” (VALFRÉ, 2026, p. 79). Temos em nossas veias a ancestralidade e a força da natureza, por isso, precisamos respeitar e cuidar bem dela e de nossos semelhantes. “O eco da vida em tudo rebate”, por isso, o eu-lírico conclui que “somos espelhos da própria vida” (VALFRÉ, 2026, p. 82). É, portanto, impossível permanecer indiferente à realidade na qual estamos inseridos, após ler A Veia Torta da Cruz.

 

REFERÊNCIA:

VALFRÉ, Anderson. A Veia Torta da Cruz: III Cantos. Linhares, ES: Transvê Antologias, 2026.

 

 

O livro A Veia Torta da Cruz: III Cantos (2026) pode ser adquirido diretamente com o autor através do Instagram: @andersonvalfre ou através da plataforma UICLAP: https://loja.uiclap.com/titulo/ua178437?srsltid=AU7gw4Vk8UCEpLTCh3881nck4mQybNG2QwygYFr2xfw0pKKJ8oyGdRAC

 

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Gabriela Lages Veloso é escritora e Mestra em Letras pela UFMA.