Wiliam Amorim
“Vai começar a semana que não se varria a casa, não se cantava e muito menos falar alto! Vai começar a semana de andar sem fazer barulho e de olhar tristonho! Vai começar a semana do Cristo na cruz e do canto triste da Verônica! Vai começar a semana santa dos Santos que não somos!”
– Laura Amélia Damous

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Semana Santa é tempo de reflexão para os católicos, mas também de comilança. Fecho os olhos e volto à minha infância. Meus pais, avós e tios todos ocupados em fazer lista de compras para o período em que não se podia comer carne e nem fazer barulho, ouvir música, trabalhar, apenas ficar concentrado em Jesus. A cidade ficava quieta, falava-se baixinho. Não se podia beber nada alcoólico. Minha mãe ficava sempre muito contrita em suas orações e chateada se não a imitássemos no respeito ao sagrado.
Eu e meus irmãos também crianças sonhávamos com o Sábado de Aleluia. O dia nascia alegre e cheio de expectativas com a leitura do testamento de Judas e sua malhação. Era garantia de risos para muitos, mas também de muita irritação para os “escolhidos “do testamento. Certa vez, duas irmãs idosas, carcamanas (como se dizia à época) foram herdeiras de Judas e ficaram furiosas. Parece que foi ontem aquela voz no megafone: “para Helena e Nazareth, deixo meu alicate para cortarem as unhas do pé”.
Tudo isso virava motivo de galhofas por uma semana. Meus pais nunca tiraram essa sorte de serem herdeiros de Judas. Mas era sempre tenso. Talvez, por meu pai ser delegado, os jovens que escreviam o fatídico testamento os deixavam de fora da temida herança.
Já minhas duas irmãs mais velhas e primas sonhavam também com o Sábado de Aleluia, mas por outras razões: roupa nova na costureira, salão de beleza e festa no clube. Estavam ocupadas com as questões do amor na adolescência e juventude.
Lembro-me ainda e sobretudo do movimento na cozinha da vozinha Tereza. Várias bacias de canjica sobre a mesa, panelas de ferro pretas no fogão à lenha cheias de milho em processo de pamonha, o cheiro de milho no ar, coco da praia sendo ralado, as vozes, os risos dos adultos agitados para dar conta do trabalho.


Acho que aprendi a amar bacalhau na infância dessa época. Era prato principal e onipresente. Mas também era tempo de bolos de milho verde, de tapioca, de macaxeira e de massa. Não podia faltar, é claro, a famosa canjica enfeitada com canela. Odiava canjica e canela juntas ou separadas. Hoje me pergunto: “Como assim?…”
Parece-me que foi ontem, adultos agitados para dar conta do trabalho de alimentar a grande família em torno do vozinho João Pedro e vozinha Tereza, com suas indisfarçáveis caras de satisfação diante daquela movimentação de filhos, netos, genros e noras.
Minha tia Fátima, a caçula, ainda não tinha casado, era sempre preocupada com a bagunça das crianças. Tia Raimundinha era toda relax, tímida e divertida. Ela adorava fazer mágica de aparecer dinheiro. Eu sonhava dias e dias com a chegada dela. Era uma festa particular.
Tia Gracinha devia ser minha tia muito amada. Minha mãe conta que eu, bem pequeno, folheava as revistas das minhas irmãs mais velhas, apontava para todas as mulheres de cabelo grande nas fotos e dizia: uma Gracinha, duas Gracinhas, três Gracinhas, muitas Gracinhas. Acho que era saudade também porque ela morava longe.
Tia Alice, minha madrinha, era séria e amorosa. Todos a amavam e a temiam também. Nunca a chamei de madrinha porque eu imitava meus irmãos e primos que a chamavam de tia apenas. Até hoje ela é essa pessoa amada e com autoridade.
Meus pais sabiam se fazer respeitar e amar por nós. Carrego a cicatriz do amor deles. Eram amorosos e firmes na medida certa. Às vezes minha mãe se excedia, mas não era nada fácil educar 3 casais de filhos com idades e interesses tão diferentes.

Hoje é Sexta-Feira Santa, a caminho de Panaquatira, arrisquei parar em um conhecido supermercado para comprar mantimentos. Hesitei se estaria aberto ou não. Afinal, Sexta-Feira Santa. Não só estava aberto como lotado. Fiz as compras em silêncio e incômodo: não se fazem mais sextas-feiras santas como antigamente e há muito tempo.
Após o almoço, fui ao grupo de WhatsApp formado por meus irmãos e mãe. Minha irmã caçula disse: tempo de bolo, lembro muito de nossa casa.
Sua fala foi como um “abre- te sésamo” para minhas memórias adormecidas.
Sem me dar conta, passei o dia ouvindo a Missa Brevis de Bach e a de Jacob de Hanh.
A chuva molha o jardim e o tempo que aqui parece mais lento. A música solene preenche suavemente os espaços e eu respiro o sagrado. Penso no meu filho que não pode estar fisicamente aqui hoje, mas habita meus pensamentos e aquece meu coração com seu amor caloroso e sua presentificação em palavras.
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William Amorim é escritor e psicanalista

Belas memórias, William, me fizestes mergulhar nas minhas memórias de infância dessa época sagrada. Afetos e pessoas são o divino em nós, nada “ santos “, como nos lembra Laura Amélia.
Abraço, amigo poeta.
Minha poeta tão amada , que alegria esse seu comentário tão poético e amoroso . Bj gde
William meu filho maranhense. aqui em Salvador, com a potência da herança africana, as mesas ficam tingidas do amarelo do dendê. as famílias preparam banquetes da chamada comida baiana: caruru,, vatapá, moquecas de peixe, camarão, frigideiras de mariscos, feijão fradinho, Xinxim de galinha, arroz branco e farofa de dendê. as famílias se esmeram para ouvirem os “hummmm que delícia”! mesmo nos tempos de outrora assim acontecia. mudou o silêncio, as músicas sacras nos rádios, a abstinência do alcool e do sexo. “Fechava-se o pote” e só abria no sábado de aleluia. judas, pau de sebo com prêmios no alto, corrida de saco e outras brincadeiras. como nosso Brasil é diverso!
William, é bonito misturar na festa tristeza e alegria, Mas a delícia da tua crônica são as comidas e sua preparação pelas mãos das mulheres da família Você escreve tão lindamente que sentimos os perfumes. E o toque exato de nostalgia.
Excelente texto cronista do confrade poeta escritor Dr. William. Me lembrou a minha infância, um tanto quanto similar os relatos que fez nesta época da semana santa. Atualmente estamos vivendo uma total descaterização.
Meu caro Francisco ,
Compartilhamos do mesmo pesar de uma época que nada quer saber da tradição e clama pelo efêmero . Obrigado pela sua leitura. Forte abraço
Uma Semana Santa comum a muitos de nós, lembro que além de tudo isso, visitávamos também uns aos outros, convidados para ir ir cear na casa de alguma família (em geral, dos padrinhos), época de cheiro de milho verde, bolo de puba e beiju de forno com coco… Enfim, nossas memórias afetivas que fazem parte de um tempo ido, substituído pela tradição dos ovos de páscoa e do chocolate, agora sem chocolate. O que é bom é para lembrar, sim, são coisas que carregamos em nós e faz parte de nossa experiência afetiva e espiritual. Obrigado William Amorim, por trazer isso, e que esse abraço terno do teu filho esteja sempre presente.
Meu amigo querido ,
Muito bem lembrado : haviam as visitas.
Não sou e não gosto de parecer saudosista, mas abrir mão tão facilmente da tradição nos deixa sem filiação , sem a possibilidade de nos reconhecemos . A data hoje não passa de um feriadão para ser usufruído festivamente. Forte abraço e obrigado
William, recordar memórias é fortificar a memória de momentos, pessoas e coisas importantes para nós. Parabéns pelo relato majestoso feito. Voltei ao tempo que meus avós maternos cultivavam hábitos no sertão maranhense ( Colinas). abraço
Quanta nostalgia! Tenho sempre a impressão que tivemos a oportunidade de vivermos os melhores tempos! Quem dera eu poder apresentar tudo isso para as minhas filhas! Boa Páscoa e que bom que Jesus revive !
Nossa ! eu entrei é uma máquina do tempo, onde ela me levou direto para casa da minha avó, onde todos deveriam está. ela juntada 18 netos e nos encinava a rezar .mas criança não e fácil , por quê não entendia todo aquele rito, e terminava em risada ,e ela repreendia .. acho que um mundo precisa de uma avó, para lembrar a importância desse rito, porque hoje o que vemos é viagens farras onde onde diz tua completamente do sentido da semanata.
Obrido Wilian por seu lindo texto, que que nos faz refletir sobre a importância dessa data tão importante para humanidade
Linda e profunda reflexão, me fez entrar na máquina do tempo e reviver uma linda lembrança.de infância.
Muito obrigada por compartilhar esse momento, essa memória tão querida.
Parabéns! Feliz Páscoa!
Beijos e abraços, primo querido.🙏🥰😍
Que lindo, William, fizeste resgatar em mim essas memórias. Obrigada. Feliz Páscoa!
Lindo texto 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
Willian, teu texto é um mergulho carinhoso na força da memória e no papel dos rituais na nossa formação. Ao relatar com tanto detalhe e afeto o Sábado de Aleluia da tua infância, tu nos mostras como esses momentos simples — carregados de sentido — ajudam a dar contorno à vida. A leitura do testamento de Judas, a expectativa pelo que viria, os risos, os pequenos medos, as figuras do passado… tudo isso vai muito além da anedota: é memória viva, que pulsa e tece nossa identidade.
É bonito ver como cada geração da tua família se relacionava com esse ritual à sua maneira — as crianças pela brincadeira, os jovens pela festa e vaidade, os adultos com certo cuidado — e como, mesmo assim, todos estavam conectados por esse fio invisível da tradição. Esses rituais, às vezes tão locais e únicos, nos ancoram. Eles nos lembram de quem somos, de onde viemos, e constroem esse sentimento de pertencimento que tantas vezes nos sustenta.
Tua lembrança é mais que saudade; é testemunho da importância de guardar e valorizar aquilo que nos une e nos molda. Obrigado por compartilhar essa memória — ela é um convite para que todos nós também revisitemos os nossos próprios “sábados de aleluia”.
Obrigada 🧶
Querido amigo ,
é impossível a gente ler e não relembrar tb as nossas conexões com a nossa história familiar …
doces lembranças, do toque triste do Sino trazendo o Cristo em cada badalada e as proibições da época, e a chegada do dia de Páscoa com meus pais, alegria no baile de Aleluia!
Ah, que delícia de texto, que representa as memórias de tantos!
No meu caso, nascida na Baixada Maranhense, num lugar onde não havia mar, mas nessa época sempre havia torta de camarão – preparada por Vovó Águida, minha avó materna- regada a azeite de coco babaçu, assada no fogareiro com brasas sobre a frigideira, que exalava um cheiro tão delicioso, quanto apetitoso! Compunha também o cardápio peixe frito no azeite de coco, e cuxá
Era mantido o costume de silêncio e pesar.
Na igreja, impressionava- me o corpo do Cristo morto levado em procissão.
Lembrei- me também, que as pessoas mais humildes carregavam sacos e batiam nas portas das casas pedindo um ” jejum”.Então amarravam o saco ( geralmente de plástico)em várias partes, onde se viam arroz, feijão, farinha etc.
Realmente os costumes mudaram muito; mas ficam as lembranças; boas lembranças de um tempo singelo e bom!
William filho maranhense. a semana santa aqui em salvador acaba sendo um festival gastronômico. com a potencia da herança africana, as mesas se sexta feira são tingidas do amarelo do dendê: caruru, vatapá, moquecas de peixes e camarões, frigideiras de mariscos, arroz branco, feijão fradinho com camarão seco e dendê, efó, xinxim de galinha. as famílias se esmeram nas iguarias, para ouvir dos comensais : “hummmmmm! que delícia!”. Lembro quando criança imperava o silencio, musicas sacras no rádio, abstinência de álcool e de sexo. Fechava-se o “balaio desde quinta e só abria sábado de aleluia”. aí era festa de todo lado. queima do judas com testamento ” o judas morreu, não teve o que deixar, deixou uma cueca velha pra……..aproveitar”. pau de sebo com prêmios no topo, corrida de saco, e muitas outras brincadeiras. hoje só em bairros periféricos vemos essa tradição de aleluia. o que não mudou mesmo foi a comilança, mesmo em lares menos favorecidos. É de lei!
Esse texto é um verdadeiro rebobinar de uma fita das memórias de uma tradição, que hoje dá sinal de seu declínio. Parabéns, pela linda crônica.