POEMAS
DE
DIEGO MENDES SOUSA
CHINELOS DO MAR
Hoje penso!
Sou terra em abundância.
Couro seco de boi
para a minha terra.
No rio do céu.
No rito rebocador
do curso
que se salga no mar.
Creio:
sou água corrente,
bucho de peixe
do rio Igaraçu,
que rega a terra
na secagem do sol.
No céu espelhado do rio,
a terra,
sempre as toras da terra
e a vagação nas sombras
das lamparinas invisíveis
da torrente.

TEATRO AGÔNICO
Sonhos são feitos a granel.
A ponte explode:
pássaros.
Tantos olhos
pintados de branco
em tão pouco tempo.
O coração em farelos,
aqui e ali,
nas noites forasteiras.
Velas tristes assombradas
de grandes escunas azuis.
Cal de conchas,
o meu boi misterioso morto
temperado no sal.

MINERAIS DE MINÉRIO DA VIDA
O meu caminho é escrito
com papel mata-borrão.
À deriva, a chuva banha o-meu-ser-se-fiel
enquanto o relógio
de algibeira do destino
encerra as léguas
no infortúnio dos pés.
O meu tempo é um palacete
com porão,
depósito sobrevivente
do passado,
casarão
com varanda lateral
embevecido no presente,
corredor sem saída.
Emoções de primeira
de segunda
de terceira leitura
a repartir o delírio.

TRANSBORDAMENTO
A tapeçaria do instante
cravou a vidência
no distante.
O que armadilha o sonho
vaza em infância.
Esta é a verdadeira vida
a nadar sanguinolenta
no desconhecido.

IGARAÇAL
Dos meus ancestrais,
tudo guardei no chão.
Fiz da minha cidade
o meu paraíso ignorado.
Pela corda do barco,
estiquei a imaginação
temporã
e fui discreto
ao cavar com os dedos
as dunas
do meu quintal.
Inventei um país diverso,
emergido do rio Parnaíba
trazendo consigo
os seus peixes
encantados:
fidalgo, curimatã, piaba, surubim, manjuba, piratinga,
sardinha, piau, carazinho, lambari, bagre, joaninha,
branquinha-do-olhão, doirado, dorme-dorme,
enguia-d´água-doce
e outras coisas semelhantes
a vigilarem o velário da paisagem
mais inebriante
derramada sobre a minha vida
de habitante
na vazante inteligente
com sofrimentos
e estrelas estilhaçadas.

*

Diego Mendes Sousa é filho da Parnaíba, cidade litorânea do norte do Piauí, e autor dos livros de poemas Divagações (2006), Metafísica do encanto (2008), 50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, 2010), Fogo de alabastro (2011), Candelabro de álamo (2012), Gravidade das xananas (2019), Tinteiros da casa e do coração desertos (2019), O viajor de Altaíba (2019), Velas náufragas (2019), Fanais dos verdes luzeiros (2019), Rosa numinosa (2022), Agulha de coser o espanto (2023), A borda do mar de Riatla (2025), O escrevente do chão (2025) e Igaraçal (2026).

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