Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Parnaíba-PI. Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

Parnaíba [PI] no olhar poético de DIEGO MENDES SOUSA

POEMAS

DE

DIEGO MENDES SOUSA

 

 

CHINELOS DO MAR

 

Hoje penso!

Sou terra em abundância.

Couro seco de boi

para a minha terra.

 

No rio do céu.

No rito rebocador

do curso

que se salga no mar.

 

Creio:

sou água corrente,

bucho de peixe

do rio Igaraçu,

que rega a terra

na secagem do sol.

 

No céu espelhado do rio,

a terra,

sempre as toras da terra

e a vagação nas sombras

das lamparinas invisíveis

da torrente.

 

 

Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

 

 

TEATRO AGÔNICO 

 

 

Sonhos são feitos a granel. 

A ponte explode: 

pássaros. 

Tantos olhos 

pintados de branco

em tão pouco tempo.

 

O coração em farelos,

aqui e ali,

nas noites forasteiras.

Velas tristes assombradas

de grandes escunas azuis. 

Cal de conchas, 

o meu boi misterioso morto

temperado no sal. 

 

 

Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

 

 

MINERAIS DE MINÉRIO DA VIDA 

 

 

O meu caminho é escrito 

com papel mata-borrão. 

 

À deriva, a chuva banha o-meu-ser-se-fiel 

enquanto o relógio 

de algibeira do destino 

encerra as léguas 

no infortúnio dos pés. 

 

O meu tempo é um palacete

com porão,

depósito sobrevivente 

do passado,

casarão 

com varanda lateral 

embevecido no presente,

corredor sem saída.

 

Emoções de primeira 

de segunda

de terceira leitura 

a repartir o delírio. 

 

 

Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

 

 

TRANSBORDAMENTO 

 

 

A tapeçaria do instante 

cravou a vidência 

no distante. 

 

O que armadilha o sonho 

vaza em infância.

 

Esta é a verdadeira vida

a nadar sanguinolenta 

no desconhecido.

 

Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

 

 

IGARAÇAL

 

 

Dos meus ancestrais,

tudo guardei no chão.

 

Fiz da minha cidade

o meu paraíso ignorado.

 

Pela corda do barco,

estiquei a imaginação

temporã

e fui discreto

ao cavar com os dedos

as dunas

do meu quintal.

 

Inventei um país diverso,

emergido do rio Parnaíba

trazendo consigo

os seus peixes

encantados:

 

fidalgo, curimatã, piaba, surubim, manjuba, piratinga,

sardinha, piau, carazinho, lambari, bagre, joaninha,

branquinha-do-olhão, doirado, dorme-dorme,

enguia-d´água-doce

e outras coisas semelhantes

a vigilarem o velário da paisagem

mais inebriante

derramada sobre a minha vida

de habitante

na vazante inteligente

com sofrimentos

e estrelas estilhaçadas.

 

 

Foto: Jairo Nunes Leocádio/divulgação

 

*

 

Diego Mendes Sousa é filho da Parnaíba, cidade litorânea do norte do Piauí, e autor dos livros de poemas Divagações (2006), Metafísica do encanto (2008), 50 poemas escolhidos pelo autor (Edições Galo Branco, 2010), Fogo de alabastro (2011), Candelabro de álamo (2012), Gravidade das xananas (2019), Tinteiros da casa e do coração desertos (2019), O viajor de Altaíba (2019), Velas náufragas (2019), Fanais dos verdes luzeiros (2019), Rosa numinosa (2022), Agulha de coser o espanto (2023), A borda do mar de Riatla (2025), O escrevente do chão (2025) e Igaraçal (2026).