Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

EM BUSCA DOS VERSOS PERDIDOS DE “ITAMIRIM”

 

Mauro Cezar Vieira

 

Isso tudo começou na pandemia. Ficamos sem São João por dois anos e, como bom maranhense, não pude deixar de me sentir um tanto depressivo. Procurei por playlists juninas no Youtube e logo coloquei para reproduzir uma que tinha de tudo: bois dos mais variados sotaques, cacuriá, tambor de crioula. Ouvi “Itamirim” em 2020 e 2021 naquela playlist. Na preparação para a temporada junina de 2022, a música chegou no spotify e logo entrou na minha playlist pessoal “São João do Maranhão”. Ouvindo-a repetidas vezes, percebi que, na participação do coro no último refrão, o intérprete cantava alguns versos que não me eram inteligíveis. Aumentei o volume no fone de ouvido. Não consegui entender.

Dias depois, compartilhei com minha esposa a tentativa de descobrir o que era cantado nesses versos assim que a música tocou no carro. Aumentei o volume e coloquei quase no máximo. Ouvimos o trecho final uma, duas, três vezes e nada…

Você que está lendo, coloque “Itamirim” para tocar. Ouça a música completa, é belíssima. No refrão, cante com o Tião Carvalho “Lalaia lalaia / lalaia lalaiaaaa / lererere rerereô”. Observe que ele vai repetir as estrofes, imprimindo a sua tonalidade de cantador à toada. O refrão está se aproximando novamente. Chegou. Cante com Tião “Lalaia lalaia / lalaia lalaiaaaa / lererere rerereô”. De novo: “Lalaia lalaia / lalaia lalaiaaaa / lererere rerereô”. Agora pare, preste bastante atenção. Enquanto o coro canta “êoêo êoêo / lererere rerereô”, o Tião Carvalho começa uma nova estrofe, parece uma quadrinha. Ela começa com “Morena…”. Esta é a primeira palavra do primeiro verso. No terceiro e quarto verso, após muito ouvir estre trecho, eu tinha chegado a “como estrela dos teus olhos / que meu rosto alumiou”. Fui corrigido pela minha esposa que achava que era “conto estrela com os teus olhos / que meu boi se alumiou”. Não tinha como ter certeza de nada.

 

ITAMIRIM, de Chico Saldanha, por Tião Carvalho:

 

No mês de maio, tá todo mundo ensaiando

E desse jeito eu não vou ficar aqui

Estrelas brilham no céu, igual aos teus olhos brilhando pra mim

Eu já fiz minha promessa, vou correndo ver o boi de Itamirim

 

Mas acontece que esse boi não passa cedo

Tem três léguas até aqui

Se eu ficar esperando, a morena vai embora

E o que é que eu vou fazer aqui?

 

Mas o meu boi tá chegando

lá na rampa da cadeia

Onde o ponto se incendeia

Ouvindo a orquestra tocar

 

2023. Baixei um aplicativo no celular que prometia separar os sons dos instrumentos do som da voz. Coloquei “Itamirim” nele. Dei o play na voz. Era o momento decisivo. Finalmente, depois de três anos eu saberia o que dizia os versos perdidos. Assim que cheguei o trecho, só ouvi o “êoêo êoêo / lererere rerereô”. Imagine a frustração. Ouvi as outras faixas. Um pouco da voz do Tião Carvalho estava junto com a percussão, mas tão baixinha que era pior do que ouvir a música completa.

Decidi que desse jeito eu não iria ficar. Já no começo de 2024, mandei uma mensagem na DM do Chico Saldanha, compositor da música, explicando a minha busca e a minha aflição. Copiei a mensagem e mandei, também, na DM do Tião Carvalho. Dentro de poucos dias, a assessoria do Tião me respondeu dizendo somente o seguinte: “Mestre Tião pediu para você ligar para ele. Segue o número”. Imaginem a euforia. Eu estava com o número do Tião Carvalho. Podia facilmente fazer a ligação e tirar a minha dúvida. Mesmo passado tanto tempo da gravação, tinha certeza de que o Tião saberia do que se tratava. Mas a euforia deu lugar ao receio. Para quê eu iria incomodar o Tião Carvalho com uma dúvida tão boba? Uma ligação faria com que ele parasse tudo o que estivesse fazendo para me dar atenção durante aqueles minutos e por que motivo? Mera curiosidade maranhense, nada mais.

Foi na sala de espera de um consultório que tive a ideia. Assim que terminou a consulta, entrei no carro, abri o WhatsApp e mandei uma mensagem para o número do Tião. Expliquei tudo, gravei um vídeo, depois um áudio. Tudo para que a resposta fosse a mais simples possível. “Oi, Mauro. O que eu canto nessa parte é…”. Mas a resposta não veio…

Neste mesmo ano de 2024, cheguei a comprar um LP do Chico Saldanha que vinha com “Itamirim” só para conferir a letra impressa no encarte. Também lá não estavam os versos perdidos.

Chegou 2026. Precisamente o dia 11 de abril. O amigo Marcus Saldanha estava recebendo, em seu História em Debate, vários convidados ilustres para celebrar o aniversário de Rosário. Entre eles estava Chico Saldanha. Quando liguei o rádio no carro, o programa estava no fim, o Chico ia tocar “Itamirim”. Pensei: “tenho que mandar uma mensagem para Marcus. Essa é a minha chance”. Mas como? Não tinha como eu parar o carro. Tinha perdido mais uma chance, mas aberto uma possibilidade. Certamente, na primeira oportunidade que tivesse, eu iria comentar com Marcus da minha busca pelos versos perdidos e ele iria me colocar em contato com Chico Saldanha.

Passei aquele sábado, e o domingo também, com “Itamirim” na cabeça. Peguei o violão para tocar. Não conseguia lembrar direito. Fui para o Youtube. Um único vídeo, postado há alguns anos por lá, tinha a cifra da música. O vídeo tinha sido removido. “Itamirim” estava se afastando de mim.

Foi então que cliquei num vídeo do show de 40 anos de carreira do Tião Carvalho que o algoritmo me recomendou. A primeira música? “Itamirim”. Segurei meu polegar para não avançar o vídeo até o fim da toada. Fiquei saboreando aquela música que havia escutado mais do que qualquer outra nos últimos 6 anos. Era a primeira vez que ouvia o Tião cantá-la ao vivo. Cantei junto com ele o “Lalaia lalaia / lalaia lalaiaaaa / lererere rerereô” do primeiro refrão, ouvi a segunda estrofe toda, acompanhei o “Lalaia lalaia / lalaia lalaiaaaa / lererere rerereô” do segundo refrão, saboreei o “êoêo êoêo / lererere rerereô” que o Tião cantou com o coro, até que ele começou: “Morena não vá embora / que a noite mal começou / conto estrelas com os teus olhos / que meu boi se alumiou”.

TIÃO, 40 ANOS – SHOW “MÚSICA POPULAR MARANHENSE”:

E nesse momento me bateu a alegria efusiva da descoberta junto com a melancolia da saudade de uma busca que não terei mais. Era 12 de abril de 2026.

 

 

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Bumba meu boi do Maranhão – Fonte: pinterest.com