Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

O pastor flautista, Sophie Anderson (1881).

A POESIA DE LAURA EM ‘O TEMPO DAS MANHÃS TRÊMULAS’

 

Por Rafael Oliveira

 

​Em sua mais recente obra, O Tempo das Manhãs Trêmulas (7Letras, 2025), a poeta maranhense Laura Amélia Damous reafirma o ofício de quem habita o imprevisível mundo da poesia. Nele, o sentido se amplia pela precisão do verbo aliada à solução estética. Sob tal rigor, seus versos revestem-se de múltiplas camadas, impedindo que o poético se dissolva no vácuo ao valer-se de signos capazes de transcender a obviedade funcional da linguagem. Daí, a autora libertar a palavra de suas amarras, tornando-a “livre e pura / no branco leito do papel” (p. 17).

​A poesia de Laura funciona como um sistema preciso que supera o olhar desatento, apressado ou insensível. Ao ativar determinados sensores da subjetividade, a autora resgata memórias afetivas que nela permanecem vívidas: “meu pai tocava flauta e / cantava / lembro bem o que minha mãe fazia / fazia tranças com laços de tafetá e cetim […] as duas vivem em mim / tocando e dançando / lembranças” (p. 19). A voz lírica, no entanto, não despreza a angústia existencial; ao contrário, organiza-a em significação própria, que impõe delicadezas na estrutura da linguagem, como o peso metafórico da pedra: “e nem ficou pedra sobre pedra / só mágoa sobre mágoa / a mágoa é uma pedra / pedra / pedra sobre pedra” (p. 33).

​Na obra, a palavra reproduz cosmografias e cosmofonias particulares, alternando entre o lúdico e o profundo. Exemplo disso é a criação rítmica – genealógica – do nome de sua terra natal: “Turi, Tury-assu, Turiassu, Turi-açu, Turiaçu (p. 31)”, que remete tanto ao jogo infantil da aprendizagem quanto à cartografia maranhense. Por outro lado, a transfiguração da imagem evoca uma experiência visual presa na memória: “não mais te vi / lua cheia / […] mas carrego uma retina enluarada / e uma orquestra no meu ouvido” (p. 53). Indo além, percebe-se como Laura insufla humanidade nos objetos, como no poema “Conversa de sapatos”, em que estes ganham voz para abdicar da cumplicidade com o vazio: “– cansei de ser cúmplice de ausências / agora / só conduzo encontros” (p. 87).

Laura Amélia Damous, poeta – Foto: divulgação

​Quanto ao tempo, a lírica de Laura recusa a frieza dos calendários, preferindo medi-lo pelo cronômetro da experiência vivida — aquele que “nasceu naquela cadeira de vime / da calçada da rua da tia Olga” (p. 81). Essa dimensão temporal é personificada também como um “velhíssimo senhor / seguindo sua trilha / sem retorno” (p. 85). Por fim, a autora convence a poesia a tornar audível o inaudível, como nestes versos: “tua voz / um silêncio / gritando no meu ouvido” (p. 21), revelando que sentidos inusitados sempre brotam da beleza que as palavras semeiam nos versos das páginas, justificando, inclusive, porque até “os jasmineiros / andam tontos de si mesmos” (p. 83).

​Em O Tempo das Manhãs Trêmulas, os significados revelam a destreza de quem maneja os fios linguísticos para ajustar a costura da própria poeticidade. A memória torna-se peça indispensável nessa tessitura, em que a linguagem articula, sem nós inúteis, o dizer poético: “pensou que a melhor coisa do mundo / era ser uma estrela / […] uma estrelinha / pequenina / mínima / uma estrela de um céu / que não existe” (p. 23).

​Assim, Laura Amélia Damous atinge o patamar em que apenas os ungidos conseguem manipular o cinzel que transforma poesia em verbo. O leitor é, por isso, convocado a testemunhar um desfile impecável de metáforas, no qual a lírica veste seus “trajes de luz” para exibir-se e brilhar na passarela de cada poema.

 

 

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Rafael Oliveira é poeta, membro da SOBRAMES/MA, e autor de O avesso abstrato das coisas (2021).