Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

“Para levitar acima das fogueiras” – CRIS LIRA comenta novo livro de poemas de LINDEVANIA MARTINS

Lindevania Martins  lança o livro de poemas Para levitar acima das fogueiras:

 Escutemos o chamado

 

Por Cris Lira

 

“Penetra calmamente nas ruas mais distantes.
Lá estão as emoções que precisam ser escritas
Convive com o teu povo antes de fazê-lo teu.”
(Lourdes Teodoro, Poemas antigos)[1]

 

Lindevania Martins, poeta/escritora – foto: divulgação

O Mulherio das Letras, que em 2026 celebra 10 anos, é um marco na história da literatura brasileira e no impacto dos espaços das redes para a formação de laços entre pessoas de diferentes partes do Brasil e do mundo. Foi por meio deste coletivo feminista literário que conheci a obra da maranhense Lindevania Martins. Autora premiada, fomos juntas finalistas ao prêmio Jabuti na categoria Inovação em 2021.

Juntas estivemos também em um trabalho desenvolvido pelos estudantes de graduação e pós-graduação da Universidade da Geórgia quando a autora aceitou o convite para ter alguns de seus poemas traduzidos ao inglês para o projeto “Escrevivências e [R]existências: A poesia de autoras negras brasileiras” (2023). Alegra-me muito, portanto, fazer a apresentação deste livro que é um microcosmo da obra da autora, haja vista que trata de temas que reverberam pelos diversos livros publicados por ela.

Para levitar acima das fogueiras (Avant Garde Edições, 2026), de Lindevania Martins, como o título já sugere, é um chamado. Do ventre da palavra, o convite à compreensão da única condenação aceitável, ser livre, reverbera nos poemas que trazem em seu bojo resquícios do cântico das muitas mulheres referências e reverenciadas nas páginas do livro.

Por um lado, a poeta tece, com a própria palavra, o questionamento à utilidade da poesia, dialogando diretamente com uma linhagem de autoras que trazem o cânone para questioná-lo e inscrever nele formas de observar o mundo antes relegadas ao espaço do esquecimento. Se, em “Procura da poesia,” o poeta comandava, “não faça versos sobre acontecimentos”, Lindevania, de mãos dadas com Lourdes Teodoro, cujo poema é a epígrafe que abre este texto, reclama o lugar do que é necessário ocupar o papel. Nesse sentido, o livro é uma reelaboração dos traumas com os quais a poeta convive em sua posição de defensora pública, mas também, e, quiçá, principalmente, de mulher em um país no qual o crime de feminicídio foi recorde em 2024[2]. Opondo-se a infectar o mundo ao passar adiante uma “poesia farsante”, é com a palavra-arma que a poeta se mune.

 Isso estabelecido, por outro lado, a poesia de Lindevania não contempla somente o próprio fazer poético, faz-se também resistência. Clama por desobediência, pelo reconhecimento das mulheres como o começo do mundo, pela luta pela memória, pelo registro matemático da monstruosidade. É um chamado: Levitemos sobre os escombros daqueles que insistem em nos querer caladas, recatadas, mortas. Lembrando sempre que a fogueira existe, o deixar-se queimar é também o encapsular-se em si mesma e evadir-se, “existindo entre fronteiras ao tentar compreender esse mundo”.

Convido ao ritual de cirandar ao redor da fogueira-palavra de Lindevania.

A mensagem te achará. 

 

Cris Lira – foto: divulgação

Cris Lira é professora assistente no Departamento de Línguas Românicas da Universidade da Geórgia (UGA), Estados Unidos, onde também concluiu seu mestrado e doutorado. Especialista em literatura contemporânea, sua pesquisa foca em estudos de gênero, memória, violência e ditaduras na América Latina. Também atua como escritora e poeta.

 

 

 

 

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[1]                  Trecho retirado do site Lourdes Teodoro – Quilombhoje – Literatura Afro-Brasileira

[2]                  Feminicídio: quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil | CNN Brasil