Por Paulo Rodrigues*
Especial para o Sacada Literária

Paulo Melo Sousa é Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA; possui graduação em Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) pela UFMA (1991) e graduação em Desenho Industrial – UFMA (1984), com Especialização em Linguística Aplicada ao Uso das Línguas Materna e Estrangeira, em Jornalismo Cultural (UFMA) e em Jornalismo Científico. Designer, jornalista, escritor, ambientalista, pesquisador de cultura popular, defensor do patrimônio cultural do Maranhão, autor com várias premiações em concursos literários, professor e fundador da Sociedade de Astronomia do Maranhão – SAMA (1976). Foi um dos idealizadores do jornal Folha de Gaia, o primeiro jornal ecológico do Maranhão (1990/1992), um dos fundadores do grupo Poeme-se (1985/1994), de poesia, e criador do Grupo Graal, de poesia e performances (1997). Foi professor da UFMA (Teoria da Comunicação, dentre outras disciplinas) nos Cursos de Comunicação Social, Biblioteconomia, Educação Artística e Desenho Industrial, de 1995 a 1998 e de 2022 a 2004.
O escritor também incursiona na área de cinema e vídeo, trabalhando como ator e co-diretor (integrou o elenco de “Carlota Joaquina, Princesa do Brasil”, filme de Carla Camurati (1995), e foi co-diretor do filme “Em Busca da Imagem Perdida” (IPHAN, 2008), dentre outros trabalhos. Escreve no Jornal Pequeno (JP Turismo), de São Luís, abordando temas de jornalismo científico, turístico e cultural. Manteve nesse suplemento desde 2006 a coluna “Alça de Mira”, na qual publicou dezenas de poemas de autores maranhenses, semanalmente, atuando ainda na área cultural como conferencista. Articulador do “Projeto Papoético” (2010/2024), evento de debate cultural, e do “Conecta Cultura São Luís Alcântara”, desde 2019 (em Alcântara – MA), é criador e Coordenador Geral do “Coletivo Guardiães da Memória do Patrimônio Cultural de Alcântara”, em atividade desde 2020, que visa restaurar monumentos dessa cidade histórica. Foi Secretário Geral do Conselho Municipal de Cultura e Turismo de Alcântara – COMTUR (2021 a 2023), tendo participado do Regimento Interno do Conselho.
Paulo Melo Sousa é membro fundador da Academia Ludovicense de Letras – ALL (2013), tendo recebido a Medalha do Mérito Timbira, Grau de Comendador do Quarto Centenário, a maior comenda do Estado do Maranhão, em 2012. Em 2017 recebeu o título de Comendador (Distinção em Educação – ONG Professora Maria Mercedes Muller, pelo Clube dos Trovadores Capixabas – CTC, em Vitória – Espírito Santo). É também detentor da Comenda dos 200 anos de Fundação da Imprensa no Maranhão como jornalista mais votado na votação popular (2021), grau de Comendador, título conferido pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Recebeu ainda a Medalha do Mérito Literário Graça Aranha, da Academia Maranhense de Letras – AML, em 2022, pelos relevantes serviços prestados à cultura do Maranhão, bem como a Medalha Simão Estácio da Silveira, outorgada pela Câmara Municipal de São Luís, no mesmo ano, pela contribuição à cultura ludovicense. Em agosto desse ano recebeu medalha de mérito cultural em razão de ter sido fundador (1997), Diretor Cultural e presidente da Sociedade de Cultura Latina do Estado do Maranhão – SCLM (2017 / 2019). Foi Diretor da Galeria de Arte Trapiche Santo Ângelo (2013 / 2015), Diretor do Convento das Mercês (2015 / 2020) e, atualmente, é Diretor do Museu Histórico de Alcântara (2020 / 2026). Membro fundador da Academia Alcantarense de Letras, Ciências, Artes e Filosofia – ALCAF, criada a 20 de julho de 2024, foi eleito o primeiro presidente dessa instituição. Possui dezenas de matérias publicadas sobre Alcântara, desde 1987, em jornais e revistas, sobre a história do município, o Festejo do Divino Espírito Santo, o Festejo de São Benedito, sobre cultura, meio ambiente e sobre personalidades culturais locais. Tem sete livros publicados, quatro deles de poesia, todos premiados em concursos literários.
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- Paulo Rodrigues – Paulo Melo Sousa, você escreve poesia com a seiva da árvore da vida. O Vinicius de Moraes afirmava: “Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia”. Você pensa a poesia assim também, poeta?
Paulo Melo Sousa – Eu penso que cada poeta que se identifique com essa linhagem, essa maneira de ser e de estar no mundo que é o território da poesia tenha sua visão própria sobre o exercício poético, e muito dessa visão tem suas raízes fincadas na poesia dos nossos antepassados, amalgamada com a vivência de cada um. Lembro de uns versos de Manoel de Barros: “poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina”, ou de Adélia Prado: “poesia é coisa que tá solta no ar / apanha quem tem jeito”. Eu caminho todas as tribos / mas não sou de nenhuma. E escrevo torto por linhas tortas, pois nunca fui Deus. Eu sempre fiz poesia como quem expulsa uma dor de alma. Nesse processo surgiram alguns poemas que suponho conter alguma poesia.
- Paulo Rodrigues – Poeta, quais são seus poetas de cabeceira? Os que estão no diálogo cotidiano com Paulo Melo Sousa?
Paulo Melo Sousa – São inúmeros os meus defuntos (rs). Eu tive que ler muito para procurar diminuir ao máximo as influências sobre o meu trabalho; exercício que me propus para alcançar o meu estilo. Ainda hoje não tenho certeza se atingi meu intento. Li desde “O Livro dos Mortos do Antigo Egito”, “Os Vedas”, o “Tao Te King”, de Lao Tse (estou sempre relendo este sábio), até Homero, Safo de Lesbos, Dante Alighieri, o “Rubáiyát”, de Omar Khayyám, Píndaro, Ronsard, François Villon, William Blake, Rimbaud, Lautreámont, Mallarmé, Baudelaire, Artaud, Emily Dickinson, Dylan Thomas, Sylvia Plath, Allen Ginsberg, Murilo Mendes, Hilda Hilst, Nauro Machado…mais ou menos uns cem poetas entram na minha lista de predileções, comporiam meu “paideuma”, como preferiria Ezra Pound.
- Paulo Rodrigues – Paulo Melo Sousa, como é seu o processo criativo? É poeta o tempo inteiro?
Paulo Melo Sousa – Quem se pretende poeta o tempo inteiro se esquece de viver, e quem se esquece de viver fica sem argamassa para unir os tijolos da própria construção poética. Fui buscar no submundo um material explosivo para moldar meus poemas, o que a segurança da casa e da escola não são capazes de fornecer ao poeta. Penso como Georges-Louis Leclerc, o Conde de Buffon: “o estilo é o homem”. Sempre escrevi de forma visceral, garimpando meu estilo; é meu caminho. A poesia, em mim, é uma katana venenosa / precisão e disciplina. Não consigo me livrar desse karma rs
- Paulo Rodrigues – A Literatura acrescentou alguma coisa na vida do poeta Paulo Melo Sousa? A Literatura é fundamental para o homem? Viveria sem a poesia?
Paulo Melo Sousa – Sem poesia eu não seria o que sou, eu seria uma casca sem essência, pão sem miolo. A Literatura me trouxe muitas sinceras amizades, lapidação espiritual, olhar o outro sem cobranças, algum conhecimento, humildade, aplainando minhas vaidades. Creio que a Literatura é fundamental para o homem, assim como a Ciência também o é. A Teoria da Relatividade, de Einstein, a Física Quântica, de Max Planck, o princípio da incerteza, de Heisenberg, a Teoria da Ordem Implicada, de David Bohm, a Teoria do Caos, o Bóson de Highs (a partícula de Deus), as proposições biológicas de Dawkins, dentre tantas outras manifestações do gênio humano possuem tanta poesia quanto um texto de James Joyce. A poesia ultrapassa a Literatura. Eu posso viver sem Literatura, mas não consigo me desconectar da poesia.

- Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o livro VESPEIRO. Você integra a antologia A Poesia Maranhense do Século XX, organizada por Assis Brasil. Aproveite e fale um pouco sobre a importância da referida antologia.
Paulo Melo Sousa – Vespeiro é irmão gêmeo de Banzeiro. Ambos foram escritos com início em cama de hospital (após cirurgia de diverticulite) e término em cama da casa da minha tia Eulina (convalescença). Eu só li e escrevi nesse espaço de tempo de uns dois meses. Os poemas já estavam em mim; foram apenas transpostos rapidamente para o papel naquele momento (final de 2003, início de 2004). Os livros abordam metalinguagem, algum hermetismo, poesia de humor, dentre outras temáticas. A minha inclusão na Antologia da Poesia Maranhense do Século XX creio ter sido circunstancial. Alguém me indicou por conta da minha atuação cultural, escrevendo poesia, participando de festivais, assim como tantos outros que estão elencados nessa antologia, que não incluiu alguns nomes que mereciam estar nela.
- Paulo Rodrigues – Como você avalia a literatura contemporânea do Maranhão? Quais poetas destacaria no cenário contemporâneo?
Paulo Melo Sousa – Creio que temos uma efervescência cultural muito intensa neste momento no Maranhão. Não cabe todo mundo numa lista de bons escritores. Temos Laura Amélia Damous, Dyl Pires, Alberico Carneiro Filho, Bioque Mesito, Antônio Aílton, Rafael de Oliveira, César William, Eduardo Júlio, Cláudio Terças, Cassas, Fernando Abreu, Lúcia Santos, Lenita Estrela de Sá, Wybson Carvalho, Arlete Nogueira da Cruz, Raimundo Fontenele, Aurora da Graça Almeida, Salgado Maranhão, Ronaldo Costa Fernandes, Josoaldo Rego, Luís Inácio Araújo e tantos outros. Sempre são falhas as listas. Muitos outros nomes estão fazendo boa poesia no Maranhão, atualmente.
- Paulo Rodrigues – Comente um pouco sobre o poema PARTO. Ele faz parte do livro Oráculo de Lúcifer? Há um diálogo com Nauro Machado?
a poesia dispensa guarda-costas
ela é medula
habita a flora da linguagem
constrói sua febre
das cinzas do céu e do inferno
fênix da palavra
basta a si mesma para explicar sua gênese.
Paulo Melo Sousa – Sim, faz parte do meu primeiro livro de poesia. Um poema metalingüístico, como alguns outros de minha autoria. Alguns poemas de autores diferentes possuem títulos iguais. Natural. Meu diálogo com Nauro Machado sempre foi muito próximo, pessoal, e nossas conversas sempre habitaram o terreno da arte da poesia. É um poeta que admiro e respeito, sobretudo pela profundidade. Nauro escreveu seu poema como profissão de fé; eu fiz apenas uma reflexão sobre minha forma de enxergar a poesia.
- Paulo Rodrigues – Paulo Melo Sousa, explique para nós o trabalho que você faz lá no Museu Histórico de Alcântara – MHA. Você é uma referência para os diretores de museus do Brasil, porque valoriza muito o protagonismo comunitário. O museu tem a função de conectar o cidadão à sua própria história?
Paulo Melo Sousa – Não posso dizer que sou uma referência para diretores de museus do Brasil, pois acredito que tem muitos diretores que fazem mais do que nós. Procuramos, dentro de nossas limitações, ampliar a função do MHA, que foi criado para representar uma casa de época (séculos XVIII / XIX). Propusemos ir além de sermos uma casa de visitação, com guiamento tradicional, mostrando um recorte da história do Maranhão, de Alcântara. Criamos uma Galeria de Arte, que já abrigou e continua abrigando inúmeras exposições, com protagonismo de artistas alcantarenses (como a exposição de Arte Naif, de um artista de um dos povoados de Alcântara (Oitiua), Claudiomir Viegas, que é lavrador. Criamos, dentro da ação do MHA, o Grupo Guardiães da Memória do Patrimônio Cultural de Alcântara, um coletivo que já realizou reformas simplificadas em vários monumentos de Alcântara: Capela do Desterro, Fonte das Pedras e os cinco Passos da Paixão. Criamos o Projeto “Pão, Música & Poesia”, mesclando gastronomia local, música de raiz e Literatura. Em 2023 trouxemos no âmbito desse projeto a escritora Jucey Santana, então presidente da Federação das Academias de Letras do Maranhão – FALMA, que ministrou palestra sobre a criação de uma Academia de Letras. A partir daí reunimos um grupo de artistas locais e fundamos, em julho de 2024, a Academia Alcantarense de Letras, Ciências, Artes e Filosofia – ALCAF, que já tem bons serviços prestados na área cultural. Enfim, procuramos trabalhar no MHA com a ideia de Museu Vivo, com a perspectiva de extensão cultural junto à comunidade, conectando-a, assim, ao pertencimento com relação à sua própria história.
- Paulo Rodrigues – Paulo Melo Sousa tem projetos novos? Quais?
Paulo Melo Sousa – Ideias não faltam, o que falta é apoio. Mas aprendemos a driblar as adversidades com criatividade, parcerias e com o trabalho coletivo. Dessa forma, vamos tocando o barco como se pode. Pretendemos realizar aqui encontros literários, debates sobre filosofia, concursos de poesia, festivais, feiras de cultura, reativar o Projeto Conecta Cultura São Luís Alcântara e o Fórum Permanente do Patrimônio Cultural, dentre outros projetos.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Paulo Melo Sousa – Vou deixar três! “A vida é curta” (August Strindberg). “Carpem Diem” (Horácio, poeta romano; 23 a. C.). “Nada de humano me é estranho” – Terêncio.
10 poemas
de
Paulo Melo Sousa
inverno
um corisco vibra seu clarão de fogo
surrando os cabelos da escuridão
a coruja muda pressente um escarro de luz
interromper a febre de sua vigília solitária
a pedra lambida pela espuma da maré
abriga o murmúrio dos peixes noturnos
uma inquieta madrugada abísmica
pródiga de sortilégios
liberta o amordaçado soluço
de sua primeira chuva
dia gnóstico
o coração tem caminhos
que todas as pontes de safena desconhecem
take
um peixe afogado no abismo
constrói seu túmulo nas trevas
o mar fareja a frieza do mármore
a tarde pede licença
e cumprimenta o crepúsculo
em trânsito
sou cria
tura do acaso
meu passaporte neste mundo
não tem carimbo
atravesso antigas avenidas
com sinal aberto
pedestre suicida
viver é hospedar o perigo
maré de lua
caminho todas as tribos
mas não sou de nenhuma
cada animal é dono de uma astúcia
antes de conhecer o miolo das coisas
vivente precisa pelejar
para ter entendimento das saídas
labirinto é bicho esquivado
entrar é fácil
fiapo de sol queimando o iceberg
uma lua se alevanta
obscena e azul
do brabo útero do mar
estrelas são velas alumiando
a muda procissão das almas contrárias
dos umbigos do nada
o epiléptico peixe da angústia
mergulha na escuridão
incógnito
e furtivo e doido
começa a crescer
oriônidas
um trêmulo outubro semeou
no vértice da noite
um cardume de estrelas cadentes
os olhos da menina ficaram boquiabertos
sabença
na sozinhez das metáforas inexatas
um bicho doido assopra perplexidades
mordendo os calcanhares da imemória
no casulo pânico das palavras incriadas
lambendo a espumosa baba do sol
a cada coice dos impropérios da morte
viver no sonho incrédulo da criatura
é abusar da paciência de Deus
arte da guerra
o poeta é um samurai
na arena do poema acontece a batalha
cada palavra é uma katana venenosa
precisão e disciplina
no verso mora um tigre raivoso
pastorando a caça
daí costuma nascer o imponderável
o pombo
alvoroço no telhado
rápido desespero de penas
ambicionando o milho
tocaiado no terreiro
súbito relâmpago do bote da carabina
atropelando o alado mergulho no espaço
um vinho tinto de safra
sobressalta a manhã
*Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista maranhense, autor de Moinhos (Litteralux, 2026)
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