Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

LUIZA CANTANHÊDE, poeta, toma posse na Academia de Letras Vale do Pindaré

ACADEMIA DE LETRAS DO VALE DO PINDARÉ – ALEVAP

DISCURSO DE POSSE

ACADÊMICA:

MARIA LUIZA CANTANHEDE GOMES

 

Mebros da Academia de Letras do Vale do Pindaré – foto: divulgação

 

Senhoras e senhores.

Saúdo o Presidente da Academia de Letras do Vale do Pindaré, poeta Paulo Rodrigues dos Santos Filho,estendendo esta saudação a todos os membros da casa de Ferreira Gullar; às autoridades, amigos e familiares presentes.

É sob o signo do compromisso coletivo com a literatura que dou início a este momento.

Há momentos em que a palavra deixa de ser apenas linguagem e se transforma em destino. Este é um desses instantes.

Recebo esta honraria com profunda gratidão e com a consciência de que nenhuma cadeira acadêmica pertence, de fato, a quem a ocupa. Ela pertence à memória, à cultura, à história e ao compromisso de fazer da escrita um documento vivo do nosso tempo.

Ingressar na Academia de Letras do Vale do Pindaré representa muito mais que uma distinção pessoal. É assumir o dever de preservar nossa herança literária, fortalecer a produção intelectual de nossa região e contribuir para que novas vozes encontrem espaço para se afirmar.

Agradeço aos confrades e confreiras pela confiança depositada em meu nome. Recebo este acolhimento como um chamado ao trabalho, à partilha e à defesa incondicional da literatura como território de dignidade e resistência.

O rito acadêmico nos convida a reverenciar o patrono ou a patronesse da cadeira que passamos a ocupar. E é com emoção que volto meus olhos para aquela que escolhi para inspirar a cadeira que hoje passo a ocupar:  a extraordinária filósofa e poeta Orides Fontela.

Nascida em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 1940, Orides teve uma origem humilde, mas carregava uma forte vocação para a escrita. Sua mudança para a capital e sua formação em Filosofia pela Universidade de São Paulo moldaram definitivamente sua escrita, afastando-a do confessional e aproximando-a da investigação do ser, do tempo e da matéria.

Estreou na literatura em 1969 com “Transposição” e construiu uma das obras mais originais e cortantes da poesia brasileira do século XX através de livros densos e precisos como “Helianto”, “Alba” que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, “Rosácea e Teia”. Sua escrita recusou os excessos e escolheu a crueza do essencial. É o que o crítico Antonio Candido definiu com exatidão como uma “parcimoniosa opulência”. Enquanto muitos buscavam o adorno e o brilho fácil das palavras, ela perseguia o despojamento absoluto, o gume que existe entre o dito e o não dito.

Sua poesia é feita de poucos vocábulos, mas de infinitos sentidos, cada poema parece nascer de uma longa meditação sobre a existência, a transcendência e o mistério de estar no mundo. Encarou uma trajetória marcada por dificuldades materiais e precariedade financeira, vivendo de maneira reclusa até seu falecimento em 1998, mas sem jamais negociar o rigor de sua arte. Em seus versos, a palavra recusa a mera descrição para se tornar revelação pura.

Orides compreendeu que a poesia não precisa ser abundante para ser imensa. Sua economia verbal tornou-se força estética, seu rigor transformou cada poema em osso e raiz, depurados pelo pensamento e pela sensibilidade.

Em uma época marcada por ruídos e vaidades, ela escolheu a concisão. Em um tempo de certezas dogmáticas, preferiu a força da pergunta. Enquanto muitos escreviam para convencer, Orides escreveu para despertar.

Sua obra permanece viva porque fala diretamente à nossa condição mais crua. Ela nos recorda que a poesia não é ornamento da vida; é uma forma de conhecimento e um exercício radical de liberdade.

Ao escolhê-la como patronesse desta cadeira, reafirmo minha escolha por uma literatura que desafia o leitor, que exige entrega e que nos ensina que a verdadeira grandeza habita o despojamento.

Trazer Orides Fontela para a proteção desta cadeira é, para mim, motivo de honra e, sobretudo, de responsabilidade. Comprometo-me a honrar seu legado cultivando uma escrita visceral, comprometida com a memória, com a justiça social e com a verdade da palavra.

Também chego a esta Academia trazendo comigo as estradas que me formaram. Sou filha das margens, da terra, das memórias profundas de mulheres que transformaram o trabalho bruto em resistência e o apagamento em voz. Minha mãe, mulher lavadeira, quebradeira de coco, zeladora e trabalhadora rural, ensinou-me que a dignidade nasce do esforço cotidiano e do respeito ao chão que se pisa. Foi com ela que aprendi que toda palavra verdadeira precisa carregar humanidade.

Minha poesia nasce desses encontros , da carne e da memória , entre o pertencimento e a denúncia. Escrevo porque entendo a literatura como um ato coletivo, uma engrenagem capaz de ampliar nossa percepção do outro e de nós mesmos.

O Vale do Pindaré é um território fértil de poesia. Suas águas, comunidades, povos, mestres da cultura popular e escritores compõem uma geografia afetiva que merece ser celebrada e resguardada. Esta Academia nasce exatamente desse compromisso: fazer da palavra um patrimônio comum.

Vivemos tempos em que a velocidade sufoca a reflexão e o excesso de ruído ameaça a escuta. A literatura resiste porque nos devolve o tempo da contemplação, da dúvida e da imaginação. Ela continua sendo um dos mais belos exercícios de liberdade que a humanidade já criou.

Assumo esta cadeira convicta de que escrever é um ato de responsabilidade social. Cada poema, cada livro e cada gesto em defesa da cultura ajudam a erguer uma sociedade mais sensível e justa com os seus invisibilizados.

Que esta Academia permaneça sendo um espaço de diálogo, diversidade, memória e criação. Que nossas vozes se encontrem para fortalecer, coletivamente, a literatura produzida em nosso Maranhão.

A Orides Fontela, minha eterna reverência.

À Academia de Letras do Vale do Pindaré, minha gratidão.

Aos meus confrades e confreiras, minha total disposição para caminhar ao lado de cada um na construção e perpetuação desta casa.

Muito obrigada.