Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Poeta Maria Emanuelle - foto: divulgação

Poemas de MARIA EMANUELLE OSÓRIO PRATES

 

Maria Emanuelle Osório Prates Nasceu em Montes Claros (MG) em 15 de novembro de 2000. É autora de amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024; semifinalista Prêmio Loba 2025) e de Pugilismo, segundo Lauren L., (Selo Capitolinas, 2026). Integra a Equipe de poetas da FaziaPoesia e é membro do Coletivo Escreviventes e do Neomarginais. Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É Etnoecóloga e doutoranda em Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais (PPGBURN) na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes de troca na adaptação diante da incerteza socioambiental.

 

 

*

 

Algas Vermelhas

 

na primeira vez que entrei no rio

fechei os olhos e mergulhei profundamente

fiquei com gosto de areia e sangue na pele

passei então

a mergulhar como quem para a noite se despe

não completamente, apenas o suficiente

sabendo que tanto na noite quanto no rio

a Areia sempre vem

  

 

chicletes tutti-frutti

 

andar sempre na ponta dos pés

descalça e silenciosa

sem olhar para os Reumatismos

não se pode despertar os Nomes

todos sob o tegumento de charcutarias

quieta, cada vez mais quieta

imóvel, translúcida, intocada

como a saudade grotesca das cristaleiras

podes beber nos meus copos

esta poeira na superfície

é do acúmulo de olhos

 

 

mesmo crescer no escuro é ir em direção à luz

 

tudo é pequenino,

para ver é necessário arregalar os olhos,

roubar o rosto do tempo

como quem pesca tamarindos

para com os dentes quebrar sua casca

e com a garganta chupar fortemente

seu sumo azedo

até subirem as canelas

múltiplos caules de muriçocas

 

 

respiração de bicho forte

faz ferida nas paisagens 

 

alguns arqueólogos acreditam 

que a idade das pedras lascadas 

trata-se na verdade da idade das 

pedras estilhaçadas a mudança se 

dá porque acreditam que os primatas 

não lascavam com atrito de lagarta 

pedra por pedra e sim com os estilhaços 

da queda faziam suas lanças.

lançaram o  artigo com o título: fazer armas 

com os estilhaços

que nos caem

 

 

namazu 

 

os peixes-remo medem aproximadamente seis 

metros. quando aparecem, dizem aos japoneses 

que é tempo de terremotos. a gramática diz: 

sua saída causa terremoto. o beiço diz: o terremoto 

causa sua saída. hoje, quando se vê um peixe-remo 

sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis. 

as relações da causa e consequência do influxo 

e efluxo de humanos, por outro lado, ainda não 

são totalmente conhecidas. há quem diga 

que todo humano é prelúdio de incêndio. 

há quem acredite que toda carbonização 

é prelúdio de humano. não se sabe se houve 

guerra porque existem humanos ou existem 

humanos porque houve guerra. 

aos humanos quando os vemos 

resta contar a lenda de um primata que corre como 

planta se esconde como pirilampo contempla kintsugi 

e sabe como provocar terremotos

 

 

da possibilidade de encontrar 

um psitacídeo intergaláctico

 

os grandes mamíferos das águas que são pescetarianos

 não tomam coca, querem mergulhar

 reduzir o consumo de coca ainda é produzir coca

 tomar coca light ainda é produzir coca

 reutilizar o vidro de coca ainda é produzir coca

 reciclar o vidro de coca ainda é produzir coca

 a pele do capitalismo adora esse tipo de cócegas

 tomar nenhuma coca ainda é produzir coca

 queimar queimar

 a fábrica de cocas

 

 

peixes – fonte: pinterest.com