Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Poeta César Borralho - foto: divulgação

CÉSAR BORRALHO: o poeta procura preservar o mistério da existência

 Paulo Rodrigues

Especial para o Sacada Literária

 

César Borralho nasceu em Codó (MA), em 11 de agosto de 1979, e chegou a São Luís ainda nos primeiros dias de vida. Foi na capital maranhense que cresceu e fez do magistério seu ofício. Convicto de que a família é o primeiro lugar onde a filosofia aprende a ser vida, é marido de Giselly e pai de Frederico. É graduado em filosofia, especialista em estética, bacharelando em direito, mestre, e doutorando em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão. Foi premiado em concursos literários no Maranhão, em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Paraíba. Sua escrita transita entre a poesia, a prosa e o ensaio. Mais do que um instrumento de expressão, vê na palavra uma forma de compreender a experiência humana. É criador do site literário Cadernos de Maré (cesarborralho.wordpress.com), espaço dedicado à publicação de poemas, crônicas, contos, ensaios e reflexões sobre literatura, filosofia e cultura.

 * 

  1. Paulo Rodrigues – César Borralho, a filosofia e a literatura dialogam. Tomás de Aquino afirmou “o filósofo é comparado ao poeta, pois os dois tratam das coisas que devem ser admiradas”. Você concorda? Como avalia essa questão?

 

César Borralho – Concordo. O filósofo procura compreender o mistério. O poeta procura preservá-lo. Ambos partem do mesmo ponto: o espanto. É por isso que o frade dominicano aproximou os dois. A filosofia pergunta por que o mundo é, enquanto a literatura pergunta como ele é sentido. Uma busca a clareza do conceito, e a outra, a profundidade da imagem. Quando caminham juntas, o pensamento aprende a sentir, e a emoção aprende a pensar. Sempre acreditei que nenhuma grande filosofia nasce sem imaginação, assim como nenhuma grande poesia resplandece sem reflexão. O filósofo ilumina o caminho; o poeta nos ensina por que vale a pena percorrê-lo. No fim, ambos tentam responder à mesma pergunta: como habitar este breve instante chamado vida sem perder a capacidade de se admirar?

 

  1. Paulo Rodrigues – César Borralho, o filósofo e o poeta convivem bem? 

César Borralho – Creio que sim. O filósofo e o poeta são atravessados por uma inquietação análoga. O que muda é a linguagem. O filósofo tenta transformar o mistério em conceito. O poeta devolve o conceito ao mistério. Um pergunta para compreender, o outro canta para abrir passagem para a imagem. Quando se afastam, a filosofia corre o risco de tornar-se apenas técnica, e a poesia, mero ornamento. Mas, quando caminham lado a lado, o pensamento ganha imaginação e a beleza encontra profundidade. Talvez por isso os grandes filósofos tenham compreendido que nem toda verdade se deixa aprisionar pelo conceito, recorrendo à metáfora quando a razão alcança seus limites. Não seria exagero supor que os grandes poetas tenham intuído que todo verso verdadeiramente belo abriga uma pergunta que a filosofia jamais deixou de fazer. No fundo, ambos habitam as mesmas perguntas. Apenas aprenderam a formulá-la em idiomas diferentes.

 

  1. Paulo Rodrigues – Qual a real importância da leitura do texto literário na formação dos filósofos? O filósofo precisa ler literatura?

César Borralho – Penso que sim. A literatura não é um adorno na formação do filósofo, ela é uma de suas escolas. A filosofia ensina a pensar com rigor, mas a literatura ensina a perceber aquilo que o rigor, sozinho, nem sempre alcança. Ela amplia a experiência humana, dá rosto aos conceitos e voz às questões que nenhuma definição consegue esgotar. Ler um romance, um poema ou uma tragédia é encontrar a liberdade, a culpa, o amor, a morte, a justiça, a angústia e a esperança com rosto, voz e destino, e não apenas em categorias abstratas. A literatura recorda ao filósofo que toda teoria nasce, em última instância, de uma vida concreta. Por isso, penso que o filósofo precisa de literatura. Não para abandonar os conceitos, mas para impedir que eles se tornem estéreis. A filosofia oferece profundidade ao pensamento, mas a literatura oferece profundidade ao olhar. Quando dialogam, compreendemos não apenas o que o ser humano pensa, mas também o que ele sente, sofre, deseja e sonha.

 

  1. Paulo Rodrigues – O poeta Antonio Cicero reafirmava sempre: “Ler um poema estimula nosso pensamento em todos os sentidos”. Você concorda com a sentença? 

César Borralho – Não tenho razões para discordar. Um poema não apenas estimula o pensamento, ele o desloca. Faz a inteligência sair de seus caminhos habituais e entrar numa região onde razão, sensibilidade, memória e imaginação começam a trabalhar juntas. A poesia pensa de outro modo. Ela não demonstra como um tratado, não explica como uma aula, não conclui como uma sentença. Ela sugere, abre, provoca, fere e ilumina. Um verso impactante continua pensando dentro de nós muito depois da leitura, porque não se limita ao entendimento imediato. Ele permanece como pergunta, como imagem, como inquietação. Por isso, Antonio Cicero tem razão. Ler um poema estimula nosso pensamento em todos os sentidos porque nos obriga a perceber que pensar não é apenas organizar ideias. Pensar também é sentir com lucidez, imaginar com rigor e escutar aquilo que a linguagem comum costuma esconder. A poesia nos devolve a complexidade da experiência humana. Depois dela, o mundo não fica explicado, mas fica mais intenso. E talvez seja justamente aí que comece o pensamento mais profundo.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais as influências literárias que formaram o poeta César Borralho? 

César Borralho – Minha biblioteca interior foi sendo construída como acontece toda grande amizade: por encontros inesperados, pela ausência de pretensão e pela descoberta de afinidades. O primeiro poeta que me revelou a força da palavra foi Vinicius de Moraes. “Como alguém conseguia dizer aquilo daquela maneira?”, pensei. Foi o marco da geografia afetiva das minhas leituras. Um livro verde com detalhes dourados e folha de bíblia. Poesia Completa e Prosa, volume único. Ainda havia um apêndice: Fortuna Crítica. Era eu muito jovem e não suspeitava que, anos depois, faria daquelas três paixões o eixo da minha própria caminhada. Foi com o “poetinha” que descobri que a palavra podia ser, ao mesmo tempo, música, confissão e transcendência. Depois vieram um a um, como quem chega sem bater à porta e decide morar dentro da gente. Carlos Drummond de Andrade talvez tenha sido o que mais ecoou fora da rima. Com ele aprendi que o extraordinário não está no alto, mas escondido nas dobras do cotidiano, à espera de um olhar que o desvele. Fernando Pessoa chegou até mim na caravana estelar dos seus heterônimos. Com eles, percebi que uma única identidade pode conter um universo inteiro. Manuel Bandeira veio na ponta dos pés, com a delicadeza de quem faz da simplicidade uma forma de eternidade. Sua poesia me ensinou que a beleza quase sempre habita os lugares que a pressa não tem tempo de ver. Gonçalves Dias surgiu de longe, trazendo a memória da terra, o cheiro do passado, os olhos de Ana Amélia, a certeza de que a poesia também se faz com saudade e pertencimento. Ferreira Gullar chegou em seguida, mas o deixei para depois, sendo a minha penúltima descoberta. Nauro Machado foi um acontecimento que se deu por salto, susto e calafrio. Foi quando descobri que poetas também respiravam e podiam caminhar entre as pessoas comuns. O homem antecedeu a obra, não a fama, e talvez por isso eu a tenha lido com outro olhar, como se os poemas apenas ampliassem a pessoa que eu já admirava. Com seus versos densos como sal e vento, trouxe a certeza de que a poesia também nasce do chão que se pisa e do mar que se carrega nos olhos. Não tardou que me chegassem as vozes femininas, que me tocaram de outro modo: Cecília Meireles transformou a delicadeza em meditação sobre o tempo, cada palavra um fio de água escorrendo entre os dedos; e Florbela Espanca, com o peito aberto, cada verso uma ferida sangrando a dor de amar, como se a linguagem fosse o único abrigo possível para o que não cabe no corpo. Mais tarde, num rompante de luz estrangeira, encontrei Rimbaud e ele me mostrou que a poesia também é vertigem, é desmoronar-se por inteiro, é correr o risco de não voltar. Todos eles ficaram e trouxeram outros tantos, não apenas na bagagem. Apenas neste instante percebo que essas influências moldaram minha maneira de olhar o mundo. Cada um me ensinou uma forma diferente de compreender a existência. O maior legado que recebi deles foi a convicção de que a poesia é um modo de pensar, de sentir e de habitar o mistério da vida.

 

Antologia com participação de César Borralho

 

  1. Paulo Rodrigues – Como você avalia a literatura contemporânea brasileira? E quais autores destacaria na literatura contemporânea maranhense? 

César Borralho – Vejo a literatura brasileira contemporânea não como mais um capítulo de nossa história, mas como um daqueles raros momentos em que uma cultura volta os olhos para si e, ao contemplar o próprio reflexo, descobre que sempre foi maior, mais diversa e mais complexa do que se concebia. A sua maior força não reside apenas na variedade de temas, mas na multiplicidade de vozes que finalmente encontraram espaço para dizer o mundo a partir de suas próprias experiências. Durante muito tempo, acreditou-se que a literatura brasileira pudesse ser narrada por um número restrito de perspectivas. Hoje, mulheres, escritores negros, indígenas, autores LGBTQIA+ e representantes de grupos historicamente minorizados ocupam o lugar que sempre lhes pertenceu. Não chegaram para preencher uma ausência estatística nem para atender apenas às exigências do presente. Vieram ampliar o horizonte da nossa imaginação e revelar dimensões do Brasil que permaneciam ocultas sob a mordaça da história. Essa transformação não altera apenas o repertório de autores. Ela modifica a própria maneira de compreender o país. Cada nova voz acrescenta um ritmo, um olhar, uma memória e uma sensibilidade que obrigam a língua a descobrir possibilidades que ainda não conhecia. A literatura, afinal, não cresce apenas quando incorpora novos escritores. Ela cresce, sobretudo, quando aprende a enxergar o ser humano por ângulos que antes lhe escapavam. Talvez seja esse o sinal mais evidente de uma literatura viva. Ela não substitui uma tradição por outra. Ela a amplia. E, ao ampliar a tradição, amplia também a nossa capacidade de compreender quem somos.

Entre as vozes mais representativas desse momento, destaco Itamar Vieira Junior, cujo romance Torto Arado devolveu protagonismo ao sertão brasileiro por meio de uma escrita de extraordinária força poética e profunda consciência histórica. Destaco também Conceição Evaristo, que fez da “escrevivência” uma das contribuições mais originais à literatura brasileira contemporânea, convertendo a memória e a experiência coletiva da população negra em criação estética de altíssimo nível. Ao lado deles, Jeferson Tenório, em O Avesso da Pele, oferece uma reflexão sensível e contundente sobre racismo, pertencimento, afetos e memória. Temos o Ailton Krenak, cuja obra ultrapassa os limites da literatura para dialogar com a filosofia, a ecologia e a espiritualidade. Seus livros nos convidam a repensar a relação entre humanidade e natureza, questionando a lógica que transformou o progresso em sinônimo de destruição. Em sua escrita, a palavra recupera uma dimensão ancestral, lembrando-nos de que contar histórias também é uma forma de cuidar do mundo. Os temas que atravessam essa produção revelam uma literatura profundamente comprometida com o seu tempo. A identidade, a desigualdade social, a memória da ditadura, o racismo, a violência, a crise ambiental e os desafios da democracia aparecem não como simples temas da atualidade, mas como questões humanas permanentes, que interrogam nossa consciência e nos obrigam a reconsiderar o modo como habitamos o mundo. Talvez essa seja a marca mais profunda da literatura contemporânea: ela não apenas retrata o presente, mas amplia nossa capacidade de compreendê-lo. Também merece reconhecimento o papel das editoras independentes. Elas ampliaram o horizonte da literatura nacional ao apostar em autores e projetos estéticos que dificilmente encontrariam espaço nos grandes conglomerados editoriais. Graças a esse movimento, a criação literária brasileira tornou-se mais diversa, mais ousada e mais representativa da complexidade nacional. Naturalmente, existem desafios. O mercado editorial tende a privilegiar obras de maior retorno comercial, e a disputa pela atenção do leitor, em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e das plataformas digitais, exige novas formas de aproximação com a literatura. Ainda assim, vejo esse cenário com esperança. A boa literatura sempre encontrou maneiras de sobreviver às transformações do seu tempo. Acredito que estamos vivendo um período de grande efervescência criativa, no qual uma nova geração de escritores reafirma a vitalidade da literatura brasileira e recoloca o Brasil entre os espaços mais relevantes da produção literária em língua portuguesa.

Se tivesse de destacar alguns nomes na literatura contemporânea maranhense, começaria por Arlete Nogueira da Cruz, cuja obra sempre impressionou pela delicadeza da linguagem e pela capacidade de transformar memória, afetos e cotidiano em poesia de grande densidade. Nauro Machado, uma das vozes mais originais da poesia maranhense. Sua escrita reúne rigor formal, inquietação filosófica e uma permanente reflexão sobre o tempo, a morte e a condição humana. Reservo um lugar especial a Viriato Gaspar, poeta cuja voz permanece viva e necessária na tradição literária maranhense. Poeta de grande sensibilidade e refinada perícia, cuja obra recentemente concluída, continua decisiva para compreendermos a poesia contemporânea. Sua escrita preserva uma dimensão profundamente humana e precisa ser constantemente redescoberta. E não poderia deixar de mencionar Ferreira Gullar. Embora sua trajetória tenha ultrapassado as fronteiras do Maranhão para tornar-se patrimônio da literatura brasileira, sua poesia permanece como uma das maiores realizações da língua portuguesa no século XX, conciliando experimentação estética, reflexão crítica e compromisso com a realidade.

Naturalmente, esses nomes não esgotam a literatura maranhense contemporânea. Tenho procurado conhecer mais profundamente outros autores de nosso estado, e considero esse um aprendizado permanente. Acredito que um leitor nunca termina de descobrir a literatura da própria terra. Talvez essa seja uma das alegrias da leitura: perceber que sempre existem novas vozes esperando para nos transformar.

 

  1. Paulo Rodrigues – No poema TIPOGRAFIA, o último verso diz: “Então adormeço e escrevo poesia/ na medula do carbono”. Comente sobre o seu processo criativo? 

César Borralho – Esse poema talvez contenha uma definição do meu processo de criação. Durante muito tempo, acreditei que escrever era dominar a técnica. Lia Vinicius, Fernando Pessoa, Gonçalves Dias e tantos outros tentando descobrir o segredo da poesia. Com o tempo, compreendi que não existe um método para escrever um poema. Existe apenas uma vida que insiste em transformar-se em linguagem. A poesia não nasce quando me sento para escrever. Ela começa muito antes, nas experiências que me atravessam, nas perdas, nos afetos, nas leituras, nas inquietações filosóficas e até nos silêncios. Escrever é apenas o momento em que tudo isso encontra uma forma.

O verso final, “Então adormeço e escrevo poesia na medula do carbono”, nasceu justamente dessa percepção. À medida que a vigília cede, inaugura-se o instante em que as palavras deixam de responder à vontade consciente. É quando a imaginação passa a conversar com regiões mais profundas da memória e da sensibilidade. O carbono, por sua vez, é a matéria da vida. Escrever na medula do carbono significa tentar alcançar aquilo que existe de mais essencial no ser humano, aquilo que permanece antes mesmo das palavras. Talvez seja por isso que eu nunca tenha acreditado na poesia como um simples exercício de inspiração. Ela exige trabalho, leitura e disciplina, mas exige também escuta. O poeta escreve muito menos aquilo que deseja dizer do que aquilo que, de algum modo, insiste em nascer dentro dele. Quando isso acontece, tenho a impressão de que o poema não foi exatamente escrito, apenas tive o privilégio de escutá-lo primeiro. Transcrevê-lo é outra empresa. O desafio é permanecer fiel ao que ele me disse.

 

  1. Paulo Rodrigues – César Borralho, quais são os novos projetos literários?

César Borralho – Tenho aprendido a não fazer muitos planos para a literatura. Enquanto isso, sigo participando das antologias que surgem pelo caminho, porque elas me permitem dialogar com outros escritores e manter viva essa pequena alegria de publicar.

Quanto ao meu livro de poemas: é o livro que nunca termino e, justamente por isso, nunca publico. Talvez eu ainda esteja escrevendo o poeta antes de concluir o livro. Acabei de lembrar de uma frase que disse certa vez em uma entrevista: não publicarei um livro para me tornar poeta, mas quando me tornar poeta publicarei um livro. Ou eu estava equivocado, ou tornar-se poeta, a mim, é um horizonte que nunca se alcança por completo, porque não se trata de um ponto de chegada, mas de uma travessia permanente. Talvez por isso eu tenha deixado guardada, na juventude, a pressa de publicar.

Quando penso na inevitável metamorfose do poema em negócio jurídico, na tratativa comercial com as editoras, na liturgia do adimplemento contratual, na embaraçosa missão de disputar pessoas ocupadas com a própria agenda para um lançamento, no desconforto de fazer dos amigos financiadores involuntários da minha escolha, no constrangimento de ocupar o centro das atenções, no ofício de criar dedicatórias sinceras na velocidade de quem diz algo por educação, na preocupação cuidadosa de acolher bem cada pessoa que chega, cada uma das treze pessoas que provavelmente irão… Percebo que me sinto melhor longe de tudo isso. Além do que a solenidade sempre me parece maior que o escritor.

Publicar é aceitar essa vulnerabilidade, colocar diante do mundo algo que levou anos para amadurecer, sem a menor garantia de acolhimento. Talvez exista nesse projeto uma melancolia antecipada, nascida da consciência de que a realidade jamais corresponde inteiramente ao que sonhamos. Ainda assim, se esse momento um dia chegar, espero que a publicação seja apenas a consequência natural de uma vida dedicada à palavra, e não a tentativa de provar que ela valeu a pena.

Nos últimos tempos, tenho me dedicado intensamente à leitura e análise de poemas. Ler profundamente outro poeta é também uma maneira de aprender a escutar melhor a própria voz.

Ao mesmo tempo, percebo que um romance começa, lentamente, a tomar forma em minha cabeça. Ainda não sei exatamente qual história ele contará. Sei apenas que alguns personagens já caminham pela minha imaginação e insistem em permanecer ali. Além disso, continuo escrevendo crônicas e contos sempre que a vida me oferece uma boa história ou uma pergunta que precisa ser transformada em literatura.

Interessa-me absolutamente permanecer fiel ao processo criativo. É uma maneira de continuar habitando o mundo com curiosidade, espanto e esperança.

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

César Borralho – A leitura é a infância secreta de todo escritor. Nenhum escritor nasce da escrita. Todos nascem da leitura. Escrever é o ofício de quem aceita que nunca dirá tudo, mas insiste ao tentar. Cada texto é uma carta que atravessa o tempo sem saber se encontrará alguém do outro lado. E talvez seja isso o que nos move: a aposta silenciosa de que há, lá fora, um par de olhos que precise exatamente do que estamos a dizer. Devemos escrever para que alguém, um dia, se sinta menos sozinho. Não se escreve com tinta nem com luz. Escreve-se com aquilo que a gente ainda não conseguiu ser. O texto é o ensaio, a respiração ofegante de quem tenta alcançar a própria altura. Cada verso arranca uma camada que já não nos serve. O que sobra no final não é uma obra. É o osso limpo, uma figura mais autêntica do que aquela que começou a escrever. O escritor não termina um livro. Enterra uma versão de si que já morreu. Cada página virada é uma pele deixada para trás. A palavra escrita não conta histórias. Conta o preço que se pagou para chegar até ela. Não há rima mais bela do que a decisão de existir por inteiro. Não há prosa mais precisa do que a vida que não se desculpa. O poema não está no papel. Está na garganta de quem ousa dizer o indizível. Por isso, escreva como quem se constrói. E um dia, sem aviso, vais perceber que já não és mais o autor. És a própria obra. Cada poeta, tornado o seu melhor poema. Cada escritor, encarnado no texto que, afinal, sempre foi ele.

 

 

 

Poemas de

César Borralho

 

I

A Queda

 

Voei julgando-me o mais alto pioneiro,
tomei por sol o esplendor da falsa glória;
mas fez o tempo, impassível na trajetória,
da minha voz um eco em cativeiro.

Caí. E o mundo, antigo companheiro,
fez do meu nome cinza transitória.
Perdi o mapa, a bússola, a memória,
restando apenas o vexame por inteiro.

Ninguém conhece a própria estatura
se não mede o chão com o próprio corpo,
pois só a queda revela o peso da altura.

É o abismo quem restitui o paradeiro.
Só resiste à vida quem, da sepultura,
faz da própria ruína chão mais verdadeiro.

(César Borralho)

19/06/2026

 

II

Anatomia da Ausência

Teu corpo veio depois.
Antes, vieram as fotografias,
pequenas mentiras luminosas
que a distância aperfeiçoa
e o desejo prefere chamar de destino.

Porque o mundo fechava as portas,
abri um quarto atrás dos meus olhos,
para repousar o teu cansaço junto
ao meu desejo clandestino.

Quando finalmente te encontrei,
já não cabias em teu próprio nome.
Havia em ti tudo aquilo
que passei anos inventando.

Continuei alimentando
o que o desejo havia escrito.
A poesia em tua boca era
o vinho, não o infinito.

Aproximamos nossas taças.
Choravas no terceiro gole.

Dançávamos sem tropeçar
em nenhuma palavra.

Depois partiste.

A cidade distante é
sempre mais elegante para
justificar a despedida.

Levaste a minha melhor versão.
A que só existia quando eu era capaz
de perceber o gosto do beijo,
o cheiro da pele, os olhos oblíquos.

Desde então,
não sinto tua falta.
Mas, às vezes, grito!

Sinto a falta do homem
que acreditava caber inteiro
dentro do próprio desejo.

Hoje, quando teu corpo
atravessa o acaso,
já não escuto os teus passos.

Troquei o assoalho,
reorganizei a mobília.

A casa não está vazia.
Continua aberta,
sem entrada e sem saída.

Ninguém jamais regressa
onde não habita.

Ainda assim, da única janela,
sai uma luz que clareia a noite.

(César Borralho)

25 de junho de 2026

 

III

Funeral para dois

 

Eu te amei
como as ruínas amam a chuva:
sem esperança de reconstrução,
apenas pelo prazer de
desabar um pouco mais.

Havia em teus olhos
uma noite antiga,
dessas que não pertencem ao céu,
mas a um cais abandonado.

Tu me tocavas
como quem abre um livro proibido
com o candeeiro apagado.
Com medo.
Com fome.
Com devoção.

E eu, que sempre temi o escuro,
passei a dormir dentro dele,
em teu caixão amarelado
porque teu corpo
tinha o mesmo perfume
das flores deixadas sobre os túmulos
no Dia de Finados.

Nos amamos assim:
como duas criaturas feridas
tentando transformar cicatrizes
em linguagem.

Mas o amor, às vezes,
não salva.
Apaga a luz
daquilo que já estava condenado.

Na última noite,
teu adeus caiu sobre mim
como neve sobre o silêncio.

Desde então,
há um inverno infinito
em meu sobrado.

E teu nome,
continua sendo
a forma mais escura
da minha eternidade.

(César Borralho)

28/05/2026

 

IV

As Cores de Vincent

A Theo van Gogh

 

Theo,

Pintei girassóis para semear o sol

porque a noite se adensava.

Eles incendeiam a tela:

labaredas que não se apagam.

 

Meus sapatos gastos

me imprimem pegadas,

brasa que calcina as cores

e abre todas as janelas.

 

No quarto em Arles: mazelas.

A solidão inclina a cadeira vazia.

Quem sabe, um dia, alguém

acolha a ternura fria.

 

Os comedores de batata,

mãos terrosas, rostos sulcados:

à luz magra da lamparina, a sina;

a beleza áspera do trabalho, penúria,

a dignidade no colo da menina.

 

A noite estrelada

não é o céu lá fora,

é o redemoinho que me habita,

gira em espiral ao infinito

e me precipita.

 

Theo,

Cada cor é pigmento de minha

alma: quando o amarelo sorri

é porque ainda acredito na vida;

quando o azul se fecha

é porque já não há saída.

Diálogos no arco da memória

entre a palavra febril de outrora

e a paleta do instante derradeiro.

 

Eis minha fortuna, irmão:

óleo sobre tela — cartas pictóricas,

à procura do teu olhar primeiro.

 

(César Borralho)

01/12/2026

 

V

A Rosa Decalcada na Roseira

 

Atração é ponte entre abismo e travessia,

clarão vermelho nascido antes do dia.

Parto, toque, desejo, olhar: fronteira.

Tesoura que corta o umbigo da parteira.

 

Retorno ao porvir, atraso antecipado

antes mesmo de existir. Eco estrangeiro,

sopro do que não foi nem veio a ser,

último encontro antes do primeiro.

 

É déjà-vu ainda não vivido,

penúltima vez antes da primeira:

rosa na pele, stencil na roseira.

 

Quando tudo começou, nos divorciamos;

a paixão feneceu logo que surgiu.

Imóvel na chuva, temi o que se abriu.

 

(César Borralho)

28/02/26

 

VI

Tipografia

 

Ao conhecer Gonçalves Dias e Pessoa,

eu tentei inutilmente e à toa ser poeta,

sem o talento do artesão e nem a verve

inconfundível e espantosa do esteta.

 

Dá-me na boca o verso quente e cru

que engasga na garganta da caneta,

entorna tinta na gaveta do papel,

é quando abandono a incerteza e com

cinzel escrevo na medula do carbono.

 

(César Borralho)

04.02.2020

 

VII

Três Marias

Às minhas mães, as mulheres da minha vida:

Maria Zenilde, Maria Crescência.

 

À gosto, o hemisfério se rompeu em dividida,

uma me apanhou no colo, a outra deu nascida.

 

A porção de leite que me fora prometida

não foi do seio da minha mãe que me veio,

foi de volumosa e esquisita criatura.

 

Nunca tomei uma dose de colostro, mas

a minha mãe me amamentou olhando-me

no rosto com incrível gesto de ternura.

 

A má sorte havia antes batido à porta da minha

coautora a causar desordem em sua mente,

ocasionando um estado de loucura permanente

que a tomaria por toda a sua vida.

 

Castigo, inclinação de genes ou trabalho sujo…

Como saber se foi o diabo, Javé ou um bruxo?

 

Condenada minha mãe a uma epilepsia psicológica,

sentia o perfume da cor e amargura da rosa.

 

Nunca teve alegria, nunca pôde viver.

Talvez um dia ou nunca nos veremos,

já se vão quatro anos da sua partida.

 

Uma que só me amou, a outra que eu não pude ter.

Cresci nessa fatia de pão mofado e poesia.

 

O último filho saído do seu ventre logo perdeu

o estatuto de caçula pela porção generosa de veneno

do destino cujo o sangue materno coagula.

 

Tive mais sorte que o pobre sarraceno que perdeu

a mão, a mãe e a infância pela bomba que explodiu

o amor em estilhaços cegos de esperança.

 

A mãe que sempre me criou e ainda hoje é quem

me cria, dando força em meus passos e me doando

a beleza onde sozinho eu jamais conseguiria.

 

Eu tão feio pequenino, mas ela me fazia belo

com seu sorriso espontâneo de sol amarelo,

minha vela, meu espelho reverso, minha lamparina.

 

Uma leoa a lamber o seu filhote mas sem nunca

me abandonar – uma santa a minha mãe Maria.

Tudo o que a mim faltou eu tive mais que merecia.

 

Antes da minha última lua se apagar, não poderei

reclamar do que em mim doía apesar da sorte.

.

A gratidão um dia tratou de ser meu guia porque

eu tive duas mães sim, duas mães e três Marias.

 

(César Borralho)

27/08/2020

 

VIII

A Mesa do Meu Pai

 

Meu pai tinha seu garfo e sua faca.

Ninguém tocava.

 

Comia sempre na mesma cadência,

como quem reza com o pão e a palavra.

 

A cozinha era um vilarejo.

Os filhos por perto se reuniam

com os que não estavam.

 

Lá da pia, assistia ao meu pai

assistir televisão e franzir a testa

para o mundo.

 

As últimas vezes que almocei com ele

eu não sabia: só restavam sete.

 

Os ovos rolavam da cesta

e se espatifavam no chão,

pela ventania.

 

Cálcio perdido na cerâmica fria.

A armadura se despe do cavaleiro,

a luz não dura noventa dias.

 

Almoço todos os dias com meu pai.

 

Não mastiga, não sorve gole d’água,

não acolhe a doçura de uma fruta.

 

Permanece em silêncio na cadeira.

Os olhos se rendem ao cochilo

da tarde inteira do infinito.

 

Quando ele se foi,

trouxe minha mãe de volta à mesa.

 

Ela senta na ponta, quase não fala.

Mas a gente ouve os dois rindo,

pelo barulho do talher.

 

A saudade é sonora:

a faca tilinta no garfo,

o garfo retine na sala.

 

Entoo a prece que me demora,

deito o pranto sob o prato,

porque eles permanecem ali,

entre o véu e o guardanapo.

 

(César Borralho)

10/08/2025

 

IX

Alfama 

 

A solidão é um pássaro

faminto de outro pássaro.

 

Quando sorrimos,

às vezes a vida nos escapa…

e o tom nos muda,

de cor.

 

Se na vida há algum mistério

é guardado segredo das coisas

que ao homem velho

se repetem sem exatidão,

sem muita prece,

sem perdão!

 

Escondido no rosto mais firme da face

todo afeto é movimento de imagem

como na pele a tatuagem que só você vê.

 

Que lembrança teus olhos te trazem

enquanto todos dizem apenas que é chuva?

 

A infância é um rio

que nunca se perdeu.

 

O que o corpo grita?

De que água tua alma é favorita em sede?

Sobre a sombra de qual parede te escondes

e teu suor te desespera?

 

Pele é alma na camada mais fina do ser,

uma menina correndo descalça na rua.

 

O corpo é o único moço que sabe o que quer.

 

Não existe outro tempo, existe o abismo

a fincar sem timidez mais uma cruz.

 

Com gigantesco poder de atmosfera…

apenas goza em sua órbita a lua

e mesmo cheia ou nua não reluz:

 

– Afasta de si no céu a escuridão!

 

(César Borralho)

 

Túneis Invisíveis

 

Quando algo ascende à chama ainda

rosna a fera a tudo o que hiberna,

a boca que era farta se dá faminta,

devorando todas as quimeras.

 

Não existem flores na primavera,

só segundas intenções.

 

O pouco que outrora acalmava,

(um dia) desespera!

 

O vento se torna o faro do lupino,

o pássaro atrai a pedra do menino

e tudo tem a sede de um carnívoro.

 

A memória é zona de conflito,

intersecção de túneis inundados,

submarino atroz, desgovernado que

não protege a própria carenagem.

 

Todo esforço é luta aflita do selvagem

para desacreditar das coisas do silêncio.

 

À coragem só existe o movimento

contra a certeza e tudo o que ela crê

atenta ao que causa a inquietude,

alheia ao que esta causa ao ser.

 

Emperrar as engrenagens do silêncio

é transcender o calor do útero estéril,

exceder o puerpério e contrair a calmaria.

 

A ama de leite amamenta o futuro

em plena agonia, a mama esquerda

dá leite, a direita – epilepsia.

 

É preciso quebrar gavetas de ouro,

panificar com fermento tibetano

incontáveis tesouros africanos e

conter toda hemorragia.

 

Não é o sol que vira as páginas do dia,

mas tão-somente aquilo que amamos.

 

(César Borralho)

 

 

          Van Gogh,  1888

 

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Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista, autor de Moinhos (Literalux, 2026), premiado pela União Brasileira de Escritores.