PAULO RODRIGUES ENTREVISTA
O COMPOSITOR JOSIAS SOBRINHO

Josias Sobrinho – Maranhão
Nascido em 1953, no município de Penalva, no interior do Maranhão, o cantor, compositor e violonista Josias Sobrinho começou a compor em Belo Horizonte (MG), onde morou por dois anos. De volta ao seu estado natal, em 1972, aproximou-se do recém-criado Laboratório de Expressões Artísticas, mais conhecido como Laborarte, que reunia artistas locais em torno de pesquisas sobre a cultura maranhense.
Em 1978, o músico Papete gravou quatro canções de Josias Sobrinho no disco Bandeira de Aço, dando visibilidade ao jovem cantor e compositor que vinha atuando intensamente na cena cultural maranhense dos anos 70. Na década seguinte, Josias Sobrinho teve algumas músicas incluídas em coletâneas, até que em 1987 lançou seu álbum solo de estreia, Engenho de Flores.
Com mais de 50 anos de carreira, Josias Sobrinho teve composições gravadas por grandes nomes da MPB, como Alcione, Rita Bennedito, Diana Pequeno, Pena Branca e Xavantinho, Leci Brandão e até pela apresentadora Xuxa Meneghel. Josias é um dos grandes nomes da música maranhense, por sua atuação dentro e fora dos palcos.
*
- Paulo Rodrigues – Josias Sobrinho, você afirmou certa vez: “fazer música essencialmente maranhense significa uma posição política para mim”. Continua com esse pensamento?
Josias Sobrinho – Salve, Paulo Rodrigues! Ao longo desses mais de cinquenta anos de atuação no métier musical maranhense, fazendo essencialmente musica autoral própria, nossa convicção é de que se trata de uma posição que busca fortalecer a identidade cultural que nos é cara, produto de séculos de lutas em prol de afirmações socioculturais. Ainda é assim. Razão de ser e estar.
- Paulo Rodrigues – Josias, para alguns críticos o disco Bandeira de Aço é um dos principais álbuns da música brasileira. Sérgio Habibe, César Teixeira, vocês fazem parte dessa obra-prima. Esse disco ainda representa um pouco da alma do povo brasileiro/maranhense?
Josias Sobrinho – … E Ronaldo Mota, o autor da música Boi de Catirina, uma das mais belas do disco. Sim. Assim creio, pois lá estão presentes o modo de ser e estar no mundo que o maranhense concebeu e deu vida. Elementos do bumba meu boi, do tambor de mina, da encantaria, do samba e da canção genuinamente maranhense, com um elenco de compositores que lançam nesse álbum bases solidas para o que viria (um pouco mais tarde) ser chamado de MPM.
- Paulo Rodrigues – No samba Terra de Noel temos: “Não vou tirar meu chapéu/ Pra qualquer vagabundo/ Nasci na terra de Noel/Sou cidadão do mundo”. Você dialoga com a tradição musical do Brasil? Faz música maranhense pensando nosso país e o nosso povo?
Josias Sobrinho – Noel Rosa é uma referência primordial para a canção brasileira. O cara que saído da classe média carioca dos anos vinte do século passado sobe o morro e troca figurinhas com os bambambãs do samba ainda favelado naquela época. Um campeão que viveu pouco e criou muito e definitivamente. Bebo nessa fonte desde o início. O samba é presença nacional. Em todo e qualquer lugar do país se tem um samba nativo e original. No Maranhão não é diferente. Na minha música também não.
- Paulo Rodrigues – Você é um grande estudioso da cultura do Maranhão. E o Bumba meu boi é a expressão máxima da cultura popular do nosso estado. Nós poderíamos ser mais influentes na cultura nacional? Falta apoio?
Josias Sobrinho – Um dos nossos problemas mais graves, o que é de fato uma estupenda vantagem, é termos originalidade cultural enraizada na tradição popular nossa que é única
no país, com elementos próprios, personagens, léxico e sintaxe inventadas pelo povo mais sofrido do estado. Os outros são a ignorância cultural reinante na grande maioria da classe política e social dominante. Tem também a ausência de formação cultural favorável dos que compõem o mercado consumidor da cultura que aí está.

- Paulo Rodrigues – Josias Sobrinho, como é o seu processo criativo? É autodidata?
Josias Sobrinho – Comecei compondo solitariamente, letra e música ao violão, isso durante duas décadas, salvo os trabalhos em parceria feitos para o teatro, com Tácito Borralho, Aldo Leite e outros. Durante e depois do Rabo de Vaca, fui me adaptando as condições de socialização necessárias para criações em parceria. Começando com Betto Pereira, o mais frequente e outros, como Kleber Albuquerque, Ronald Pinheiro, Chico Saldanha e mais um tanto.
Meu aprendizado inicial foi autodidata, depois frequentei alguns cursos de instrumento e teoria musical, literatura musical teórica e prática. Aos 53 anos me formei em Música (Licenciatura pela UEMA), mas estudo até hoje.
- Paulo Rodrigues – Fale um pouco para nós sobre a criação de Engenho de Flores, que é uma obra primorosa do cancioneiro nacional.
Josias Sobrinho – Essa é uma canção que me remete as origens em Tramaúba, Penalva e Cajari. Lugares onde se fundaram as bases de minha persona artista e social. Vem com ela lembranças da vó Antonina, nossa mãe Nhêm, também os cantadores de boi desses lugares que plantaram em mim esse sabor especial de ser e estar no mundo, assim como as coisas que se pode fazer em uma canoa numa manhã de pesca no Rio Maracu, ali próximo de sua desembocadura no Pindaré.
É também minha música mais gravada.
- Paulo Rodrigues – A sensação que eu tenho ao ouvir Catirina, As Perigosas, Dente de Ouro e (outras canções dentro da sua extensa obra musical), é que Josias Sobrinho não seria tão genial se não fosse maranhense. Como você analisa essa minha afirmação?
Josias Sobrinho – Sem o Maranhão, eu não seria Josias Sobrinho. Eu sou um dos tantos que o Maranhão produziu ao longo de sua história, que se dedicaram à afirmação de suas origens e lugar de fala. Apenas isso.
- Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do Josias Sobrinho?

Josias Sobrinho – Fiz este ano o Embaixadeiros, em parceria com Aziz Jr e Elizeu Cardozo, uma mostra, através da Lei Paulo Gustavo, reunindo dez atrações oriundos da Baixada Maranhense, entre interpretes, compositores e músicos, que pretende se estender a outros municípios da região agregando participações de locais e do entorno. Faço ainda este mês um outro projeto reunindo quatro artistas vindos dos anos setenta ainda presentes na cena, o Quatro 70, com Chico Saldanha, Sergio Habibe, Josias Sobrinho e Joãozinho Ribeiro. E mais adiante, ainda este ano uma circulação estadual com o material do Canção em Canção, gravação de cem músicas inéditas de minha obra que gravei em 2023.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Josias Sobrinho – Espero nos encontrarmos bem brevemente em um desses lances culturais que tanto nos são caros. Obrigado, por tudo. Um abraço. E até!!!

[Algumas]
Composições
DENTE DE OURO
[Josias Sobrinho]
Se eu tivesse um dente de ouro
Eu mandava tirar pra viver
Eu mandava encruzar e benzer
Eu mandava entregar pra gegê
Se eu quisesse uma vida comprida
Eu seria no fundo um besouro
Teria no escuro da ilha
Enterrado um bonito tesouro
Se eu tivesse no peito um novelo
Eu tecia com ele um caminho
Com o rumo voltado pra dento
E aberto pro mundo todinho
Se eu tivesse um rosário de pena
Eu andava com ele no dente
so guardava no fundo do poço
do outro lado da gente.
TERRA DE NOEL
[Josias Sobrinho]
Não vou tirar meu chapéu
P’ra qualquer vagabundo
Nasci na terra de noel
Sou cidadão do mundo
Vai o feijão
Vai o café
Vai o amor
Daquela mulher
Mesmo não tendo dinheiro
Mesmo perdendo a razão
Me resta ainda o direito de ser
Consciente da situação.
CORAÇÃO SEM PARADEIRO
[Josias Sobrinho]
Anhangá gritou na mata
Ele se foi, foi, foi
Coração sem paradeiro
O meu filho, o brasileiro
No barco que afundou
Chega lá, vai buscar ele
Tira ele do escuro
Bem ali pelo baixio
Canoa grande fez um furo
Ele sozinho com ele mesmo
O que amou pelos caminhos
Num mar de sal e desatino
Fez sua casa, seu destino
Guerreiro pega esse menino
Traz ele pra morar comigo
Carrega ele com cuidados
Quero ele sempre sorrindo
Guerreiro pega esse menino
Esse gigante sem tamanho
Traz ele para sua gente
Que entre a gente ele cante.
BRASIL LEGAL
[Josias Sobrinho]
Está escrito em toda rede social
O Brasil pintou na tela
Uma linda aquarela
P’ras crianças do Xingu
Mandou recado para os anciãos da mata
E das brenhas do cerrado
Para o nobre deputado
Cidadão e cidadã
Um instrumento de botar pé na estrada
De ir onde o povo está
De renúncia estatal
De fazer a festa no palácio, na floresta
No picadeiro, na fresta
Na memória que ainda resta
E na que se pode buscar
No preto velho a criança que engatinha
No samba de gafieira
Na sanfona estradeira
E nas tintas que se pinta

***
Paulo Rodrigues é poeta e jornalista premiado. Entre outros livros, publicou recentemente seu sexto livro de poemas, Cordilheira (Patuá, 2025)

Falar de Josias Sobrinho é se orgulhar de um dos maiores cancioneiros da música popular brasileira, regional e urbana do nosso país. Um irmão confrade poeta, músico cantor, compositor e produtor cultural que resistiu e ainda continua resistindo ao longo de 52 anos de atividades musicais e culturais no Maranhão, no Brasil e no Mundo, pois já se apresentou nos palcos da Alemanha. levando a sua arte. Parabéns ao grande poeta, filósofo, jornalista e professor Paulo Rodrigues pela magnífica matéria de entrevista do grande artista nosso conterrâneo do Vale do Pindaré, que nos representa com muita propriedade, a nossa autêntica cultura popular e folclórica: o nosso Bumba-Meu-Boi no Sotaque da Baixada ou Pindaré como também é chamado pelos nossos pesquisadores das academias e outros gêneros musicais, a exemplo do Samba, o Choro e outros da nossa imensa variedade de ritmos do catálogo maranhense.
Josias Sobrinho é genial. É um mestre querido.