Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Paulo Rodrigues, escritor

O DESENCANTO DAS ÁGUAS – Alexandra Vieira de Almeida comenta o primeiro romance de Paulo Rodrigues

O desencanto das águas:

Uma aventura pelas águas do ser    

 

por Alexandra Vieira de Almeida

 

O desencanto das águas, Paulo Rodrigues, 2025

Temos diante de nós uma narrativa fascinante e envolvente, que logo nas frases iniciais nos dão pistas no que está por vir. Como se fossem enigmas para leitores atentos. Apesar disso, o final do livro é surpreendente, com um arremate inusitado, jogando com o leitor, num processo de vai e vem, que ora nos atinge num viés enigmático, que traz a imagem das águas em seu refluxo de ser ou não ser. O título da obra de Paulo Rodrigues, O desencanto das águas, nos leva à ambiguidade e paradoxo de sua escrita bem urdida. Utilizando uma epígrafe de Eduardo Galeano: “Não importa de onde vim, mas sim aonde quero chegar”, Paulo Rodrigues nos remete a uma estética do futuro, de uma utopia progressiva, não deixando de lado a questão identitária e ancestral. O narrador adentra o universo das águas, fluidas, navegantes, que têm sua simbologia pautada pelas metamorfoses que os personagens passam. O narrador em terceira pessoa, perscrutador das almas de suas personagens se molha nas águas deles, imagem das transformações no enredo do livro.    

Bruno, personagem principal, que não terminou a faculdade em filosofia, mas que tem o amor pelos livros, não é tão pragmático quanto seu amigo Galileu, esse sim, mais realista. Podemos remeter os dois personagens a Dom Quixote e Sancho Pança, que seria uma releitura mais no seu aspecto intelectual, do que vivencial. Uma ideia, um símbolo, um arquétipo. Citemos uma parte do início do livro: “”A vida desgruda-se do chão firme e vai embora””. Bruno observou a ilha que descia o rio Pindaré. Os meninos abraçados aos cipós desafiavam a serpente que habita as águas. Na juventude, tudo é festa, fogos de artifício, cavalo selado.” Aqui, temos a metáfora da inocência dos meninos frente ao símbolo fálico, pois o romance de Paulo Rodrigues o utiliza como mote para abordar a vida erotizada de Bruno e outras personagens que o rodeiam.     

Mas nem só de erotismo se trata a sua trama. Temos também a questão da etnia negra, pois Bruno é negro, como os outros personagens da história. Trata também da questão da prostituição da personagem Dandara, em que Bruno, gostaria de tê-la com exclusividade, tendo ciúmes dos clientes dela. Encontramos também a crença na religiosidade afro-brasileira nos terreiros, com a figura do avô de Bruno, Pai Velho, em que vemos um cenário paradisíaco com muitas árvores com frutos, uma imagem frondosa perante a seca, nos remetendo ao Éden dos novos tempos. E é esse choque em torno da narrativa entre sonho X realidade, que vai compor a estrutura existencial de Bruno.     

Bruno queria conquistar um cosmopolitismo erótico, para desbravar as línguas e cultura de outras mulheres, penetrando nas águas de um sonho sem fim. E, aqui, nesse romance, Paulo Rodrigues nos apresenta as várias citações de filósofos, escritores entre outros para aprofundar a cultura de Bruno, que cita Sartre várias vezes, seja para afirmá-lo, e, por vezes, contestá-lo: “o homem é um projeto de si mesmo”. Pois assim como o narrador passa, através das personagens, por uma aventura existencial, ele também juntamente com seus caracteres, passa por máscaras diversas.     

As digressões de Bruno antecedem ao momento presente, para com seu mundo onírico atingir uma outra camada, mais impermeável, mas algo de fora faz acordar do sonho para sentir e pensar sobre o momento presente. Nesse retorno, vê-se diante da inelutável presença do ser no aqui-agora, como dois lobos a lutarem dentro de si. Mas nem sempre as lembranças são regadas no vinho do onirismo, quando se deita na rede, lembra-se da mãe. Mas utiliza-se de elementos importantes na narrativa para não divagar tanto, o que deixa sua narrativa mais rica com essa habilidade linguística   

Volta-se para rememorações que se atualizam na sua caracterização presente quando se refere ao familiar, com a temática da perda.  E é a palavra que alivia essa dor ancestral, pois o filho é que dá a força para a mãe com palavras de um vocabulário potente. Um fato que poderia ser banal, mas que se aprofunda na tinta do narrador, é a devoração das formigas. Nos faz, seus leitores, pensarem sobre a morte. Em meio a palavras de força e esperança, há o corte abrupto da lâmina delas em consonância com a realidade. Entre a abstração e a concretude do real, as águas são a divisa de um sonho distante e uma realidade tangente, um paradoxo que percorre essa história de Paulo Rodrigues, com tanto engenho e mestria.     

Num processo de circularidade, a imagem da devoração retorna, como ciclos de uma história maior e principal. Bruno tem grande poder de observação ao ver a vida dos outros. E nesse romance, a experiência mora nos detalhes. Aqui, neste livro, o narrador narra com descrições bem pormenorizadas sobre seus personagens, que vão aparecendo aos poucos. Bruno, Dandara, Galileu, João, Joana, Marlene etc. Além disso, se vale das referências numa intertextualidade vibrante a partir de citações de outros autores, como Darcy Ribeiro, entre outros.    

Poderíamos caracterizar seu livro como existencial, regionalista, universal e muito mais. Mas ele trabalha com todos esses elementos. A questão afetiva e a familiar se apresentam como ponto forte no olhar do narrador e percorre as linhas da ancestralidade de Bruno com as lembranças da mãe, pai e avô dele. E depois do familiar com seus afetos, temos aqueles que são amigos, e as amantes de Bruno, indo da mulher da vida, Dandara, ao adultério com Joana.    

O narrador se vale do popular, com palavras chulas, do regional, do universal com a menção à beleza de Dandara, uma mulher negra, vítima de violência familiar. Assim, não temos apenas o familiar afetivo, mas a violência, o abuso, o racismo. Nossa herança escravocrata é fortemente criticada no livro. Não há um juízo de valor ao se referir ao universo das prostitutas, não mostrando preconceito nessa esfera. Há uma crítica sim ao mundo da exploração no trabalho exaustivo que não rende lucros, como o garimpo que levou o pai de Bruno e de seu amigo Galileu, que teve uma experiência como operário em sua labuta bem cansativa.

Outros componentes estéticos se apresentam como a colagem de poemas, canções, textos jornalísticos e resenhas, misturados na história, sem, porém, se desviar do enredo, servindo para referendar ou atacar alguma ideia, o que dá corpo ao seu romance. As canções de toada dos boiadeiros dão um ânimo à história, fazendo-nos lembrar do conto “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa.   

Cita Machado de Assis, ao remeter ao livro Memórias póstumas de Brás Cubas para falar sobre Bruno e sua relação com sua amada. Há histórias dentro de histórias, fazendo de sua narrativa algo multifacetado, com o fator surpresa que teremos ao longo do enredo até o nocaute final. Num dos momentos em que lê um texto sobre Drummond no jornal, a partir do poema “A morte do leiteiro”, discute-se sobre a confusão da luta de classes. Espantoso como Paulo Rodrigues transita entre esferas diferentes num romance híbrido por excelência. E cita, por outro lado, os teóricos como Jessé Souza, ao pensar sobre a luta social com a opressão e a violência contra os mais desvalidos.    

O narrador sabe bem mover sua câmera, pois faz um verdadeiro zoom sobre a vida de vários personagens, concentrando o seu olhar sobre o Bruno, cuja leitura dele se molda a partir da necessidade de outras personagens, para se retroalimentar e poder viver de alguma forma se espelhando neles, apesar das diferenças.   

Uma ironia corrosiva perpassa pela imagem de uma mulher branca, Joana, em que o narrador a partir das imagens de beleza e branquitude questiona os poetas e cantadores de uma beleza inatingível. Vejamos: “Ela tinha pele clara, com uns olhos verdes de encantar poetas e cantadores.” Ela é adúltera e se envolve com Bruno. Portanto, a confusão estará montada. O marido dela, João queria comprar coisas para ela, o que a deixava presa a ele, fato que se justifica pelos nomes semelhantes, João e Joana.  Mas, na hierarquia sexual, Dandara era a exímia anfitriã nos jogos eróticos, o que levava Bruno ao desespero. Por isso, a ironia não é gratuita.

No seu romance, Paulo Rodrigues, magistralmente, se embrenha nas florestas imagéticas das diversas espécies de comparações e metáforas. Seja através dessas figuras de linguagem mais próximas ao terreno da realidade, de forma mais cristalina, deixando de lado o hermetismo. Com a realidade circundante, Paulo compara o ato sexual à noite de São João, de Manuel Bandeira. Por outro lado, utilizou imagens com um lirismo encantador, sem, portanto, ter a complexidade dos potes fechados. Os atos cotidianos são expandidos como vitrais que se encantam com a beleza poética. 

Apesar desses desequilíbrios na vida das personagens, era o Pai Velho que trouxe a harmonia para o todo a partir de sua sabedoria. E que se tem o equilíbrio, uma beleza que traz o pertencimento das raízes ancestrais a partir dos terreiros, cujos rituais são relatados por Paulo através do narrador. O que sobraram foram os frutos das correntes das senzalas na atualidade. Por isso, seu romance dá ênfase em nossa cultura, sem se ater muito no estrangeiro. Aqui temos a viagem ou a aventura de um ser falando de seu mundo para os outros, sejam eles negros ou brancos. Mais uma vez uma resenha sobre o escritor Carlos Assumpção é temática de uma resenha que Bruno leu, cujo narrador explicita o choque entre Assumpção e certos teóricos acadêmicos que apagaram o discurso sobre a escravidão. Dessa forma, se dá a potência libertadora da escrita de Carlos. 

Por fim, podemos dizer, que a literatura de Paulo Rodrigues é necessária e urgente. O fim da narrativa com o uso do gênero epistolar e por bilhetes nos surpreende, como se o fim da narrativa fosse a imagem das diversas águas se encontrando ao perder a magia e o encanto iniciais para adquirirem um novo teor, mais belo e regenerador para o deleite dos seres. 

 

 

 

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Alexandra Vieira de Almeida é escritora e doutora em Literatura Comparada (UERJ).