PAULO RODRIGUES ENTREVISTA O POETA WELITON CARVALHO
Weliton Carvalho nasceu em Bacabal – MA, no dia 05 de novembro de 1965. Com uma semana de nascimento, voltou para Santa Inês – MA, cidade em que seus pais moravam, onde permaneceu até os 10 anos de idade. Nesta época forja sua base poética no convívio com os amigos de infância, a observação das injustiças sociais, a indiferença dos seres humanos pela dor alheia, a religiosidade da mãe e os fatos mínimos do cotidiano desapercebidos por muitos, contudo que para eles eram caros. Em 1976 vai para São Luís estudar no Colégio Maristas junto com suas irmãs. Empreitada feita com grande sacrifício por parte dos pais. A cidade era totalmente estranha, mas se adaptou a esta outra realidade permeada de solidão. Foi um tempo de ruminação. Naquela época, as férias escolares duravam três meses e, com isso, podia voltar a Santa Inês e privar com os colegas, se alimentando da poesia da cidade, que para os demais parecia ser puro cotidiano vulgar. Santa Inês é, definitivamente, província e universo.
Depois de uma breve passagem por Goiânia, em 1983, chega ao Recife em 1985. Na capital pernambucana cursa ciências jurídicas na Universidade Católica de Pernambuco, onde também obteve o título de Especialista em Direito Público. Logo depois se inicia no magistério superior nesta mesma instituição. Em um curso de espanhol conhece Beatriz, eterna musa. Por tal motivo tem uma predileção pela língua de Cervantes. Inicia curso de mestrado em direito em 1993 na Faculdade de Direito do Recife.
Em 1995, regressa ao Maranhão. Ingressa na magistratura em 1997. Casa-se em 1998, em Recife, com Beatriz. Tem três filhos. Estreia na literatura com o título Travessia sem fim (1999). Seguem-se ao título de estreia: Descobrimento do explícito (2000), Sustos do silêncio (2001), Tempo em conserva (2006), Geometria do lúdico – obra poética reunida (2008) e Ócios do ofício (2019).
Também conta com dois títulos infanto-juvenis: Pés no chão cabeça nas nuvens (2011) e Cabeça nas nuvens pés no chão (2012).
Conclui doutorado pela Faculdade de Direito do Recife (2014). Publicou os seguintes livros jurídicos: Despedida arbitrária no texto constitucional de 1988 (1998) e Direitos fundamentais: constituição e tratados internacionais (2014).
Entre 2008 e 2017 exerceu o magistério superior na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Atualmente é professor adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

- Paulo Rodrigues – Weliton Carvalho, Antonio Candido, no ensaio O Direito à Literatura, afirmou: “a literatura é uma necessidade universal que deve ser satisfeita para que a personalidade não seja mutilada”. Você concorda com o mestre?
Weliton Carvalho – Veja, meu caro Paulo, curiosamente andei à procura desse livro do Antonio Candido por muito tempo. Por coincidência o adquiri recentemente. E li o ensaio que lhe dá título ao livro. Sim, concordo, plenamente. O ser humano tem necessidade de compreender o mundo. E mais que isso: possui a gula da transfiguração. E somente a arte pode saciar esse desejo.
O Dr. Freud descobriu que o sonho é uma necessidade tão premente que o fazemos involuntariamente. Isso é sintomático. A realidade não é apenas dura, mas sobretudo monótona. A arte é uma necessidade. É aquela frase famosa do Ferreira Gullar: “A arte existe, porque a vida não basta”. A vida com seu cartão de ponto, com seus boletos, com suas mazelas, com suas diversas limitações é áspera, inóspita. Por isso recorremos à arte.
A concepção do Estado está ligada ao problema da limitação do poder e da promoção dos direitos individuais. O Estado é um fenômeno da modernidade. Esse negócio de Estado na Antiguidade (Estado Grego, Estado Romano etc.) é um erro epistemológico clássico. Lá existe o poder, mas sobre outra formatação política que não a forma estatal. Bem, com o surgimento do Estado, vem o constitucionalismo tal qual o conhecemos hoje, que foi uma virada na civilidade.
E a modernidade é uma construção dos pensadores liberais que equacionaram a relação do Estado com a sociedade a partir do contratualismo de Rousseau que vislumbrava direitos inalienáveis ao ser humano. Rousseau deu um passo gigante ao contratualismo de Hobbes em que o Estado assegurava o direito de sobrevivência aos individuais e em troca disso o povo não conhecia direitos indisponíveis. Em Hobbes o povo estava ao arbítrio do Estado, não havia a ideia de dignidade.
O liberalismo (econômico e político) organizou as matrizes constitucionais. Os primeiros direitos reconhecidos foram os direitos individuais, fruto das dez primeiras emendas à Constituição dos Estados Unidos da América. De tal modo que o acesso à literatura é um direito à (in)formação. Um direito individual, portanto. Mas além de um direito individual o direito à literatura é um direito social. O liberalismo clássico, porque centrado apenas na liberdade e propriedade faliu por ocasião da Revolução Industrial. E por quê? Pelo simples fato de ser a liberdade da época um conceito formal, voltada pela liberdade de mercado, de locomoção, um conceito a serviço dos comerciantes. A Revolução Industrial forjou os direitos sociais cuja gênese está na Constituição Mexicana de 1917 para o orgulho latino-americano. Os direitos individuais são tomados como aqueles que possuímos diante do Estado (poder) e esses se concretizam apenas a abstenção dos governos. Os direitos sociais, por seu turno, se concretizam com um comportamento ativo do Estado. Eu, particularmente, tenho dificuldade com esse critério. Penso que não há direito sem intervenção estatal por mínima que seja.
É bom lembrar que os direitos não se concretizam apenas por declaração. Eles precisam de efetividade, força propulsora estatal. Assim é o direito à literatura. O livro não vai cair do céu nas mãos do leitor. Só há cultura com fomento, ao menos até que determinado comportamento se entranhe na alma do povo O grande problema do Brasil, por exemplo, é que o nosso país nunca conheceu o Estado do bem-estar social. A formação do Estado e da sociedade no Brasil, a bem da verdade, está centrado no patrimonialismo, ideia bem assentada por Raymundo Faoro.
A literatura é um direito inalienável, mas vilipendiado pelo Estado brasileiro sem esperança de mudança a médio prazo. Uma pena.

- Paulo Rodrigues – De que forma a literatura pode auxiliar na busca de respostas para questões que envolvem o Direito, Dr. Weliton Carvalho?
Weliton Carvalho – Meu amigo Paulo. Ronald Dworkin, um dos mais destacados juristas da contemporaneidade, dizia que o direito é como um romance escrito por vários autores. E a partir da tradição vamos sustendo e enriquecendo o fenômeno jurídico. O Direito e a Literatura são formados na linguagem. Ambos se estabelecem na palavra. E como dizia o Octavio Paz: “O homem se fez homem graças a palavras (…) Com a palavra o homem se fez metáfora de si mesmo”. O Direito se enriquece com a literatura e esta com aquele. Mas creio que a literatura tem maior contribuição ao direito do que o inverso, porque a fabulação extrapola em muito o pragmatismo. Para que existe o Direito? Para nos dar segurança jurídica, para garantir a sobrevivência da espécie. Então o Direito precisa de racionalidade, de postulados de segurança. Veja um livro como O Processo, de Kafka. Ele questiona a clarividência das normas processuais. É um alerta para o legislador e para o magistrado. No Mercador de Veneza, Shakespeare questiona os limites da linguagem dentro do fenômeno jurídico. Por outro lado, o nosso Josué Montello construiu o romance A Décima Noite, a partir do art. 219, IV do código civil. Esse dispositivo considerava erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge o fato do marido desconhecer o defloramento da mulher. A literatura chama atenção para as indignidades legitimadas pelo Direito.
- Paulo Rodrigues – O advogado Kakay repete sempre uma frase do ministro Evandro Lins e Silva: “Leia os clássicos, literatura, poesia, se sobrar tempo leia Direito”. O professor Weliton Carvalho repetiria este conselho aos acadêmicos de Direito?
Weliton Carvalho – Meu amigo Paulo Rodrigues, José Ortega Y Gasset dizia que a clareza é a cordialidade do filósofo. Penso que o humanismo é o verniz do Direito. E a literatura tem um papel preponderante na formação do jurista. Quando o curso de Direito foi instaurado em São Paulo e em Recife (11 de agosto de 1827), o humanismo era a sua tônica. Evandro Lins e Silva tem toda a razão. Aproveito para fazer um reparo sobre a biografia do jurista Evandro Lins e Silva. Carrega a pecha de machista pelo caso Doca Street, quando usou a tese da legítima defesa da honra. Acontece que essa tese foi usada por Evandro Lins e Silva em 1950 em favor de Zulmira Galvão Bueno, uma mulher que matou o marido, o advogado conhecido no Rio de Janeiro, Stélio Galvão Bueno. Ela era maltratada pelo marido e descobriu que era traída por ele. Inclusive a ré foi absolvida. É claro que a tese é imprestável por justificar o homicídio em face da honra vilipendiada. Mas a tese não nasceu machista. Tornou-se. E o Dr. Evandro Lins e Silva foi profundamente injustiçado. Mas voltando à sua pergunta, concordo plenamente com o conselho do Ministro Evandro Lins e Silva ao dizer que a literatura é imprescindível à evolução do Direito e dos juristas. O Direito abandonou as humanidades a tal ponto que poderíamos dizer que não temos Faculdade de Direito, mas Faculdades de Leis. O Direito migrou para um tecnicismo-burocrático. E isso é terrível.
4 Paulo Rodrigues – Poeta Weliton Carvalho, como você define a sua poesia?
Weliton Carvalho – É muito complicado para um escritor avaliar o seu próprio texto. Primeiro é muito difícil definir o que seja poesia. Para mim poesia é a transfiguração da palavra. Então só concebo a poesia nesses moldes. E pelo fato de tomar esse conceito para poesia, tomo-o como norte para aquilo que escrevo. O meu esforço é o mesmo do Manuel Bandeira: “Só não fui claro quando não pude”. No Brasil, penso que sou da mesma família do Manuel Bandeira, do Mario Quintana, do Drummond. E, de certa forma, do Ferreira Gullar. Penso que sou um lírico com compromisso social. Me ocupo de temáticas variadas: o lírico, o social, o erótico e, ultimamente, tenho tentado uns poemas teológicos ou metafísicos. E também gosto muito da metapoesia, embora considere essa uma construção muito difícil. O propósito da arte e, portanto, da poesia, é o de comover. A arte é tributo à beleza. Se não há beleza não há arte. O poema tem que encontrar a sensibilidade do leitor. O propósito da poesia é causar um curto-circuito de beleza na alma do leitor. Também estou nesse itinerário. Agora se eu consigo esse intento, só o leitor pode dizer.
- Paulo Rodrigues – Para que serve a poesia, nesta quadra histórica?
Weliton Carvalho – Aqui temos uma pergunta muito difícil. Mas ratifico o que disse na pergunta anterior. O que a poesia pode fazer é causar comoção. Um comover autêntico que faça o indivíduo pensar sobre si dentro do mundo, sobre o sentido da vida e da relação entre o estar no mundo e o ser do mundo. Penso que a poesia não é uma variável em função do tempo. Claro que a forma pode atender a uma quadra histórica, mas se a forma não trouxer conteúdo será um mero modismo. Esse fenômeno explica por que as vanguardas são datadas. A poesia referendada na beleza estética penetra no DNA humano e conhece o atemporal. Essa a cruz do poeta.
Agora, caro Paulo, o que me pergunto é se o mundo contemporâneo está disposto à poesia. Essa é a questão de fundo. Há tempo para a beleza em tempos de hiperconexão do indivíduo com as redes sociais a que chamo, ironicamente, de redes antissociais? Há tempo para o ócio criativo, conceito difundido por Domenico De Masi? As pessoas estão dispostas a gastar tempo para mergulhar na contemplação de um poema? As pessoas querem meditar sobre a existência? O poeta comprometido com a poesia deve fazer de sua arte uma trincheira de beleza. A poesia deve ser um convite à beleza. Ninguém está obrigado a aceitar o convite à beleza. E o poeta deve ter a dignidade de não aceitar demandas que não venha do âmago da arte. Assim penso e desse modo me posiciono. No meu pensar a poesia está no mundo (com todas as suas contradições), mas não à venda. No sentido da criação, a poesia sempre será gratuidade. Ou não será poesia. A poesia é a verdade a serviço da estética. A poesia a serviço de qualquer outra coisa que não seja o cintilar do belo perece. Por exemplo um poema político pode ter verdades fáticas, mas se não contiver estética ficará datado. Por que o Poema Sujo do Ferreira Gullar continua vivo? Exatamente por se sustentar na transfiguração: ele vai além de um momento político. Ele adentra na alma da experiência de ser brasileiro, do ser humano, da vida.
- Paulo Rodrigues – Comente sobre o livro Ócios do Ofício, poeta Weliton Carvalho.
Weliton Carvalho – Meu caro Paulo Rodrigues, penso que Ócios do ofício foi o livro em que atingi maior consciência do fazer poético. E essa convicção me foi tanta que resolvi reescrever meus livros mais antigos. E, confesso, que estou nessa empreitada. Já reescrevi os dois primeiros. Tentei respeitar o Leitmotiv dos livros antigos, mas a partir dessa pretensa maturidade poética. O título Ócios do ofício é para denunciar que a poesia é um ócio comprometido com o fazer do belo. O José Neres vislumbrou como matéria-prima desse livro o tempo e a linguagem. Concordo com ele. A minha poesia é uma luta com a linguagem dentro do tempo. Tomo tempo aqui como período da existência. A luta a linguagem é se manter atual no aspecto temporal. A minha poesia é uma tentativa de resposta à vida tanto diante da beleza quanto diante das questões existenciais mais caras a todos nós. Talvez o José Ewerton Neto tenha captado a essência do Ócios do ofício ao citar os versos: “porque na poesia o mundo ressuscita,/ todo ele azul dilacerado em sonho”. Ócios do ofício é uma luta para mostrar o encantamento diante do aparente banal da vida.
- Paulo Rodrigues – No livro infantojuvenil Cabeça nas Nuvens Pés no Chão, você ensina que a poesia está no cotidiano. Foi difícil escrever para o público infantojuvenil? Você pensa no público quando escreve?
Weliton Carvalho – Veja, Paulo, escrevo para as crianças, porque carrego comigo sempre essa inquietação: nós, adultos, estragamos toda beleza das crianças. É impressionante como as instituições são devoradas da poesia. Uma criança é a poesia viva. E nós, com o nosso pragmatismo, nossos modelos estáticos vamos limitando a imaginação dos pequenos. Vamos podando a imaginação da criança. Há um movimento de mediocrização terrível. Tem um livro fazendo muito sucesso, A geração ansiosa, do Jonathan Haidt. Crianças conectadas em telas. E o que mais me impressiona é o fato de a tela ser um mundo onírico, mas sem a capacidade de fazer sonhar. É um paradoxo. Veja, quando eu tinha 6 ou 7 anos de idade eu ia aí em Santa Inês ao Cine Art Palácio aos domingos. Aguardava os domingos como um dia divino. Sempre era filme de faroeste. Em verdade, praticamente a gente via o mesmo filme, mas era encantador. E sabe por quê? Pelo espaço temporal. No resto da semana a gente imaginava. Hoje não se tem espaço para o sonho. Eis o problema. Não sinto uma dificuldade específica ao escrever para criança. Vou lhe citar o que o Drummond dizia sobre isso. “O gênero ‘literatura infantil’ tem, a meu ver, existência duvidosa. Haverá música infantil? pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de constituir alimento para o espírito da criança e do jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para criança que não seja lido por interesse pelo homem feito? (…) Será a criança um ser à parte, estranho ao homem, e reclamando uma literatura também à parte? (…) Vêm-me à lembrança as miniaturas de árvores, com que se diverte o sadismo botânico dos japoneses; não são organismos naturais e plenos; são anões vegetais. A redução do homem, que a literatura infantil implica, dá produtos semelhantes”.
E, por fim, respeito o leitor, mas não penso exatamente nele quando escrevo, tento me ocupar da linguagem, da beleza, da autenticidade do que pretendo dizer. Tento estar com o leitor, mas sem lhe fazer concessões. Meu objetivo literário é lhe entregar o que vocifera naquilo que chamo de verdade e de beleza.
- Paulo Rodrigues – Poeta, você trabalha bem o discurso metalinguístico. A metalinguagem faz parte da tessitura poética de Weliton Carvalho?
Weliton Carvalho – Meu estimado Paulo Rodrigues, sou uma pessoa de todas as dúvidas e raros lampejos de verdade. Mas creio sinceramente que todo poema é sobre a poesia. Como disse antes a poesia é transfiguração da palavra. No entanto tenho o cuidado de não apresentar um poema enjaulado, ou seja, mergulhado em si mesmo. Ou dito de outro modo: não gosto e não pretendo o poema que gravita em um círculo que não abrace o leitor. Também não pretendo a linguagem pela linguagem. Aqui sou como Graciliano Ramos: a palavra tem que dizer. A palavra é instrumento das coisas. A palavra é para mostrar. A poesia é revelação. Na poesia a palavra não pode permanecer em estado de dicionário. A palavra em poesia é para preservar a razão na dimensão do sonho. A metalinguagem só é válida quando potencializa as formas de ver. Um bom poema convida outras tantas leituras além da intenção primacial do autor. Não há nada mais gratificante para o autor quando o leitor encontra uma possibilidade de beleza diversa daquela que o poeta concebeu. Eu escrevi como quem tira os véus, mas sem nunca chegar à nudez. A metalinguagem pela metalinguagem só pode nos ofertar o tangível da palavra. Para a poesia isso é insuficiente. É pouco, muito pouco.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Weliton Carvalho – Paulo, meu irmão em sonhos. O nosso Vicente Telles uma vez me disse que os irmãos em sonhos são mais arraigados do que os irmãos de sangue. Achei isso interessante. O leitor é um irmão de sonhos do poeta. Eles estão irmanados na beleza. Escrever e ler são atos de resistência. Repare numa coisa: todos os regimes de exceção temem a palavra. Isso não é sintomático? A palavra é expressão da liberdade. Escrever e ler com espírito de aventura são atos de liberdade. E o leitor continua a escrever o texto que aprecia. Então a minha mensagem é no sentido de resistirmos como soldados da literatura.

POEMAS DE WELITON CARVALHO
UMA DOR
a Cleones Cunha
Vi uma menininha no parque
e de repente me veio uma dor
ao pensar nas mulheres mortas
somente por serem fêmeas.
PLENITUDE
a bia, plenitude.
E disseram desde criança
que era muito sujo e feio,
mas no mistério do teu colo
encontrei um pássaro negro.
Depois, pleno, em êxtase
debruçado no meu corpo,
ao adormecer, sussurrou:
o mundo já podia acabar.
O PARAÍSO
a Paulo Rodrigues
Era em Santa Inês, eu tinha 7 anos:
a brisa corria azul na manhã banal;
Seu Zezico estava absorto na venda,
donde uma fragrância até hoje exala.
Dico Moreno e seu sax melancólico
festejavam a beleza infinita do nada,
enquanto reações químicas teciam
o sabor úmido e puro dos quintais.
O dia esvaia as camadas do propósito
na gratuidade das coisas mais singelas
e, na calçada, Seu Zeza lia o Gênesis.
Tudo aquilo impregnado do eterno:
eu não sabia o que era um soneto –,
mas minha alma já estava no paraíso.
CAMÕES
a Nilson Ferreira
Clássico é o moderno que não passa,
dissolve o tempo e habita no eterno,
a cantar, além do heroísmo, essa raça
que existe nesse verso denso e terno;
inventor de mundos sobre a história,
os mitos no deslizar da vida humana:
foi fundando a língua e sua memória,
no imaginário e na entranha lusitana;
de todos os poetas, eis a pura poesia –
biografia toda incerta, inteiro encanto,
o que mais vale ao vate senão a utopia
legada aos séculos, aos confins do mar,
apurada na beleza de um mesmo canto:
o bardo declamando o infinito navega
A ESPERA
a Clélio Silveira
O filho de José, o carpinteiro,
conjugou o amor no infinito –
ousou a fraternidade universal
(acolheu a todos como irmãos).
Apontou a hipocrisia do poder:
a hermenêutica oca dos doutos,
os rituais estéreis dos sacerdotes
(mundo alheio à miséria humana).
O nazareno com a palavra em brasa
declarou aos corações adormecidos:
o verdadeiro amor habita no Eterno
e por isso jamais conhecerá a morte.
O filho de Maria, corredentora da vida,
foi torturado, humilhado, crucificado:
na cruz, de braços abertos, dilacerado,
insiste e te espera para a eternidade.
BOLSA DE VALORES
A coleguinha diz à minha filha:
– Meu pai tem casa em Panaquatira,
caro novo e uma fábrica. O teu nem tem.
Minha filhinha responde:
– Pois, minha filha, meu pai é poeta.
O teu nem é.
CENA DE RUA
O homem absorto cruza a rua
sem notar que atravessa o tempo,
ao contrário do cão indiferente:
não sabe da rua nem do homem,
que caminha em direção à morte,
mas, por agora, atravessa o tempo,
ao cruzar a rua, neste fim de tarde.
POSSESSÃO
Quando a poesia chega é tempestade
(relâmpagos que rasgam a alma inteira):
tudo se reluz voracidade em labaredas,
desejo alucinado na angústia do verbo
que suga minha língua exigindo incêndio
nas palavras em lâminas riscando faíscas:
toma meu sexo sem pudor e toda luxúria,
ardor de possuir e se entregar ao orgasmo
de beleza em velocidade de total loucura.
O tempo se dissolve em gozo de urgência
e exige da vida todo soluçar das entranhas
urdidas no deslizar supersônico das cores
que se fundem em cristais se partindo luz:
a poesia se entranha de mistério e epifania
e num revolver de desejos e tantos abismos
cria uma descarga elétrica, paralisa o tempo
e ilumina a eternidade num instante.
BALÉ
Ana Botafogo,
vê o beija-flor:
te imita tanto
(…)
não se pode negar:
tem ele tua leveza.
1976
No meu uniforme azul-marinho
caminhava para a rotina da escola:
a manhã também bailava em azul
no compasso plácido das nuvens:
tudo denunciava paz à minha volta.
Aquela manhã respirava liberdade.
Tudo parecia funcionar normalmente:
repartições públicas, casas comerciais,
as sedes dos jornais e as velhas igrejas
recebiam o sol, acariciadas pela brisa.
Não havia indício de pessoas torturadas
nos cárceres escuros e sujos da ditadura,
onde subversiva a manhã azul.

*
Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista, autor de Cordilheira (2024), entre outros importantes e premiados livros de poemas.

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