Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Foto estilizada de Samuel Marinho, poeta. Divulgação.

SAMUEL MARINHO entrevistado por PAULO RODRIGUES

PAULO RODRIGUES ENTREVISTA

O POETA

SAMUEL MARINHO

 

Capa de Antiquário Moderno (2023), Samuel Marinho

 

Samuel Marinho (1979, São Luís-MA) é poeta e funcionário público, graduado em Ciências Contábeis e Direito, com especialização em Transparência na Gestão Pública. É autor do e-book  Pequenos poemas sobre grandes amores (2002, edição do autor). Tem publicados pela Editora Litteralux (antiga Penalux) os livros Poemas in outdoors (2018), Poemas de última geração (2019), finalista do prêmio Jabuti na categoria de poesia no ano de 2020, Fotografias para perfis fakes (2021) e Antiquário moderno (2023). Participou da antologia poética Babaçu-Lâmina (Editora Patuá, 2019). Tem poemas publicados em alguns espaços virtuais, a exemplo das revistas eletrônicas Germina, Quatetê e Bangüê. 

 

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  1. Paulo Rodrigues – Samuel Marinho, Federico García Lorca comentou certa vez: “Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas”. A poesia é o grande mistério, poeta?

Samuel Marinho – A vida é o mistério maior sobre o qual a poesia se inflama. Sinto a poesia como uma tentativa de alcançar a magnitude da existência, de reagir a esse espanto que é estar vivo aqui, agora. A poesia, em sua essência, antes do lance do poema, sempre foi pra mim o que me despertou para o pulsar da vida. Esse alumbramento, que me mantém por vezes mais atento, é também um grande mistério.

  1. Paulo Rodrigues – Poeta, a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) apontou uma queda de mais de seis milhões de leitores entre nós. Como você observa esse dado? A leitura é fundamental?

Samuel Marinho – Acredito que depois do Golpe de 2016, as coisas ficaram mais difíceis. A meu ver, esse dado tem direta relação com as questões políticas e econômicas pelas quais passamos aqui no Brasil nos últimos dez anos. Vejo que há ainda um terreno fértil para a desvalorização da Ciência e da Cultura, o que, mesmo com a retomada recente de políticas públicas nessas áreas, não se consegue conter. Essa força estranha vem do uso massivo e desregulado das redes sociais, situação que muito interessa às big techs, mas que coloca as nossas instituições em risco. Principalmente entre os mais jovens, a consequência é o crescimento desproporcional da ocupação do tempo livre com as telas, onde se prolifera a desinformação. Sem se considerar os excluídos digitais que são muitos no nosso país. E é como se eles não existissem para nenhuma das realidades: tanto não podem ser leitores como não são deslizadores de telas. Essa conjuntura é empobrecedora sob todos os aspectos, para a alma humana e para qualquer sentido de coletividade, porque a leitura é conquista de independência e emancipação. Um eu e um livro são uma força da natureza. A leitura é construção e reelaboração ativa constante que aguça o senso crítico, amplia a visão de mundo e liberta da prisão da caverna. A depender dos algoritmos, viveremos imersos no meio digital como zumbis. E desde que sejamos presas fáceis para o consumo de tudo o que é impulsionado, está ótimo para eles.

  1. Paulo Rodrigues – Samuel, desde quando você escreve poesia? Qual o lugar da poesia na sua vida?
Samuel Marinho – fonte: divulgação

Samuel Marinho – Eu venho escrevendo poesia desde o começo da adolescência. Muito cedo comecei meus exercícios poéticos. Minha disciplina preferida na escola sempre foi Língua Portuguesa e Literatura. A escrita era uma inclinação que não tinha razão aparente, mas era forte e pulsante e acredito que foi favorecida pelo ambiente familiar. Meu pai sempre gostou muito de ler, lembro que havia uma coleção dos livros do Érico Veríssimo em casa, a série O Tempo e o Vento, Incidente em Antares, Olhai os lírios do campo, e tinha uma antologia de poemas do Manuel Bandeira, que foi o primeiro poeta que li. Minha mãe nos apresentou desde cedo os textos sagrados, eu gostava de recitar os salmos e o livro de Eclesiastes. Tenho um irmão, que hoje é professor, que me ensinou a ler em casa, antes mesmo de eu entrar na escola, e um outro que tinha em seu quarto a coleção inteira da Série Vaga-lume, o que pra mim também era um bom passatempo. Esses estímulos todos foram importantes. Lembro ainda que nos trabalhos de redação eu estava sempre empolgado a apresentar alguma coisa em forma de verso. Tive muito bons professores na rede pública do ensino maranhense (onde estudei a vida toda), que me incentivaram por esse caminho. Tenho boas lembranças dessa época. A professora Fátima, a professora Maria José… A poesia sempre foi uma forma de enxergar a vida além do óbvio, de alargar as possibilidades da visão de mundo e da maneira de estar nele. Devo a ela por completo o fato da minha imaginação hoje ser um mundo um pouco mais vasto, habitado por outros mundos. A poesia é o multiverso em mim.

  1. Paulo Rodrigues – Sua poesia é muito visual e conversa bem com a nossa quadra histórica. No livro Fotografias para Perfis Fakes (lançado pela Editora Penalux em 2021), temos intertextualidades e cortes na linguagem muito interessantes. Fale um pouco sobre esse livro para o nosso leitor.
Capa do livro Fotografias para perfis fakes (2021), de Samuel Marinho

Samuel Marinho – Caro poeta Paulo Rodrigues, o Fotografias para perfis fakes é o meu quarto livro, publicado em 2021 pela Editora Litteralux (antiga Penalux). Esse livro continua a saga [dos livros anteriores] de explorar temas voltados à relação do ser humano  com a natureza transformada pela tecnologia, algo que me parece até agora indissociável do que ainda venho escrevendo. Nele há muitos subtextos relacionados à virtualidade, como a ilusão da vida fabricada nas redes sociais, a hiperperformance virtual, o poder dos algoritmos, a questão da desinformação que se intensificou durante e após o período pandêmico, dentre outras percepções mínimas dos cotidianos atrelados às interações digitais. No livro, o fake e o fato estão em constante tensão na construção poética e o poeta se encontra perdido no ciberespaço, tentando encontrar alguma verdade possível na era da pós-verdade. O Fotografias para perfis fakes dialoga com os livros anteriores, em especial, o Poemas de última geração, não só por algumas temáticas, mas quando traz uma segunda série de poemas atribuídos a outrem, uma espécie de ‘brincadeira’ que surgiu a partir da confusão autoral que se observa na internet de textos ‘assinados’ por autores clássicos que, na verdade, nunca tiveram autoria confirmada. É uma tentativa de intertexto com originais de poetas como Leminski, Bandeira e Quintana, dentre outros, articulados por uma ‘inteligência artificial’ empenhada em simular muitas vozes. Em suma, acho que esse livro é uma boa amostra desse universo poético que teve inauguração em 2002 com o e-book Pequenos poemas sobre grandes amores.

  1. Paulo Rodrigues – No Fotografias para Perfis Fakes, você dedicou o poema Enterros Noturnos para o saudoso poeta Carvalho Junior. Como era sua relação com o Carvalho?

Samuel Marinho – A minha relação com o poeta Carvalho Jr. foi breve e virtual, porém intensa. Eu nunca tive a oportunidade de lhe dar um abraço. Nossa interação se iniciou uns dois anos antes de sua morte por ocasião da pandemia, aquele tempo sombrio, ainda mais para nós brasileiros, dado o contexto político. O Carvalho gentilmente me convidou para participar da antologia Babaçu-Lâmina que foi organizada por ele e publicada pela Editora Patuá em 2019. A percepção que tive desde o início era de que ele estava em constante movimento. Ele era o movimento. E isso era um contraste irresistível para a minha natureza introvertida. Dali em diante passamos a trocar informações sobre o que escrevíamos, áudios, muitos áudios sobre os nossos projetos, sobre os poemas, sobre leituras. Trocamos nossas publicações por meio dos correios. O poema que fiz pra ele traz um pouco do espanto que tive ao receber a notícia de sua partida muito precoce, o que escrevi praticamente a um só tempo. Os livros físicos que nos enviamos foram a  única ponte material possível do nosso encontro. Tem um lugar cativo na minha estante a edição autografada com a dedicatória do Homem-Tijubina. 

  1. Paulo Rodrigues – Você acompanha a literatura contemporânea do Maranhão? Continua forte? Quais autores chamam a atenção do Samuel Marinho?

Samuel Marinho – No contemporâneo cabe tanta coisa que é desafiador desenhar um panorama geral. Acredito que minha visão é muito limitada para alcançar a vasta produção que há no Brasil, e no Maranhão. Como disse Caetano mais recentemente numa de suas canções: “Há poemas como jamais”. E ainda dentro da literatura, eu me limitaria a falar de poesia que é o que mais tenho acompanhado. E respondendo à sua pergunta, acredito que sim, o Maranhão continua forte. Eu tenho lido muito as mulheres, então pra citar alguns nomes vou me ater a elas, correndo o risco de deixar nomes de fora que ainda estou buscando conhecer. A Laura Amélia Damous que tem uma poética  extremamente sensível e iluminada. A Luiza Cantanhede, acho formidável sua poesia com cheiro de terra, uma terra árida que planta utopias. A Silvana Meneses, é magnífico o voo que ela consegue alçar a partir dos haicais. A Lúcia Santos, que é uma das minhas influências desde quando comecei a escrever, multifacetada, tem um estilo direto, muito inteligente e uns cortes precisos. A Adriana Gama de Araújo tem uma poesia arguta que me agrada muito, de uma alma incrível. A Débora Reis, a qual tive a oportunidade de acompanhar o lançamento de estreia, me soa bastante verdadeira e visceral. A Joana Golin, maranhense de alma que, além de movimentar um coletivo para apresentação de jovens artistas, é uma poeta incrível e muito devota de nossas questões. E a Jorgeana Braga, que recentemente me emocionou muito com o seu livro TxaiUirá, uma poesia orgânica de celebração da floresta, praticamente uma experiência espiritual. Então é isso, ler as mulheres maranhenses nessas variadas vertentes tem sido, além de uma grande alegria, uma experiência enriquecedora. 

  1. Paulo Rodrigues – No poema Nativos Digitais você diz: “não sei como a poesia me acessa/ não sei quando eu acesso a poesia/ só sei que nela me perco/ igual criança assustada/ diante da tela apagada/ do dia a dia”. É assim mesmo que você se sente diante da poesia?
Capa do livro Poemas de última geração (2019), de Samuel Marinho

Samuel Marinho Meu poeta, sinto esses versos como uma tentativa de expressar uma sensibilidade sobre um tempo carregado de aparentes novidades e que rapidamente se torna anacrônico. Com a pós, ultra, hipermodernidade, o eu-lírico se vê desencantado com a ideia de perpetuar uma obra por meio da arte. São muitas vozes em acesso, muita informação e pouco tempo para se diluir. Por outro lado, isso o alivia a tensão na hora de elaborar um poema, quando da escolha do vocábulo. Ele usa e abusa do léxico tecnológico contemporâneo em sua construção, daí a denominação irônica a certa altura de ele considerar os próprios versos como sendo uma ‘poesia de última geração’. Não há tanta preocupação em parecer datado. Ninguém pode ser tão moderno, ninguém pode ser tão eterno. À revelia disso, o maior temor é o de soar asséptico à época em que vive. O destino de todo moderno é ser ultrapassado. O poeta sente a marca do efêmero na pele, é tudo tão ínfimo diante da amplitude da vida, do universo e do próprio tempo… A publicação é só uma transcrição possível que pode ou não ser lida em algum tempo-lugar e até soar como se fosse distante ou escrita em outra língua, um hieróglifo indecifrável. Quem vai saber da imprevisibilidade da vida e da história? Pode ser também que essa leitura faça algum sentido, e muitos sentidos, porque só por isso o poder do verso já é maravilhoso o bastante… Mas tudo isto ainda se os textos forem preservados em algum lugar das nuvens. Ele teme que os registros físicos como os conhecemos hoje estejam dando lugar a uma virtualidade inevitável, desenfreada e facilmente manipulável. Penso que esse inclusive é o seu motivo condutor desde o começo. A poesia é também uma tentativa desesperada de memória, mas sob que formas ela virá, em quais plataformas ela resistirá e quem vai acessá-la?

8. Paulo Rodrigues – Está com algum novo projeto de livro em curso?

Samuel Marinho – Estou com um livro novo de poemas que deve sair ainda este ano. É um projeto que busca uma transição na trajetória desenhada até aqui, que deve caminhar para um (re)encantamento do eu-lírico com a natureza inicial. Estou vivendo nesse sentido e buscando escrever sobre essa experiência. Tentando me afastar um tanto das redes, tentando equilibrar as coisas, aprendendo sobre os mistérios do céu que me foi roubado por décadas. Tenho também um projeto a longo prazo de publicar algo em prosa, uns ensaios sobre canções populares que me tocaram e me influenciaram, algo que venho rabiscando há algum tempo.

  1. Paulo Rodrigues – Poeta, deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Samuel Marinho – Deixo algumas palavras que devem se assemelhar mais a uma mensagem para o bem viver do que à dica de um coach. Apagar as luzes. Fugir para ver o céu estrelado. Abraçar mais a quem se ama. Respirar ar puro quando for possível e de forma pausada. Acalmar-se. Sentir que cada gesto mínimo pode estar carregado do encantamento de existir. A poesia está aí para ser sentida e é uma maneira de nos trazer de volta a alegria de estarmos vivos. E, por hoje, uma simples pausa para reflexão, isto já seria poesia.

 

 

 

Poemas de Samuel Marinho

 

tempos pós-modernos

 

não é o tempo que voa amor

a gente é que não tem asas

 

 

poesia por todos os séculos amém

 

que seja o post a poesia mais direta

que o deslize das mãos alcance vida mais concreta

o que será a selfie senão o autorretrato do poeta?

 

 

spoiler da barbárie

 

no fundo

tenho saudades

é dos episódios dos jetsons

das suas jornadas de trabalho reduzidas

dos seus automóveis voadores

das suas cidades suspensas

dos seus robôs serviçais

 

de quando o futuro

– se pensava –

era algo demasiado suficiente

para um final feliz

 

 

poker face

 

para saber o que se quer do poema

precisa-se vencer o maior impasse

encarar os olhos da mentira

desvendar a sua verdadeira face

 

 

poema atribuído a fernando pessoa

 

o poema é uma verdade

que se quer sentir despida

traz consigo a vontade

de fingir a dor sofrida

 

mas que retrato é essa realidade

que o poeta faz da vida?

o verso que inventa a saudade

dói o adeus da despedida

 

 

enterros noturnos

 

                               para carvalho júnior (in memoriam)

 

enviou  repetidas mensagens instantâneas

àquele contato que já não podia responder mais

 

parou, ampliou a foto de perfil com o polegar e o

indicador como se fossem garras em busca de algum

vestígio passado

 

ficou olhando o histórico das conversas de tempos atrás

 

insistiu em confirmar com a tecnologia que o bom-dia

não havia chegado do outro lado

 

sentiu um vazio imenso num silêncio muito maior que

qualquer vácuo

 

(estranha forma essa agora de se diluir as nossas

ausências)

 

 

obsolescência programada

 

escrevo no meu caderno

só pra tatear a página ao lado

o destino de todo moderno

é ser ultra

passado

 

 

drones no céu de alcântara

 

ouvi um zunido

por cima da minha cabeça

:

veloz

áspero

ameaçador

e natural

 

por um instante pensei que fosse

um enxame de abelhas

 

 

webinário de geopolítica

 

notícias falsas disparadas

no calor da distopia

:

nova guerra quente

velha hipocrisia

 

 

big data

 

a estatística

automática

precisa

a esta altura

constata

segura

na tela

que a minha conexão

na soma

de todas

essas janelas

gira em torno

atualmente

de treze horas

diárias

 

meu espírito

disperso

mas faminto

anda agora

reclamando

por instinto

todas essas

horas

perdidas

ausentes

das plataformas

suspensas

de Deus

 

 

a era das precipitações

 

previsões de novas pandemias

vírus em intermináveis mutações

alertas vermelhos soando nos rios

sinais de grandes inundações

 

invernos cada vez mais frios

tempestades em desertos seculares

cidades sitiadas ventos sombrios

ondas se agigantando pelos mares

 

corpos em chamas e calafrios

absorvendo a polarização dos ares

prédios evacuados terrenos baldios

 

tremores sentidos por todos os lugares

olhares repletos de sentimentos vazios

virais escorrendo pelos celulares

 

 

hieróglifos do futuro

 

A forma das cidades muda mais rápido,

bem mais, que um coração mortal

Baudelaire, “O Cisne

 

 

eis aqui

gravado em alguma parte

a primeira metade da arte

o transitório

o contingente

o ilusório

a efêmera

ultramodernidade

(o que para alguns seria

mero objeto de descarte)

 

a outra metade

a meta da arte

o imutável

o absoluto

o infindável

a glória

a encantar-te

não caberia sequer

no segundo encarte

é desde a antiguidade

uma questão

de vida ou morte

luta corporal incessante

de reter o poético no histórico

de extrair o perene do instante

o que os antigos modernos

chamariam de eternidade

 

 

toda poesia ou nada

 

vida é vida

obra é obra

depois de ter

me escrito

no poema

vida e poesia

nada sobra

 

 

 

*

 

 

Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista.