William Amorim*
Atualmente são 05h de diferença de fuso horário entre a Bélgica e o Brasil. Veio de lá, de modo cuidadoso, amoroso, a notícia da partida do Papa Francisco: uma amiga muito querida apressou-se em me contar, sabedora da minha profunda admiração por esse sacerdote de Cristo.
Assim, acordei às 06 da manhã, como sempre, e uma tristeza imensa me atravessou. As lágrimas me visitariam o dia todo.
Um lado meu estava em grande pesar pela perda gigantesca de uma figura tão fundamental como Francisco, mas o outro lado racionalizava e me dizia que ele não merecia continuar sofrendo tanto com uma saúde tão debilitada. Além da racionalização, como defesa contra a dor do luto repentino, a presença de operários e funcionários em minha casa em obra, ajudou-me também a me desligar da notícia ruim. A alegria, descontração do ambiente, as refeições e lanches compartilhados em pequenas pausas, sem que me desse conta, tinham a atmosfera do Papa: não havia muros ali entre nós, terra e céu um direito de todos, a simplicidade e a amorosidade tão franciscanas estavam muito vivas e em cena ali, ontem. Mais do que gostar do Papa, estava vivendo o Papa. Talvez por isso eu não tenha conseguido dizer uma palavra sobre sua passagem. Algo que só me está sendo possível agora.
Não me recordo de nenhum Papa até João Paulo II. Claro que conheci seus antecessores via história, não como entidades reais.
Joao Paulo II, por sua sofrida história na Polônia, tinha profundo horror a tudo que lhe soasse “comunismo/socialismo” e assim perseguiu e destruiu uma das coisas que mais me davam orgulho no catolicismo: a teologia da libertação, a igreja que se fazia povo .
Com o reacionário Papa, ascende uma corrente (seita?) muito potente na Igreja: O Movimento Carismático com suas dancinhas em celebrações excessivamente cantadas e uma profissão de fé cega, alienada, preconceituosa e intolerante como a grande maioria das seitas neopentecostais e seus evangelhos sem Cristo.
Em uma das minhas vidas em Paris, acompanhei sem pesar a notícia de sua morte e a eleição do seu terrível substituto, o Ratzinger, ou Bento XVI.
Após a renúncia deste último, o Vaticano volta à luz com o iluminado Francisco. Um homem tentando, até o último suspiro, recolocar a Igreja nos trilhos de Cristo e São Francisco.

Não à toa, o Papa Francisco tornou-se rapidamente a grande voz no mundo atual. Sua humildade, delicadeza, respeito pela diferença, ética, sede de justiça e igualdade social, o amor às crianças e jovens e, principalmente, pelos que sofrem, ultrapassaram os muros do catolicismo e tocaram profundamente as mais diferentes religiões e até mesmo pessoas ateias.
Imagino, não sem angústia, que o próximo Papa será o seu oposto porque alinhado aos princípios nada cristãos da extrema-direita.
Espero que essa intuição não se confirme. Contudo, é muito improvável deixarem vir à luz, em tão pouco tempo, um novo astro reluzente de humanidade e amor ao próximo como Francisco/Jorge Bergólio.
Papa Francisco, que sejas recebido em festa pelo divino, que tua voz continue reverberando nos que têm fome de Fé e Justiça. Que tua passagem no mundo continue inspirando cristãos e não-cristãos assim como Jesus, Irmã Dulce e São Francisco te inspiraram.
[William Amorim]
22 de abril de 2025
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Belíssima materia cronista meu nobre confrade poeta Dr. William Amorim. Eu também tenho um profundo apreço ao Santo Papa Francisco.