Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Poeta Laura Amélia Damous - foto: divulgação

LAURA AMÉLIA DAMOUS entrevistada por PAULO RODRIGUES

 PAULO RODRIGUES ENTREVISTA A POETA

LAURA AMÉLIA DAMOUS

 

Capa do livro Cimitarra (2001), de Laura Amélia Damous

  

Laura Amélia Damous Duailibe nasceu em 10 de abril de 1945, em Turiaçu-MA. Filha de Jamil Miguel Damous e Dolores Estrela Damous. Em São Luís, estudou no Colégio Santa Teresa, de onde saiu como professora normalista. Cursou Filosofia na Universidade Federal do Maranhão.

Ocupou cargos de gestão em órgãos públicos ligados a atividades culturais.

Foi Diretora do Teatro Arthur Azevedo, Superintendente de Interiorização da Cultura, e Secretária de Estado da Cultura, entre 1987 e 1989, quando desenvolveu o programa de municipalização da cultura, responsável pela implantação de 36 Secretarias Municipais de Cultura, revitalização e inauguração do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. Foi Subchefe da Casa Civil do Governo do Maranhão. Exerceu também o cargo de Gestora de Programas Especiais da Casa Civil do Governo do Estado e integrou o Conselho Estadual da Cultura, quando Secretária de Estado da Cultura.

Entre outras distinções, recebeu as seguintes comendas do Governo do Estado do Maranhão: Medalha do Mérito Timbira, Medalha do Mérito Grã-Cruz da Ordem Timbira, Medalha do Mérito Cultural João Lisboa e Medalha Comemorativa aos 400 anos de São Luís. Foi agraciada com Medalha Comemorativa 400 anos de São Luís pela Assembleia Legislativa do Maranhão. Professora Honoris Causa da Faculdade de São Luís.

Sua obra, como escritora, é inteiramente dedicada à poesia, já havendo publicado os seguintes livros: Brevíssima canção do amor constante (São Luís: Sioge, 1987); Traje de luzes (São Luís: Sioge, 1993); Cimitarra (São Luís: UEMA, 2001); Arabesco (2010).  Inventário dos sentidos: poesia reunida (São Luís: Editora 360º, 2013).

Participa da antologia Poesia maranhense no século XX, organizada por Assis Brasil (Rio de Janeiro/São Luís: Imago/Sioge, 1994) e do Dicionário crítico de escritoras brasileiras, de Nelly Novaes Coelho (São Paulo: Escrituras Editora, 2002), dentre outras.

Laura Amélia Damous ocupa a cadeira nº 06 da Academia Maranhense de Letras, desde 2013. 

 

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  1. Paulo Rodrigues – Antonio Aílton escreveu em um artigo: “Laura Amélia é mestra do poema curto e da fulguração poética”. Você gosta da poesia minimalista? Prefere o uso de uma linguagem concisa?

Laura Amélia Damous – Fico agradecida e honrada com a generosa atenção do poeta Antônio Ailton sobre meu trabalho. Sim, ele é certeiro. A minha poesia se mostra através de poemas concisos, curtos, enxutos. Não é que eu prefira a “linguagem minimalista”. Acontece que o poema nasce assim, com a forma já definida, em sua gênese, com uma coerência interior já desenhada.  A finalidade do poema é causar emoção.

Há poemas mais longos que necessitam que sejam assim para que a emoção seja expressa em total plenitude; o que posso dizer em quatro palavras não procuro ou não uso mais palavras. Poemas curtos eu cultivo sim, mas nada com o haicai, que guarda uma estrutura própria com métrica e forma fixas.

Em o Arco e a Lira, Otávio Paz lembra: “O poema tem uma inegável unidade de tom, ritmo e temperatura. É um todo”.  Eu persigo esse “todo” e pretendo sempre alcançar na minha poesia.

Entre um silêncio e outro a voz que não se cala, se faz ouvir, assim nasce o poema!

 

  1. Paulo Rodrigues – Manoel de Barros repetia o verso: “A poesia me desbrava”. Você tem a sensação de desbravamento ao ler poesia, poeta? 

Laura Amélia Damous – A poesia me desbrava à medida que ela atinge as minhas mais profundas percepções e emoções! Ela permite que os meus sentidos fiquem em permanente alerta ante a beleza e a perplexidade da vida e seus mistérios.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você nasceu poeta ou se construiu poeta? 

Laura Amélia Damous – Não sei dizer! Só sei que como não estudei sobre e não fiz nenhum curso, nasci assim. Aprendi a ler e a escrever muito cedo.  Desde criança sempre tive convivência com os livros e não posso deixar de lembrar a minha primeira paixão:  a coleção “Tesouro da Juventude” da casa do meu avô Raimundo Estrela. Gosto de me expressar mais escrevendo do que falando.

 

  1. Paulo Rodrigues – Laura Amélia Damous, como funciona seu processo de escrita? 

Laura Amélia Damous – Poeta, vou responder essa tua pergunta com um poema:       

       

CARTÓGRAFO

 

a minha mão desenha

o que a minha alma ordena

sofrido ofício

de saber-se

 

[Laura Amélia Damous]

 Atravesso longos desertos no meu processo criativo. Isso me causava aflição, mas com o tempo percebi que essas caminhadas áridas fazem parte desse processo. Há sempre um oásis nos esperando. Há sempre uma

 

VISITA:

A palavra que se esconde e

Quer ficar muda

Às vezes se liberta e

Procura por mim

E eu

Tremendo de medo

Abro a prisão e deixo

Que ela pouse

Livre e pura

No branco leito do papel

 

[Laura Amélia Damous] 

 

Capa de Arabesco  livro de Laura Amélia Damous

 

  1. Paulo Rodrigues – Poeta, quais são os autores decisivos para sua formação literária?

Laura Amélia Damous – Emily Dickinson, Cecília Meireles, García Lorca, T.S. Elliot, Ezra Pound, Manuel Bandeira, Giacomo Leopardi, Ferlinghetti, são autores importantes na minha vida.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você poderia falar um pouco sobre o seu livro de estreia “BREVÍSSIMA CANÇÃO DO AMOR CONSTANTE”?
Capa de Brevíssima canção do amor constante (1987)

Laura Amélia Damous –  A Brevíssima canção do amor constante foi, acima de tudo, a afirmação de que sempre o que esteve latente agora pode finalmente se mostrar. Uma demarcação de terreno interior. Eu disse aqui eu posso fincar os pés e caminhar! Um movimento corajoso em direção ao que sempre quis fazer. Com todos os senões, é o meu livro preferido.

A acolhida deste livro por poetas e críticos literários me deram estímulo e ânimo para continuar.

Vejamos. Escritor Pedro Lyra falou: “Um flash no cotidiano estilhaçado: assim, concisa e fragmentária podemos dizer que se apresenta a poesia de Laura Amélia Damous, em seu primeiro livro.

O seu poema é sempre breve; mas, no lugar da impressão negativa de uma ideia que não se desenvolve nem se aprofunda, o que temos é a formulação sintética de um estado de espírito em sua significação fundamental e irredutível”. 

 Roberto Kenard comentou: “Os poemas de Laura Amélia. Seus nós nas mãos da autora. Suas pontas pegando fogo, prestes a subir. Para a lua? Para as entradas do ser? Raramente esses poemas não viajam em círculo, procurando um rumo… As aparências desenganam. Por isso, ninguém se iluda. A poesia de Laura Amélia não é somente o que o sentimento dita. Há por trás dela muito de cerebral, de trabalho minucioso. Embora um lance de dados não desarme o acaso, a poesia desta poeta é calculada. Nada sobra. Se alguma coisa surge do nada, pode confiar, é por pura intenção do poeta. Basta olhar com atenção para os títulos. Sem eles os poemas ficam meio perdidos, perdem o sentido”.

 

  1. Paulo Rodrigues – No poema Quiromancia, você diz: “A mão do poema/ é que me cabe/ inteira/ A outra, / eu a carrego, / pesada e alheia”. A poesia ocupa a vida de Laura Amélia Damous?

Laura Amélia Damous – Sem dúvida nenhuma. E é essa mão do poema que me conduz e me abençoa. Essa é a mão que fez o Brevíssima canção do amor constante se prolongar em outros livros. Recorro às palavras do escritor José Louzeiro sobre meu livro Cimitarra: José Louzeiro: “Se disséssemos que a poesia desta autora tem cunho filosófico, isso não seria suficiente para defini-la, até porque filosofia é o exercício da indagação e Laura não indaga. Tem certeza. É vidente de suas próprias dores, esperanças e sacrifícios. Não questiona, parece saber a destinação das coisas: os segredos das manhãs que trazem em si, iluminadas, as sementes da noite; dos embriões de pureza que desabrocham no charco dos pensamentos; do enigma que envolve a fragilidade e a grandeza do ser humano”.

Capa de Traje de Luzes (1993), de Laura Amélia Danous

E ainda Hildeberto Barbosa Filho acrescentou: “Seja no viés do lirismo filosófico, seja na clave das canções afetivas, seja no terreno metalinguístico, seja na descrição dos objetos, seja na reposição mitopoética da paisagem, perpassa sempre a dicção de Laura Amélia uma visão angustiada e comovida, porém sempre empática com o universo que a cerca. O título e os poemas da autora, exerce bem a sua intrínseca função catafórica: ora indicando elementos espaciais, ora fatores temporais, ora vetores temáticos; sempre, no entanto, numa espécie de condensação característica da ideia ou do motivo, aos quais os versos, as estrofes tendem a se ligar, funcionando, no plano semântico como singulares deslocamentos. Neste sentido, os títulos, em geral são componentes fundamentais para a interpretação e compreensão dos textos, reforçando, portanto, a ideia de que ao lirismo de Laura Amélia preside, sem amordaçá-lo, uma percuciente consciência técnica e formal”.

 

  1. Paulo Rodrigues – Poeta, pode falar um pouco sobre os projetos literários que está desenvolvendo? 

Laura Amélia Damous – Entre os projetos deste ano, destaco o Sarau das Mercês, que acontece na Fundação da Memoria Republicana Brasileira, cujo presidente, Kécio da Silva Rabelo, torna possível a realização do mesmo, com grande aceitação na vida cultural da cidade. Pretendo, publicar mais um livro e continuar o projeto de visitação das escolas com os confrades da Academia Maranhense de Letras.

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Laura Amélia Damous – Desejo que a poesia seja cada vez mais lida e que cause crescente e permanente entusiasmo, principalmente entre os mais jovens. E que a poesia se manifeste não só em poemas. Mas que esteja presente nas imagens, cores, ritmos e percepções da vida de cada um.

                          

 

POEMAS DE LAURA AMÉLIA

 

Capa de Inventário dos Sentidos (2013) – Laura Amélia Damous

 

 

DOIS DE NOVEMBRO

 

A xicara branca

me encara do

outro lado da mesa

um tigre esfacelou

meu rosto no

 agitado sono do

 meio-dia

 as formigas fizeram

 um novo caminho

da cozinha à sala

 sem um único volteio

 meus dedos pesam

 mais que nunca

e afundam junto

 com o pudim no forno

eu tenho muito medo

 de morrer

num dia feio assim

 

 

APRENDIZ

 

pedra  que se encaixa em pedra

 arremessada estática

 reluzente fria

 pedra demarcando limite rastreando caminho

 adornado abismo

 pedra

 a lição da pedra eu quero

 

 

MATE

 

a rainha perscrutou imóvel

o rei

o rei lerdo e cego

em direção errada

andou

na torre

o bispo reclamou

o cavalo manco

estancou

a rainha vislumbrou amável

o peão

o peão coroado

virou a mesa

 

 

MEMÓRIAS DO TEMPO

 

Brevíssimo verão

Frágil e fugaz

Perpassa o coração trêmulo e assustado

O outono é a certeza

 

 

HERANÇA

 

minha avó Amélia que

tinha as orelhas rasgadas

 pelo peso do ouro

me deixou um tesouro

não carregue mais

 do que a frágil carne suporta

 

 

TRAJE ESCURO, DE RIGOR

Sentada à mesa dos reis

 descalço meu velho ténis

olho um censurável rasgão

na calça jeans

 e penso

que a pele a recobrir nervos e ossos

 é sempre a mesma

 afora a maravilhosa variação da cor

e sinto quanto é grande a diferença

que nos veste igual

 

 

ASSOMBRAÇÃO

 

Já nos cansam as palavras

o silêncio é morcego

 assustando o nosso sono

 sonho

Sono sem morcegos

 mortos em sossego

 estamos nós

 e os morcegos

 

 

OLFATO

 

jaz em mim

jasmim

(teu cheiro)

 

 

FERRA

 

Não fuja a galope

Que o amor é um passo

Aço

Que fere o pé

 

 

 

Laura Amélia Damous, poeta – foto: divulgação

 

 

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Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista .