Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

César Nascimento, cantor e compositor maranhense/brasileiro - foto: divulgação

CÉSAR NASCIMENTO entrevistado por PAULO RODRIGUES

PAULO RODRIGUES ENTREVISTA

O CANTOR E COMPOSITOR

CÉSAR NASCIMENTO

 

 

Cantor e compositor César Nascimento – foto: divulgação

 

César Nascimento, cantor, músico e compositor brasileiro, conhecido por sua forte ligação com a cultura do Maranhão. Foi criado em Caxias (MA) e se considera maranhense de alma e música.

Contribuições para a cultura maranhense:

É autor de canções como “Ilha Magnética”, considerada um hino popular de São Luís e eleita como “Bem Cultural do Estado do Maranhão”. Outras composições suas incluem “O Radinho”, “Maguinha do Sá Viana” (em parceria com Alê Muniz), “Serenin” (em parceria com Vicente Telles), “Janela Aberta” e “Reggae Sanfonado”.

Com 15 álbuns gravados, César Nascimento é conhecido por sua pesquisa e difusão de ritmos tradicionais do Maranhão, como o Tambor de Crioula. Ele ministra oficinas sobre esses ritmos, como a “Crivador, matraca e pandeirão – uma viagem pelos ritmos do Maranhão”.

Já foi homenageado com um boneco gigante no Carnaval de Olinda (PE) e também pelo Projeto Ilha Sinfônica, quando lançou a sua Valsa Ludovicense.

César Nascimento tem uma longa carreira na música, com reconhecimento por sua contribuição à cultura maranhense e sua música é influenciada por diversos gêneros, incluindo ritmos regionais do Maranhão, reggae e outros estilos.

Atualmente, César está em estúdio gravando seu novo álbum LUZ DO COMETA.

 

 

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  1. Paulo Rodrigues – César Nascimento, o Ray Charles afirmava sempre: “A música é poderosa. Enquanto as pessoas a ouvem, podem ser afetadas. As pessoas respondem”. Ray Charles tinha razão? Como o César Nascimento vive e sente a música?

César Nascimento – Vivo a música intensamente, como músico, compositor, arranjador, ouvinte. Enfim, a música pra mim é alimento da alma. É, sob a ótica física, espaço-tempo, é vida!

 

  1. Paulo Rodrigues – Como você analisa o cenário da Música Popular Brasileira? E da Música do Maranhão? A música feita por você e outros grandes compositores maranhenses tem realmente uma beleza e uma profundidade que refletem a alma do nosso povo? 

César Nascimento – Estamos vivendo um momento histórico de grandes mudanças. Estamos atravessando uma revolução tecnológica que está afetando o mundo inteiro. Ao mesmo tempo em que o dinheiro se concentra mais na mão de poucos, a tecnologia permite que as formas de se produzir conteúdo se espalhe mais democraticamente, pelos rincões de todo o país. Portanto, ao mesmo tempo em que vemos dois ou três gêneros musicais sendo mais ouvidos pela grande massa, percebemos, também, uma crescente produção e divulgação em bolhas culturais. É desta forma que vejo o cenário brasileiro se apresentando na atualidade. A música do Maranhão também se encaixa nessa ótica. Contudo, vejo a cultura do Maranhão como uma cultura que sofreu pouca influência da cultura de massa. Sendo assim, conseguimos ouvir pérolas de criatividade influenciadas pela singularidade cultural existente no lugar. Posso falar que minha música é 99% inspirada nas coisas da nossa região. Talvez daí, um tanto da nossa gente se identificar com o que faço. Tipo músicas como Maguinha do Sá Viana (César Nascimento/ Alê Muniz), Ilha Magnética, O Radinho, Reggae Sanfonado. Todas elas têm, de alguma forma,  ligação com nossa identidade cultural.

 


 

  1. Paulo Rodrigues – O tambor de crioula do Maranhão é uma expressão cultural afro-brasileira que envolve música, dança e canto, especialmente em celebrações religiosas e sociais. Como a cultura africana atravessa a produção musical do César Nascimento? Você é um compositor universal com os dois pés no quilombo? 

César Nascimento – Tem uma frase “pinte seu quintal e seja universal”, que me acompanha em todos os momentos em que estou criando. Sou feliz e orgulhoso por minha música ser fortemente influenciada pela riqueza cultural e musical do Maranhão.  Daí, todo o seu leque musical, que vai do Tambor de Crioula ao Bumba Boi, do Cacuriá ao Lelê, passando pela cultura Reggae, que já é nossa também, todas têm, na sua mistura, forte influência africana. Eu, com os pés no quilombo, mas também nas influências indígenas e dos colonizadores europeus. Vou juntando muita coisa na caminhada. Tenho minha música como fruto deste conjunto cultural. 

 

  1. Paulo Rodrigues – Como foi a experiência com o Carlinhos Veloz, no show “Baião de 2”? Vocês andaram por vários estados? Esse trabalho criativo com muitos parceiros estimula o processo criativo do compositor? Qual é o seu principal parceiro? 

César Nascimento A experiência com o Carlinhos Veloz, no Baião de 2, foi riquíssima. Fizemos shows por todo o Brasil e no exterior. O nosso encontro deu-se no encontro das nossas duas formas distintas e peculiares de tocar o violão e duas vozes que se complementaram no canto. Daí surgiu uma nova sonoridade que encantou por onde passou, durante o período de dois anos em que o Baião de 2 existiu. O trabalho em parceria é sempre enriquecedor. Tive e tenho vários parceiros musicais. Já musiquei um poema do Ferreira Gullar. Fiz um baião com o Roque Ferreira. Fiz um boi com o Celso Borges. Fiz reggae com o Alê Muniz, no EP mais recente, de 04 faixas, 02 são em parceria. Acho que o Vicente Telles é o parceiro com quem tenho mais músicas. 

 

Maguinha do Sá Viana ( César Nascimento/ Alê Muniz), feat. (com Fauzy Beydoun e Gerson da Conceição)

 

  1. Paulo Rodrigues – Você viveu em Caxias e outras cidades. No entanto, foi atravessado pela música em São Luís. César seria cantor e compositor em qualquer lugar do mundo? O som feito em São Luís é mesmo diferente do que é realizado no restante do Brasil? 

César Nascimento – Eu fui concebido e criado em Caxias, do Maranhão. Mas, certamente eu seria um outro músico cantor e compositor se minha história se desse em outro lugar do mundo. Sinceramente, não imagino que tipo de música eu criaria.  A rica diversidade cultural que temos no Maranhão (é tão especial pra mim) que me propicia criar numa textura musical sempre com alguns elementos diferentes do que vemos no geral. Isso me dá uma satisfação ímpar.

  

  1. Paulo Rodrigues – Você faz uma oficina no Rio de Janeiro com o título: “Crivador, matraca e pandeirão: uma viagem pelos ritmos do Maranhão”. Como é a recepção? De longe, parece que o Rio tem percussão no coração? Você se sente em casa?

César Nascimento – Fiz bastante esta oficina, inclusive para músicos estrangeiros. Tenho me dedicado mais aos processos de gravação em estúdio, ultimamente. A receptividade às minhas oficinas de ritmos do Maranhão, sempre foi maravilhosa! Eu resido, atualmente, em Petrópolis-RJ. Toda vez em que posso, acompanho os movimentos musicais da galera da área e me sinto em casa também. Confesso que meu coração e meu pensamento estão sempre ligados na cultura que eu mais amo (que é a do Maranhão).

 

  1. Paulo Rodrigues – Os festivais de música do Maranhão foram importantes na formação musical do César Nascimento? Qual a grande lembrança desses momentos de encontros e celebração do potencial do compositor? 

César Nascimento – Eu venho dos festivais. Tanto regionais, quanto nacionais. Lembro a primeira vez que minha música passou na TV, foi durante o Festival da TV BAND, transmitido pelo programa do Flávio Cavalcante que, na época, era uma das maiores audiências do Brasil. Minha música Nordeste de Fulô foi escolhida pelo Júri Popular, como a melhor do referido festival. Depois participei de 03 festivais da Vale do Rio Doce, em Carajás – PA. Festival Viva, em São Luís, quando minha música foi gravada no LP do Festival. Era uma alegria. Participei de dois festivais da TV Globo Nordeste. Em Salvador-BA, Recife-PE e Fortaleza-CE.  Participei de um da TV Globo Nacional em São Paulo. Todos eles foram muito marcantes e, cada um a seu modo, contribuíram pra minha formação musical.

 

  1. Paulo Rodrigues – César, Ilha Magnética é símbolo do Maranhão. Como você fez a letra e música? Quais são suas três músicas preferidas dentro do seu próprio cancioneiro? 

César Nascimento – Ilha Magnética nasceu no início da década de 80, logo após minha chegada a São luís (pra ficar). Ela é uma composição singela e enigmática, e eu, até hoje, 44 anos após compô-la, me emociono e vejo muitos se emocionaram, ao ouvi-la. Vejo Ilha Magnética como uma síntese do meu amor e admiração pela Ilha de São Luís. É difícil escolher,  num repertório musical que se espraia por 15 álbuns,  somente três, mas Reggae Sanfonado me vem à cabeça,  porque  sendo um reggae com uma personalidade bem nacional,  traduz minha paixão pelas coisas do Brasil. Catirina e o mar, porque mostra uma ligação direta e profunda com o nosso rico e encantador folclore maranhense. E Ilha Magnética porque é também uma leitura de mim de como eu tento fazer minhas músicas: de forma simples e emocionante.

 

 

 

 

  1. Paulo Rodrigues – Você é incansável. Está sempre produzindo. Quais são os novos projetos do César Nascimento? 

César Nascimento – Concluí em 2024, a Valsa Ludovicense, inspirada no Centro Histórico de São Luís. Eu assumi o desafio de escrever o arranjo para orquestra sinfônica. Fiquei honrado e feliz quando conseguimos gravá-la (sob a regência do Maestro Jairo Morais), com a Orquestra Ilha Sinfônica. Neste início de 2025, fui acompanhar a convite do compositor Nosly e de Ytamara Santos, o meu boneco gigante de Olinda, o ‘COREIRÃO’, pelas ladeiras dessa linda cidade pernambucana numa marcante homenagem. Nestes meses de abril e maio de 2025, entrei em estúdio pra gravar meu EP LUZ DO COMETA, que estamos na fase de lançamento, no momento em que estou sendo entrevistado.

 

10 Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores (amantes da música maranhense). 

César Nascimento – Nos orgulhemos e cuidemos da linda e rica cultura que temos!

 

 

 

LETRAS DE CÉSAR NASCIMENTO

 

 

ILHA MAGNÉTICA

[César Nascimento]

 

Ah, que horizonte belo

De se refletir

Outro dia me disseram

Que o amor nasceu aqui

 

Saiu de trás do sol com um jeito de guri

Tanto novo como leve o amor nasceu aqui

 

Ponta da areia, olho d’água e Araçagy

Mesmo estando na Raposa

Eu sempre vou ouvir

A natureza me falando que o amor nasceu aqui

 

Ah que ilha inexata quando toca o coração

Eu te toco, tu me tocas

Cá nas cordas do violão

E se um dia eu for embora

Para bem longe deste chão

Eu jamais te esquecerei

São Luís do Maranhão

 

 

MAGUINHA DO SÁ VIANA

[César Nascimento]

 

Outro dia tava num salão de reggae lá pras bandas do Maranhão

Vi uma Maguinha com missanga no cabelo no meio do salão

 

Baixo tá no pé, corpo na canção

Toca radiola, essa Maguinha é um furacão

Eô-ô, êo

 

Quem ela é ?

Rita, Ambrosina, Maria das Dores

 

De onde ela é?

De São Paulo, Nova York ou dos Açores

 

Maguinha, tu parece que é baiana, dança como jamaicana

Tem cintura caribenha

Maguinha do Sá Viana

 

Baixo tá no pé, corpo na canção

Toca radiola essa Maguinha é um furacão

Eô-ô, êo

 

 

O RADINHO

[César Nascimento]

 

Se o radinho caísse aqui

caísse o radinho perto de você (2x)

Diga cidadão o que fazer

com informação em megatons

Batia continência com o dial na frequência

ou decibediência,

insuflava a nação

 

Mas, atenção pra notícia:

A invasão é pacífica,

A percussão é marítima,

A explosão é sonora,

é munição pós-moderna

 

Oi, oi, oi, iô, iô, iô

Ai, ai, Haiti

Oi, oi, oi, iô, iô, iô

 

Discurso: Povo do Haiti, o Tio Sam está chegando pra salvar vocês!

 

 

SERENIN

[César Nascimento/Vicente Telles]

 

Se tu quer namorar, namora eu

Se tu quer se casar, casa com eu

 

Lembra a lua prateada

De nós dois na madrugada,

Serenin, serenin

Lembra de nós dois lá no capim,

Um fazendo bem pro outro

Quem se ama é assim

 

Foi, foi debaixo da mangueira

Que a gente viu a folha da cana voar

Nós dois, no pé da ribanceira

Foi a maior bagaceira

Do mundo rodopiar (×2)

 

Se tu quer namorar, namora eu

Se tu quer se casar, casa com eu

Lembra da lua prateada

De nós dois na madrugada

Serenin, serenin

Lembra de nós dois lá no capim,

Um fazendo bem pro outro,

Quem se ama é assim

 

 

REGGAE SANFONADO

[César Nascimento]

 

Fui a Campina Grande, Petrolina, Juazeiro,

Pra poder ouvir de perto o fole de oito baixos

No Rio de Janeiro já andava a dois por quatro,

Pra não perder o compasso do surdão e do pandeiro

Jamaica, Maranhão, folião é nas Crioulas

Reggae, rádio, radiola, guitarra, caranguejada

Contra-tempo, retinta, cachaça na moçada

 

Eu disse Marley, Gonzaga,

Paulinho da Viola e Os Foliões

 

Juntei todo mundo no terreiro:

Fole, guitarra, pandeiro, contra-tempo e o surdão

 

Caí no Sanfonado, no Sanfonado

O reggae brasileiro que nasceu no Maranhão

 

 

JANELA ABERTA

[Cesar Nascimento]

 

Assim, assim, assim…

Vou feito rua deserta,

Janela aberta à procura de luz…

Luz, venha-me-nos iluminar

Ah! saudade do clarão,

Pictórica paixão,

Guache com gosto de mar,

Sol e tesão,

Vela singrando ao ar

Leve a solução

Pra junto desse leve ar

Assim…

Vou te encontrar no Calhau,

Depois da ponte surreal…

E namorar baixinho

Pra que o mundo veja

Que o namoro é de nós dois

Pra que a gente seja

Bem mais antes que depois

Pra que a gente possa se encontrar

Janela aberta pra luz…

Luz adentrando-me-no-la

Janela aberta pra luz…

Luz adentrando…

 

 

NO MEIO DO GURUPI

[César Nascimento]

 

MANDIOCA, BACURI

JAÇANÃ, BACURITUBA,

CARIMBÓ, TUCUPI

MANDUBÉ, MOCAJITUBA

TUPI ME DIGA, O QUE É QUE É?

SE É PARÁ, MARANHÃO

DE QUE LADO A GENTE TÁ NO MEIO DO GURUPI?

TIMBIRA, TREMEMBÉ

GUAMÁ, TUCUPI

MARAJÓ, PINDOBA

TARIOBA, ARARI,

BURITI, TACACÁ

CUXÁ, JACARÉ

JUÇARA, AÇAÍ

MEARIM, TAPAJÓ

TUPI ME DIGA, O QUE É QUE É?

SE É PARÁ, MARANHÃO

DE QUE LADO A GENTE TÁ NO MEIO DO GURUPI?

 

 

BOIZINHO DE VIOLA

[César Nascimento]

 

São Pedro, às três da manhã,

Um pedaço do chão é do Maracanã

Chocalhos, é o Boi de Rosário

Jorrando do couro pura fantasia

A Maresia está presente

E a gente sente o de Morros passar,

Num caminhão que é só magia,

Dizendo para o povo se preparar

E eu, Boi de Viola, que está na sacola,

Estou, beira porta, a reparar

As índias,  num jogo de pé,

Anunciando o Pindaré

REFRÃO:

Eu fui, Zé de França,  eu fui

Pedir coração de Jacira pra ficar

No terreiro da Ilha, Boizinho de Viola foi se apaixonar

Eu, fui, Zé de França, eu fui

Pedir a paixão da Nativa do Axixá

Dança no meu terreiro,

Traz boi de orquestra,

Quero vadiar

Ilêrê…

Perizes, de Baixo e de Cima

Com bonecos de pano

E seus mourões no ar

Maioba, com João Chiador,

Conferindo a ‘derrota desses cantadô’

A Madre Deus vem matracando e,

De longe, se ouve a Onça esturrar

De um lado vem o Boi da Floresta

E, do outro, o Batalhão de Ribamar

REFRÃO…

 

 

 

 

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Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista. Autor de Cordilheira (2024) e do premiado [e ainda inédito] Moinhos, entre outros livros de poemas.