PELES, ALFINETES, FERIDAS:
A POESIA ENQUANTO OFÍCIO DE COSTURAR HUMANIDADES
Por Evilásio Júnior
O livro mais recente da poeta maranhense Luiza Cantanhêde, Alfinetes, costura em nós uma leve camada de humanidade. Um trabalho de visceral beleza feito pela Litteralux, apontando, desde a concepção do trabalho gráfico, dos elementos que compõem a obra, uma poética que perfura a pele do leitor, fazendo-o sentir as pontadas que cada palavra causa, ao penetrar em cada camada da pele.
Sou filho de costureira, conheço há décadas a função dos objetos utilizados no ofício da feitura de roupas. A poeta faz uso da figura do alfinete, buscando além do grito, além da dor, a beleza que veste os nossos sentidos despidos. São quatro atos de uma ópera que acorda a carne do sono mais profundo: Agulha Brasa Íris, Derme, A costela de Eva e Suturação.

Cantanhêde traz nas mãos a genealogia das parteiras, ela sabe rasgar os úteros da manhã e trazer a poesia para cobrir a nossa nudez. Há, em cada pontada, um desejo de cingir “a carne”, suturar “o que é de pedra”, costurar “o que é de terra/ e raízes”. A cada perímetro do corpo atravessado pelas agulhas, pelos alfinetes, há um ato consciente de “remendar as feridas”, “remendar cicatrizes”.
A poeta faz da pele um papel onde escava e escreve, “tentando costurar com dedos trêmulos/ o que já foi desfeito”. Do vocábulo pele, brota o que há de mais sensível em matéria de escrita. É um trabalho para ser sentido, não apenas lido. À medida que avançamos a leitura da obra, compreendermos que, apesar dos rasgos, das feridas, dos cortes, Cantanhêde desvenda as nossas dores, revela o “mapa oculto na pele”.
Luiza não tem medo de cavar “o próprio destino/ entre a dureza do chão/ e os segredos do impossível”. No “velho ofício que passa de mãe para filha”, ela é “da linhagem das mulheres que cantam/ ao silêncio das folhas/ e das eras”. Alfinetes é a declaração desta “mulher” que “lava as feridas”, que grita que “as unhas fincarão mais fundo”, que abre um “rasgo no espaço”, que sabe que, além do voo, “é na lâmina que a pele se faz mapa”.

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Evilásio Júnior, ativista cultural, escritor e poeta, é autor dos livros de poemas Pulsões de vida e morte, 2019, Antropologia da Terra, 2023 e Quando os tambores ancestrais pulsam nas retinas da noite, 2025.

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