Por Rafael Oliveira
O mundo contemporâneo tenta nos seduzir com o que é grandioso, pragmático ou previsível, mas é pelos vieses, frestas e lacunas que encontramos aquilo que realmente nos humaniza. O livro Coisinha no quintal do mundo: um álbum de retratos (2024) configura-se a partir do desejo de interceptar as pequenas coisas que evocam a sutileza poética, muitas vezes imersa no invisível. Nesta obra, a poeta Márcia Sousa devolve a essas “coisinhas” sua visibilidade simbólica.
Mais do que um lugar físico, o quintal é abrigo, permanência e contemplação. Ele guarda o paradoxo de ser, simultaneamente, um espaço delimitado e um infinito de reminiscências. Nele, o tempo de crescer processa-se sem pressa, e o que corre descalço ainda não aprendeu as convenções de “calçar-se” para o mundo. O quintal não é apenas o espaço onde se está, mas o que se vive: o refúgio daquilo que, em nós, insiste em permanecer em estado de infância. Como bem ilustram estes versos:
No quintal daquele mundo / Chovia sempre às três da tarde / Era quando o céu nos batizava / E corríamos nuas nossas purezas / Sepultando sob as unhas roídas / O implacável tempo de crescer. (p. 43)

Em A Poética do Espaço, Gaston Bachelard afirma que “habitar é poetizar o espaço”. Em Márcia Sousa, essa máxima realiza-se como experiência concreta da linguagem, em que o quintal é reconstruído por uma sintaxe que privilegia a justaposição de imagens sensoriais — imagens salvadas pela memória. Ao nomear objetos (a cadeira de balanço, o balaio, o ferro de engomar) e gestos mínimos (ninar, espichar, abanar), o texto realiza o que Bachelard chama de topoanálise: a investigação da intimidade do espaço por meio da sensibilidade poética. O quintal torna-se, assim, um território de fronteira, onde o eu lírico reconhece o sentido atávico de uma voz ou de um cheiro como testemunhos silenciosos da existência.
Walter Benjamin, no ensaio O Narrador, adverte que a modernidade e sua lógica de aceleração nos privam da capacidade de transmitir experiências. Recuperar as “lembranças” é, portanto, um meio de autorrestauração. Coisinha no quintal do mundo responde a esse anseio não por nostalgia passiva, mas pelo ato de “colher” e “guardar” em camadas de memória — um trabalho artesanal que Benjamin considerava crucial para a experiência autêntica.
O eixo estético neste livro reside em reduzir a imensidão do mundo à escala do quintal. É uma estética da atenção, uma recusa deliberada à lógica do espetáculo cotidiano, que resgata o valor impresso nas coisas. Esse gesto de resistência torna-se ainda mais necessário sob a ótica de Byung-Chul Han em Sociedade do Cansaço. Para Han, a exaustão contemporânea decorre da obrigação de performar, da autoimposição de ser eficiente. Nesse contexto, voltar-se para uma memória ou um gesto lúdico não é um retrocesso, mas um ato de resistência contemplativa.
A poética de Márcia Sousa não paralisa a memória; ela desperta a consciência para ritos que operam contra a pressa: a cadeira de balanço que “ninava saudades”, o balaio que “emaranhava silêncios” e o ferro de engomar que exige delicadeza, como nestes versos:
Assim a avó ensinava / Engomando seu gemido: / Para espichar bem os dias / Empregue muito calor / Passe o ferro delicada / Abane no tempo a brasa / Estique bem devagar / Os vincos de sua dor. (p. 53-54)
Ao ler esta obra, o leitor é convidado a revisitar seu próprio quintal interior. O livro funciona como uma chave simbólica que, ao ser girada, devolve a possibilidade de habitar poeticamente a infância. O que se perdeu ou se apagou dentro da engrenagem linear do tempo ganha, em Márcia Sousa, uma forma eterna de permanência.
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Rafael Oliveira é poeta, membro da SOBRAMES/MA, e autor de O avesso abstrato das coisas (2021).

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