Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

O tempo das manhãs trêmulas, de Laura Amélia Damous

A EXATIDÃO DO TREMOR

 

Por Bioque Mesito

 

O tempo das manhãs trêmulas, de Laura Amélia Damous, se afirma como um livro de contenção e precisão. Chama atenção, desde logo, o fato de a autora passar mais de uma década sem lançar um novo livro e, ainda assim, reaparecer com a mesma autoridade poética, como se jamais tivesse interrompido o próprio curso de publicação. Não há, em sua dicção, qualquer sinal de enfraquecimento, hesitação ou perda de pulso. O livro soa como obra de uma voz que permaneceu em atividade plena, maturando em silêncio a própria potência. Sua poesia recusa o derramamento fácil e prefere a secura expressiva, o corte exato, a imagem que se sustenta sem ornamento.

Há, desde os primeiros poemas, um lirismo seco que não exclui a emoção, mas a submete a um regime de depuração. O verso não quer seduzir pelo excesso: quer ferir pela justeza. É nessa economia verbal que o livro encontra sua temperatura mais alta. A síntese, aqui, não funciona como empobrecimento, mas como método de intensificação. Cada poema parece procurar o ponto exato em que a palavra basta e o excesso compromete.

A dicção se mantém enxuta mesmo quando trata de fome, infância, desejo, ausência ou agonia. Em vez de alongar o sentimento, a autora o comprime até que ele se torne mais incisivo. O resultado é uma poesia que condensa o mundo para que ele reverbere com mais força. Essa condensação produz também uma pragmática textual muito própria. Laura Amélia organiza seus poemas por elipses, cortes, repetições e pausas que operam diretamente na construção do sentido.

O silêncio, em seus textos, não é intervalo passivo, mas parte ativa da significação. O que não se diz pesa tanto quanto o que comparece em palavra. Por isso, a leitura exige atenção ao movimento interno do poema, às fricções entre o dito, o sugerido e o interrompido. Há, nesse procedimento, uma marca existencialista bastante nítida. Não se trata de uma filosofia enunciada, mas de uma experiência concreta de precariedade, desencontro e finitude.

O sujeito lírico surge diante da falta, da corrosão, do desgaste do tempo e da insuficiência da linguagem para apaziguar a existência. Mesmo quando o poema parte de uma imagem doméstica ou corporal, ele logo se converte em indagação sobre o ser, a perda e a permanência. A poesia de Laura pensa a vida como matéria frágil, vulnerável e, ainda assim, nomeável. As memórias da infância ocupam papel decisivo nesse processo. Elas não aparecem como refúgio idealizado, mas como território ambíguo, simultaneamente fértil e doloroso.

A poeta Laura Amélia Damous – foto: divulgação

Em O tempo das manhãs trêmulas, a infância é associada à seiva, à abundância, ao crescimento, mas também à fome, à agonia e ao transbordamento de uma matéria emocional difícil de conter. O passado não é abrigo: é núcleo ativo de tensão. A lembrança comparece como força orgânica que continua operando no presente. Essa arqueologia íntima se adensa em vários poemas do livro, onde o passado retorna menos como narrativa do que como vestígio sensorial. O que interessa à autora não é reconstituir fatos, mas registrar a permanência do que deixou marca.

Nesse sentido, recordar é reabrir uma zona de vulnerabilidade. O poema se torna o lugar em que a memória deixa de ser lembrança e volta a ser experiência. A origem árabe, por sua vez, se inscreve no livro de modo sutil e estrutural. Ela não surge como emblema decorativo nem como afirmação identitária programática, mas como camada profunda de ritmo, herança e imaginação. Quando aparecem nomes, linhagens ou imagens ligadas ao deserto, à travessia, à cinza e à ancestralidade, abre-se no livro uma dimensão genealógica de grande densidade.

Essa herança parece atuar por infiltração, não por exibição. É um fundo cultural e afetivo que modula a gravidade do canto e a espessura das perdas. Outro traço decisivo da escrita de Laura Amélia Damous é o cuidado com o enxerto das palavras. Cada vocábulo parece transplantado para o lugar preciso em que poderá ganhar tensão nova. A autora combina dureza e delicadeza, ruína e musicalidade, corpo e abstração com uma carpintaria verbal rigorosa.

Nada soa supérfluo ou casual. O poema é trabalhado como organismo vivo, em que cada palavra precisa aderir ao conjunto sem perder sua capacidade de estranhamento. Nos poemas mais recentes mostrados, essa poética da precisão se expande para uma investigação ainda mais densa da noite. Em “Uma noite que não quer ser noite” e “A desenfreada corrida da noite”, a noite deixa de ser simples cenário para se tornar matéria ontológica, espaço de crise e desajuste. Ela encarna a insônia, o medo, a hesitação perceptiva e a falência das categorias estáveis.

Não é apenas o escuro exterior que se enuncia, mas a experiência subjetiva de quem tenta atravessar uma zona psíquica sem mapa. A noite, aqui, é um modo de consciência. Nesses poemas, a repetição vocabular ganha especial relevo e confirma a inteligência pragmática da autora. Termos como “noite”, “faca”, “manhã”, “promessa”, “encurralada” ou “amanhecer” retornam não para reiterar o mesmo, mas para deslocar gradualmente o campo de sentido. Cada repetição reabre o verso anterior e reorganiza a leitura.

A palavra, ao reaparecer, já não é idêntica a si mesma. Laura domina com precisão esse mecanismo, fazendo da insistência uma forma de pensamento. Poemas como “Penitência” e “Conversa de sapatos” revelam também a elasticidade de sua escrita. No primeiro, a depuração beira a ladainha, como se a enumeração de perdas, clausuras e desvios produzisse um estado de asfixia espiritual. No segundo, surge um humor sombrio, uma espécie de ironia exausta, que não dissolve a densidade do poema, mas a redireciona.

A autora demonstra saber modular registros sem perder unidade. Seu livro comporta tanto a gravidade austera quanto o insólito discretamente corrosivo. Esse domínio formal não resulta em frieza; ao contrário, produz uma intensidade baixa e persistente. A emoção, em Laura Amélia Damous, não explode, infiltra-se. Ela trabalha numa escala em que o tremor importa mais que o grito, e o abalo interior vale mais que a declaração enfática.

Por isso, seus poemas permanecem na memória menos pelo efeito espetacular do verso do que pela maneira como continuam ressoando depois da leitura. Há neles uma vibração subterrânea, discreta e funda. No conjunto, O tempo das manhãs trêmulas revela uma autora de dicção madura, rara disciplina verbal e imaginação concentrada.

Seu lirismo seco, sua ética da síntese, sua pragmática textual, o lastro existencialista, a memória da infância e a presença subterrânea da origem árabe compõem uma obra de grande coerência interna. O livro se sustenta pela capacidade de transformar precariedade em forma e herança em pulsação verbal. Laura Amélia Damous escreve como quem poda e enxerta ao mesmo tempo, e dessa operação nasce uma poesia que fere com delicadeza e dura pela exatidão.

 

Orelha [direita] do livro O tempo das manhãs trêmulas

 

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Bioque Mesito

Poeta e autor de “Revoada de interrogações”, 2025.