“Eu penso que a poesia não existe apenas para celebrar o belo, mas também para testemunhar o mundo — inclusive suas dores”
Anna Liz

Ana Elizandra ou Anna Liz é de Santa Luzia, Maranhão. Poeta, cronista e professora, mestre em Língua Portuguesa, pesquisadora do grupo de pesquisa “estudos mulheres, emancipações e literatura – Gmells” da Universidade do Sul e Sudeste do Pará. Tem participação em inúmeras antologias, além de já ter publicado oito livros solo, dois duetos. Organizou duas antologias com obras de 25 escritoras maranhenses. Ao longo de sua trajetória recebeu alguns prêmios e reconhecimentos de Literatura de entidades relevantes. Faz parte de algumas academias e núcleos acadêmicos de letras e ates. Faz parte da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, Coordenadoria Maranhão, do Coletivo Vozes do Vale e da Rede Sem Fronteiras.
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- Paulo Rodrigues – Anna Liz, como foi seu primeiro contato com a literatura? E como a literatura tomou conta da sua vida?
Anna Liz – A leitura chegou muito cedo à minha vida pelas mãos de minha avó – mulher negra, pobre e analfabeta, mas a pessoa mais rica e mais sábia que eu já conheci. À noite, depois do jantar, nos sentávamos na calçada para eu ler o cordel e para ouvi-la contar histórias maravilhosas, que me faziam tremer e me emocionar. Suas histórias eram situadas no interior do Piauí, de onde viera no início dos anos de 1950, fugindo da seca e da fome. Minha avó era analfabeta, mas foi ela que despertou em mim o prazer e a descoberta da leitura. É interessante ressaltar que, apesar da grande e pesada lida, ela parava para contar histórias ou ouvir a literatura de cordel.
- Paulo Rodrigues – Quais são os autores prediletos da poeta Anna Liz?
Anna Liz – Ultimamente, tenho lido mais os autores contemporâneos, os maranhenses, como Laura Amélia, Luiza Cantanhêde, Paulo Rodrigues, Wanda Cunha e a literatura negra, como Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Itamar Vieira Júnior, dentre outros.
Gosto da literatura clássica e sou apaixonada pela escrita de Mia Couto.

- Paulo Rodrigues – Como é o processo criativo da poeta Anna Liz?
Anna Liz – A criação poética é muito variável, acordo no meio da noite para anotar uma frase, uma palavra, uma ideia. Escrevo e reescrevo meus textos muitas vezes. Aliás, eu vivo reescrevendo, buscando novas imagens, aproximações sonoras, etc. Tenho uma produção mais emotiva, reflexiva, voltada para o eu, mas ser desprezar o externo. Ser poeta/escritora é ter olhos pescadores, sempre atentos para fisgar a poesia.
- Paulo Rodrigues – Ana Luísa Amaral afirmou: “a poesia deve observar o mundo, mesmo quando a manhã dói”. Você concorda com ela? Como observa a poesia?
Anna Liz – Eu penso que a poesia não existe apenas para celebrar o belo, mas também para testemunhar o mundo — inclusive suas dores. A poesia observa o mundo como quem encosta o ouvido na realidade — para ouvir até o que ainda não foi dito.
- Paulo Rodrigues – Poeta, você venceu vários prêmios. Eles ajudam a divulgar o trabalho dos autores?
Anna Liz – Sem dúvida, os prêmios literários são amplificadores. Eles chamam atenção de leitores, editoras, críticos e da imprensa para um livro ou para a trajetória de quem escreve. Portanto, eu penso que eles são importantes, mas não são o único caminho para dar visibilidade. Mais que os prêmios, é importante o ativismo forte (da artista) por meio de leituras públicas, redes sociais, coletivos literários e circulação em saraus.
- Paulo Rodrigues – Você faz um trabalho de divulgação da literatura nas escolas e universidades. É necessário formar o leitor de literatura?
Anna Liz – Formar leitores de literatura é imprescindível. Ler literatura envolve sensibilidade, imaginação, interpretação e escuta. Essas habilidades costumam ser cultivadas ao longo do tempo, por meio do contato frequente com livros, conversas sobre leitura e experiências significativas com textos literários. A literatura existe plenamente quando encontra um leitor capaz de escutar palavras, imagens e silêncios. Formar leitores, portanto, é cultivar a permanência da própria literatura no mundo.

- Paulo Rodrigues – Fale um pouco para nós sobre o livro Poemas Mínimos.
Anna Liz – O livro de poesia Poemas mínimos, escrito a quatro mãos por Silvana Meneses e Anna Liz traz um diálogo entre as autoras por meio de uma poesia minimalista, construída a partir do gênero literário japonês, a renga. Um livro em que apresentação, prefácio, epígrafes são de autoria feminina, trazendo um encontro de vozes fortes, marcantes e necessárias.
- Paulo Rodrigues – Quase são os novos projetos da poeta?
Anna Liz – Anna Liz sempre tem projetos voltados para divulgação/disseminação não só do seu trabalho, mais também de outras autoras maranhenses. O nosso propósito é junto ao Coletivo Vozes do Vale expandir a literatura da nossa região e junto à Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil expandir a produção de autoria feminina. Para isso, pensamos na organização de eventos, participação em feiras, curadoria de exposições e, claro, escrever novos livros.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Anna Liz – Caros (as) e gentis leitores(as), leiam sempre a literatura local, procurem conhecer os escritores do tempo de agora, o que eles dizem e como dizem. A literatura é sempre referência. Ler é um gesto silencioso que move o mundo. Cada página aberta de um livro é uma porta que se entreabre para outras vidas, outros tempos, outras maneiras de sentir. Quem lê nunca caminha solitário – carrega consigo vozes, memórias, perguntas, sonhos e inquietação.
Atravessem livros como quem atravessa rios. Às vezes, com calma; às vezes com vertigem, mas sempre com o coração disposto a descobrir novas margens.
Leiam devagar, leiam com fome, leiam com espanto e estranheza. E, sobretudo, nunca deixem que o mundo lhes roube o direito de imaginar
POEMAS DE
ANNA LIZ
HEMATOMA (IN)VISÍVEL
Casa, território minado.
Pés/martelos
pregam medo.
Pele, mapa
de tempestades.
Na parede,
toda sombra tem dente.
Se grita,
fazem de conta que é brisa.
Medo fratura.
Mão que jura
também tritura.
Mas, na garganta
nascem gumes
de retalhar mudez.
PERTENCIMENTO
sol rasga nevoeiro,
território sob pele.
senha cravada no osso
verso me veste
por dentro
algo que me pertença
vertigem à queda,
trovão à nuvem.
espuma
atira-se da cachoeira
sem permissão do abismo.
MIRAGEM
Teu nome _
água inventada no deserto
não me sacia.
Atravessa-me _
sol sobre areia.
Quanto mais caminho,
mais distante _
horizonte.
Mão estendida
não toca claridade
Descanso
sobre tua ausência _
quase corpo
quase milagre.
SEM MARGEM
Em mim,
trovões, incêndios,
farpas de luz.
Meu corpo – mar revolto –
rebenta limites.
Vida/lâmina
racha sonhos ao meio
feito escassez de pão.
Ausência –
pedra na correnteza
à procura de margem
GERMINAÇÃO
Sepultar-se na palavra
Enraizar-se no fluxo
das sílabas
Ser fenda/chão
Peito-húmus
Ventre-verbo
No barro/folha
Lavrar corpo
Escrever sementes
Poema:
Queda d’água
onde o verso sangra
no ofício de se derramar…
BALANÇO
Silêncio de gato,
vibrissas tateando lua.
Quero sentar-me com memórias,
acertar antigas dívidas,
mergulhar no tecido da hora
guardar conchas e ferrugens.
Fazer balanço das marés:
do que vivi, do que sonhei…
E quem sabe afinar, enfim,
secreto instrumento
que em mim toca fora de tom.
Auroras nos recomeços —
rédeas curtas
para manhãs e relógios.
ELOCUÇÃO
O mundo ruge,
eu digo.
Palavras pedem passagem,
não vendaval.
Por muito tempo
fui casa sem janela.
Aprendi a dizer
sem incendiar.
Grito é fogo:
revela a miséria
Palavra, quando dita,
não explode —
encosta
e abre a carne.
FUGACIDADE
palavras rasgam a pele
na manhã de terça
o dia não cabe no poema
vivemos ecos disso
enquanto o agora dói
e a memória queima
poema subcutâneo
de súbito
insiste em sobreviver
na babel das etimologias,
aprendemos:
pensamento tem fim
conhecimento falha
o mundo transborda
às vezes, penso que deus
é a minha gata preta
à espreita
indiferente
FACE
não escrevo para salvar
o mundo
minhas mãos
estão vazias demais
para gestos heroicos
mal sustento o peso
do meu nome
não posso resgatar ruínas
que não são minhas
habito ilhas:
silêncio por todos os lados
pouco sei de solidão
não reconheço minha própria voz.
pode ser que haja arsênico
sobre a mesa da cozinha —
gosto de ferrugem
de cansaço
dias que se acumulam
não acredito em salvação,
minha pequenez
é sombra longa na parede
se eu me pintasse,
seria apenas face
aprendendo a existir
na tempestade
***
Paulo Rodrigues (entrevistador) é jornalista e poeta maranhense/brasileiro, autor de Moinhos (no prelo), Cordilheira (Patuá, 2025) e do romance O desencanto das águas (2025), entre outros livros.

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