Entrevista, por PAULO RODRIGUES

Isaac Gonçalves Souza é músico, poeta, historiador e fanzineiro. Nasceu em Goiânia – GO em 1984. Filho de família codoense, cresceu no Maranhão. Radicou-se em Caxias – MA em 2004, quando ingressou na Universidade Estadual do Maranhão. É licenciado, mestre e doutor em História. Coorganizou a obra de referência Cartografias Invisíveis: Saberes e sentires de Caxias, publicou Cidade de Cristal: estratégias de evasão do tempo na escrita de caxienses (1914 – 1937), participou de diversas coletâneas de trabalhos historiográficos, entre os quais História, sentido e acontecimento e O cuidado de si: cultura e estética da existência. Liderou a banda Casino Quebec com a qual lançou álbuns e singles. Lançou Violão de Veludo e outros trabalhos solo. Atualmente lidera a banda Poematron Experience. Membro da Academia Caxiense de Letras.
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- Paulo Rodrigues – Isaac Souza, Robert Schumann afirmou: “Enviar luz pra a escuridão dos corações dos homens – este é o dever do artista”. Como você avalia essa sentença?
Isaac Souza – Querido poeta Paulo Rodrigues, você sempre me leva a pensar o impensado, e isso evidentemente, além de trazer muito prazer, também traz riscos. De um modo geral, eu sou reticente em relação a imperativos sobre a arte e o artista. Sobretudo, imperativos moralizantes.
Considero o artista um cidadão e um profissional; entendo que os compromissos éticos do artista — em que pese a especificidade de seu trabalho — não diferem essencialmente dos de qualquer outro cidadão ou profissional. Não vejo por que o artista deva levar luz aos corações dos homens e os advogados não. Não vejo por que o artista deva ser responsável pelo “Bem” e não o político, o médico, o engenheiro.
Eu entendo que aquele enunciado revela algo profundo no imaginário coletivo: o artista imaginado em uma dimensão “religiosa”, como alguém que recebeu um dom e agora tem uma missão. Mas eu considero o artista como um artesão, não como um profeta. Ele é um trabalhador que opera com seu corpo, seu intelecto, suas matérias de expressão, seu saber especializado.
Do meu ponto de vista, não faz sentido esperar que o artista — muitas vezes um marginalizado — ilumine o coração dos homens enquanto as pessoas mais ricas do mundo lucram com a guerra, com as doenças, com a fome, com a exploração dos corpos e das vidas dos pobres e dos vulneráveis e ainda são admiradas por serem “bem-sucedidas”, os verdadeiros “cidadãos de bem”. Afinal, por que o artista teria uma missão moral superior à de um magnata do petróleo ou da indústria de armas, um banqueiro, programadores de IA, executivos bilionários? Temos, sim, nossas responsabilidades públicas, sociais, éticas — mas não por sermos artistas, e sim por sermos humanos.
Dito isto, precisamos reconhecer que nosso trabalho de artistas toca regiões muito delicadas da alma e da experiência humana — a fantasia, o sonho, o desejo, a fé, os sentimentos e até o inconsciente. A arte é capaz de ir a extremos que outras linguagens não podem, de fazer perguntas cujas respostas jamais se concluem.
Mas também somos forçados a aceitar que nunca chegaremos, por mais experientes que nos tornemos, a ter perícia absoluta em nosso manejo. Sempre & sempre trabalhamos no limiar do erro. O resultado disso é que a arte, longe de ser aquela que traz soluções, é aquela que traz à tona as dúvidas, anseios e agonias. Aliás, uma das tarefas que a arte assumiu desde seus começos foi justamente a de revelar a escuridão no coração dos homens. Assim, se eu fosse recuperar a metáfora de Robert Schumann, eu diria que a arte nem é luz nem é trevas — ela é penumbra.
- Paulo Rodrigues – Isaac, você é um músico, um compositor que gosta de aventura, de descobertas?
Isaac Souza – Sim, Paulo. A música, como a poesia, nos obriga a lidar com o dilema dos territórios. De um lado, a vastidão do continente da arte; de outro, a necessidade de constituir, nele, o nosso cadinho artístico. De um lado, as virtualidades ilimitadas da linguagem; de outro, a demanda incessante de consolidar um estilo. No miolo desse paradoxo, a personalidade artística precisa nascer e amadurecer.
Um músico — e muito especialmente um compositor — se assemelha a um poeta que está constantemente se movendo entre a estante, a escrivaninha e o bar. A estante como signo da tradição de sua arte, que ele jamais renuncia conhecer, discutir, investigar, desconstruir; o bar como signo da experiência da vida em comunidade, onde ele adquire matérias de expressão de “fora” dessa tradição; e a escrivaninha como signo do labor, da experimentação, da manufatura de sua própria arte.
Eu faço uma distinção muito clara entre gênero e estilo. O gênero diz respeito a certas fórmulas e lugares comuns, maneirismos, que permitem à indústria fonográfica categorizar, rotular um artista e um público-alvo. Rock é um gênero musical. Reggae é um gênero. Mas quando você olha para os melhores representantes desses gêneros, você percebe que eles não são, em absoluto, genéricos. Eles são dotados de estilo. O estilo acontece quando um artista consegue distorcer os gêneros, burlar suas fronteiras e fórmulas, falar com dicção e vocabulário próprios. Miles Davis não respeita as regras do gênero jazz — os fazedores genéricos de jazz é que precisam correr atrás dos insights corajosos de Miles Davis. Hendrix era um guitarrista de blues, mas ele fez o blues se dobrar e se contaminar a tal ponto que se tornou outra coisa. Isso é estilo.
Em minha jornada musical, eu busco sempre o inominado. Ouço e tento aprender com os mestres do presente e do passado, mas não para seguir suas cartilhas, e sim para distorcê-las. É dessa forma que eu me esforço para violar as fronteiras dos gêneros, na esperança de fazer nascer um estilo.
- Paulo Rodrigues – Quais são as influências musicais do Isaac Souza?
Isaac Souza – Eu acredito na fecundidade das impurezas. Eu não tenho ídolos na música, eu tenho interlocutores. Eu acredito que minhas maiores “influências” são os músicos com quem toquei. O Johnny Casanova não só me ensinou e me estimulou muito como me deu espaço e oportunidade de experimentar — no palco dele — minhas intuições musicais. O Naum Esteves, com quem excursionei, e cuja banda se equilibrava entre a absoluta liberdade criativa e o dever de manter a voz e o texto dele altamente comunicáveis. Meus parceiros de banda, Felipe, Daniel, Ary e outros caras com quem toquei. Em tempo real, essa galera me ensinou coisas, apostou nas minhas loucuras, me deu toques de valor inestimável — foi Walt Whitman quem disse: “não há nada maior nem menor do que um toque”.
Mas a música pode nos tocar através do tempo e do espaço, então essa rede de interlocuções vai bem mais longe. Minha linguagem na guitarra é notavelmente debitária do blues britânico e, em menor intensidade, do blues norte-americano. Estou falando de Eric Clapton, Albert Collins, Albert King, Steve Ray Vaughan. O chamado rock psicodélico também me ofereceu muito material de passarinho, especialmente Jimi Hendrix e David Gilmour, da banda Pink Floyd. Lá no começo, meu contato com o heavy metal me levou à busca pela técnica e pela sonoridade do clássico, do barroco e da música modal popular medieval. Transpus para o violão peças e trechos de peças de Bach, de Pachellbell. O desafio técnico me conduziu ao chorinho, de onde também retirei elementos harmônicos, melódicos e rítmicos. Como eu comecei a tocar aos treze anos, na igreja, a música gospel dos anos 1980 e 1990 — antes da deterioração ocorrida a partir dos anos 2000 — me marcou bastante. Falo de bandas como Resgate, Fruto Sagrado, Oficina G3 e Catedral; e falo caras como o absolutamente extraordinário João Alexandre, o caxiense Naum Esteves, o Matos Nascimento, o Kleber Lucas. Da minha infância me chegam sons muito marcantes, como Dire Straits, The Police, Scorpions, que tocava na radiola de casa. Muitas sonoridades nordestinas, como o “Baiano e os novos caetanos”, Ednardo, Fagner. Bob Dylan, Neil Young, Leonard Cohen são nomes que me inspiraram muito pela força estética de suas propostas, de seus pensamentos e pelo amálgama de sua poesia com a música. E tem muita gente e muita coisa que reverbera na minha música. Zé Ramalho, Zeca Baleiro, Lulu Santos, Cazuza, Frejat, Dominguinhos, Gilberto Gil, Erasmo Dibell, Wilson Zara…
O filósofo Giles Deleuze fala de uma coisa chamada “povoamento por contágio”. Ele tenta descrever com isso um certo tipo de afeto que não leva nem à “reprodução” nem à “influência”, mas a uma coisa mais próxima do endemoninhado gadareno a quem Jesus pergunta: “qual o teu nome?”. Ele responde: “Legião, pois somos muitos”. Penso que essa é a forma como posso responder a essa sua questão, eu não tenho influências — eu sou povoado e contaminado por uma legião de artes e artistas, eu não sou um cão, sou uma matilha, não sou uma abelha, sou um enxame.
- Paulo Rodrigues – O álbum Violão de Veludo ficou primoroso. Você comentou: “A canção Rosas de Perdição é poesia órfica e musicalidade táctil”. Fale um pouco sobre o álbum e sobre a faixa de abertura.
Isaac Souza – Obrigado pelo comentário gentil. Em Violão de Veludo, eu queria fazer um trabalho diferente do que já tinha feito com a banda Casino Quebec. Eu queria fazer uma coisa em que as fronteiras entre artista, poesia e música fossem borradas. As canções são intimistas, têm teor erótico, a maioria delas foi gravada em casa. Há uma nudez naqueles poemas/performances/canções. Rosas da Perdição, a meu ver, é a expressão mais bem acabada dessa proposta naquela pequena coleção. Uma música em que melodia e fala se confundem, em que as imagens sexuais se abrem para o cósmico e o onírico.
- Paulo Rodrigues – Como é o processo criativo do Isaac Souza?
Isaac Souza – Eu não tenho nada como um “processo criativo”, não acho que isso exista. Cada canção, cada poema nasce de uma história, de um caos. Não é um trabalho industrial em que se pode replicar processos para se gerar produtos. A canção, o poema, não nascem assim, porque não são produtos. Arte é acontecimento e o acontecimento é indomável. Como artesãos, nós dominamos técnicas, teorias, formas, tradições. Mas nada disso tem o dínamo, o sémen ou o óvulo da arte. O que eu faço é tocar e rabiscar constantemente, quase todos os dias. Ler, ouvir, assistir, conversar. O que eu faço é me deixar povoar e contaminar por outros e outras, pelo orgânico e pelo inorgânico, por homens, mulheres, bichos e ventanias. Eu faço experimentações, deixo as fricções gerarem faíscas. Eu valorizo a técnica e acredito na eficácia do método, mas apenas como disparadores do inesperado — em matéria de criação, eu só confio no acaso.
- Paulo Rodrigues – Você foi eleito Presidente da Academia Caxiense de Letras para o biênio 26/28. Quais são as expectativas do artista Isaac Souza?
Isaac Souza – Eu amo a Academia Caxiense de Letras. Quando cheguei em Caxias, um rapaz de vinte anos que queria se tornar um intelectual, aquela casa me acolheu. A Biblioteca Gentil Meneses (biblioteca da ACL) era meu refúgio, onde eu podia ler e escrever em paz por longas horas todos os dias. Lá, eu ganhei amigos, ganhei família e ganhei oportunidades de atuar na cena cultural de Caxias de maneira impactante, como autor e organizador de livros, eventos e outros projetos. A Academia Caxiense de Letras é, em boa parte, responsável pelo artista e pelo intelectual que me tornei. Minha expectativa para este mandato é de retribuição. Eu sou um homem grato e apaixonado que quer demonstrar com feitos sua gratidão e amor. E tenho o privilégio de ter comigo um time extraordinário de diretores, quase todos da mais recente dentição da ACL, repletos de ideias e de energia. Será um biênio e tanto.
- Paulo Rodrigues – Quais projetos você pretende implantar na Casa de Coelho Neto?
Isaac Souza – Como eu disse, a biblioteca da ACL é o meu xodó, e eu pretendo ampliá-la e modernizá-la. Temos entre nossos objetivos a instalação de um Museu de Artes Sacras que terá curadoria do confrade João Medeiros e peças doadas pelo confrade Firmino Freitas Filho, oriundas da coleção de seu falecido pai, Firmino Freitas. Falando em modernização, eu planejo transformar o site oficial da ACL em um portal amplo e funcional, com muitas informações, acervos e uma web-radio. Também queremos nos aproximar dos estudantes e criar uma Academia Estudantil de Letras de Caxias. Atuar em várias frentes para transpor as paredes da sede e afetar a sociedade.
- Paulo Rodrigues – Você é um artista que explora múltiplas linguagens. Consegue sempre ampliar a experiencia criativa. Como vai conciliar o artista e o gestor da principal casa do saber de Caxias?
Isaac Souza – Esse é um dilema eterno do artista. Mas eu já lido com isso enquanto músico. Como trabalho no circuito da música local, somos eu e meus parceiros que fazemos todo o trabalho executivo de nossos projetos musicais e eventos. Eu, obviamente, só consigo dar conta porque conto com a ajuda deles. Na Academia dá-se o mesmo. Eu sou o presidente e carrego a responsabilidade da liderança, mas não estou sozinho. Tenho comigo a vice-presidente Erlinda Bittencourt, além dos executivos David Souza, Ricardo Marques, Alzerina Pinho, Elany Morais, Paulo Rodrigues, Jamil Gedeon. A maior parte deles vive ou tem presença constante na cidade. A comissão fiscal é formada por João Medeiros, Firmino Freitas Filho e Aluízio Bittencourt. É uma equipe e tanto. Sem falar que os demais membros são sempre solícitos e dispostos; somos uma casa privilegiada em nossos quadros.
- Paulo Rodrigues – Li a tese que você defendeu no Doutorado na Universidade Federal do Piauí, cujo título é: QUEM QUER SABER DE UM POETA NA IDADE DO ROCK: Juventude e poesia em São Luís na década de 1980. Como foi a confecção da pesquisa? A referida década é importante para poesia contemporânea do Maranhão?
Isaac Souza – Paulo, esse texto carrega uma dose imensa de alegria. Ao contrário do que geralmente dizem os acadêmicos sobre seus trabalhos de pesquisa, ele não foi um “filho que nasceu num parto doloroso”. Ele é uma dança, um canto, um júbilo.
Eu entrei no doutorado com um projeto muito diferente; eu queria escrever sobre o poeta Salgado Maranhão. Mas, é como eu te disse, a escrita não se dobra aos métodos e técnicas de quem escreve — o acontecimento não se dobra. Escrever história é provocar um acontecimento (escrita) a partir de outro (a experiência vivida pelos sujeitos que você narra). Quando você entra em campo, você precisa se deixar guiar pela força dos afetos, pela força do acontecimento — isso é muito mais verdadeiro quando você pesquisa temas ligados a arte e cultura. E quando eu iniciei minha investigação — e o historiador é um detetive que tenta narrar uma cena a partir de vestígios — a trilha que eu segui me desviou da proposta inicial. Em suma, eu me perdi e achei um caminho novo na floresta.
Eu percebi que, na cidade de São Luís, na década de 1980, alguns grupos de jovens utilizaram a poesia para forjar suas subjetividades, para inventar para si um lugar no mundo, para dar sentido às suas existências. E eles fizeram isso não enquanto tentavam se enquadrar nos moldes de uma tradição poética, a poética de um mundo que negavam. Eles fizeram isso forçando os limites da poesia para fazê-la dizer o mundo que ainda não tinha chegado. O grupo do Guarnicê à sua maneira; o grupo dos Párias à maneira dele; jovens que se apropriaram do tempo e do espaço de São Luís por meio da palavra escrita e de uma estética da existência. E surfando essas ondas a linda figura de Celso Borges.
- Paulo Rodrigues – Como você avalia a literatura e a música produzida no Maranhão nesta quadra histórica?
Isaac Souza – Paulo, eu acho que ainda não conseguimos sair da velha contradição: temos criadores de excelência, mas com visibilidade reduzida, tanto dentro quanto fora do estado. No que se refere à poesia, o Maranhão sofre do que sofre o Brasil: a poesia se tornou uma linguagem para iniciados — poetas falam para poetas (se muito). A esse respeito, acho que podemos aprender muito com os poetas dos anos 1980, que foram para as ruas, que romperam com o establishment literário. Pode parecer contraditório que eu fale isso enquanto sou presidente eleito de uma Academia. Mas, enquanto presidente, eu pretendo que a Academia transborde, ultrapasse suas lindas paredes, vaze cidade a fora. E que a cidade a invada e ocupe. Que a academia não seja um clube de exclusivos.
Ao mesmo tempo, eu considero que o atual momento é especial para a produção cultural no Brasil e no Maranhão, momento em que importantes fomentos tem alcançado artistas mambembes como eu e tantos outros. E eu ainda não sei o que vai sair disso, mas eu tenho esperança de que seremos surpreendidos.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.
Isaac Souza – Se você gosta de arte, nunca vote em quem odeia artistas.

COM
POSIÇÕES
DE
ISAAC SOUZA
descaminhos
menina de olhos agrestes
planta mistérios no jardim
as flores dos teus segredos
secretam asas, noites sem fim
dá de beber aos rebanhos
de sonhos — matéria fina
estrelas miúdas na pele
olhos agrestes de menina
catorze versos de tributo
catorze anos de serviço
grande paixão, vida pequena.
teu peito, o ritmo que escuto
teu ventre, vórtice do viço
teus descaminhos de morena.
rosas da perdição
o morno de um segredo em sopro
brisa na tua pele de alecrim
teu músculo jardim viçoso
das flores siderais que eu trago im-
precisas no avesso dessa pele
prata poro de percorrer in-
decisas em um mundo de poemas
e pecado a se perder – dream!
a dardo, a falo, a faca ou a caneta
eu cravo em tua alma o meu calor
de solidão
a solidão de um velho a velejar de outro planeta
a regar nos teus acessos as rosas
da perdição
o fio e os poros
você tem um grito
afiado e poroso
para perturbar vizinhos.
por isso os bichos te amam
quando quebram telhas e silêncios
a despertar os pesadelos nas beliches.
você falou que era
uma vadia com flores nas mãos
mas teu teatro não me assusta.
sou um vagabundo
com a idade dos teus olhos
quando você desdenha da morte no espelho.
você me coa um café forte e quente
como as nossas lembranças mais recentes
e o chico canta uma história de amor
que não acaba bem.
e eu mastigo essa angústia de saber
que a vida não é bastante pra ninguém
e me contento com o fio e os poros
do teu grito, que ninguém mais tem.
balada de saudade em ré maior
meu amor, diga aonde você vai
com esse olhar perdido
com esses pés descalços
com esse amor contido
com esse riso em falso
com esse passo triste
esse grito engasgado
com essa voz molhada
de quem quer chorar
me diz, amor, aonde é que você vai
meu amor, diga onde você está
com seus papéis em branco
com seus lençóis lavados
seu violão em pranto
com o seu café amargo
com suas tranças louras
seu canto machucado
lembranças penduradas
pra o vento levar.
me diz, amor, onde é que você está
meu amor, me diga onde eu nasci
pois já não lembro
nada antes de você
algum lugar vermelho
bem longe daqui
me diz, amor, sem seu amor
de que serve nascer?
meu amor, crava o meu punhal no chão
da sua encruzilhada
do beco onde seu lar fez sombra
da esquina da sua casa
na cama em que o cansaço tomba
no meio do caminho
num lugar de passagem
migalhas pra eu seguir
uma trilha de paixão
crava, amor, o meu punhal no chão
grito mudo
já conversei com o travesseiro
pedi conselho pros lençóis
falei com deus e de joelhos
criei olheiras só pensando em nós
botei perfumes na penteadeira (pra você!)
eu esperei você voltar…
eu te perdi, mas não te esqueço
errei contigo, mas sempre vou te amar
de manhãzinha eu te procuro
e no escuro tento te encontrar
tenho lembranças do teu futuro
menina, eu juro pelo teu olhar
e o mundo sem o teu amor é tão soturno (ai, meu deus!)
eu quero te reconquistar…
escuta então meu grito mudo
que em melodia rasga o peito a te chamar
pela janela do meu quarto
derramei o meu poema
e o vento vai levar
essa saudade, essa paixão,
essa tristeza, esse problema,
essa canção pra te buscar
menina, eu parei no tempo sem você
gaia ciência
não sei onde ela aprendeu a ser tão linda
mas eu gosto especialmente daquele ângulo
que me converte em rio pra escorrer na sua fibra
e assim marcá-la em cada polegada cúbica
não sei se ela escreveu meu nome na calcinha
ou fui eu que a escrevi em corda, couro e música
histórias de bob dylan, frases de michel foucault
ao som de screamin jay urrando “i put a spell on you”.
meu patuá, muiraquitã, minha boneca vodoo.
em nós de sisal
tranças de ternura e furor
o prazer e o castigo
rasgam o véu do amor
a gaia ciência
de um trovador provençal
e uma bruxa geme a sentença
por um feitiço ancestral
ela é um verso de jim morrison
ou é o juízo final
tristão e isolda
eu sempre te procuro até o alcance do meu som
surda, a multidão pisando placas de concreto
não escuta a música dentro da música e o verso dentro do verso
nem o silêncio nas frestas da minha voz
nesse lugar que eu chamo de saudade
eu sempre te procuro além do limiar dos sonhos
quando o calor da manhã me diz que é hora de acordar
e ainda resta qualquer coisa daquela lentidão de magia e morte
e a alma paira fluida no céu de dentro do céu
nesse lugar que eu chamo de saudade
porque o tempo sem você é um espiral
de espera, espera, espera, espera…
e eu salto os galhos das palavras nos poemas
sem saber se um dia essa floresta vai se acabar
porque aqui o espaço até já se quebrou
o chão já se fez pó e o pó
que trago nos meus pés é a trilha
onde desliza a minha insustentável desorientação
nesse lugar que eu chamo de saudade
onde eu escrevo um novo canto sem refrão
pra habitar meus lábios e talvez até te alcançar
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Paulo Rodrigues (entrevistador) é jornalista e poeta maranhense/brasileiro, autor de Moinhos (no prelo), Cordilheira (Patuá, 2025) e do romance O desencanto das águas (2025), entre outros livros.

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