Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Joãozinho Ribeiro, compositor e poeta

JOÃOZINHO RIBEIRO entrevistado por PAULO RODRIGUES

Paulo Rodrigues

Especial para o Sacada Literária

 

JOÃOZINHO RIBEIRO: UM COMPOSITOR QUE INVENTA O FUTURO

Um artista eclético, que amplia o universo da Música Popular do Maranhão.

 

Joãozinho Ribeiro é poeta e compositor, maranhense de São Luís, Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com especialização em Direito Civil e Direito Processual Civil pela Universidade Cândido Mendes (RJ). Titular da cadeira nº 26 da Academia Ludovicense de Letras. Autor dos livros Paisagem feita de tempo e Safra de quarentena; e de mais de uma centena de músicas, gravadas por renomados artistas brasileiros, como Zeca Baleiro, Elba Ramalho, Chico César, Rita Benneditto. Detentor recente dos prêmios Mérito Cultural, pela UFMA (2022); e a medalha comemorativa do bicentenário do poeta Gonçalves Dias (2023), outorgada pela Academia Maranhense de Letras. Em 2024, a Prefeitura de Guimarães lhe conferiu a Comenda Maria Firmina dos Reis; e a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, o reconhecimento pela contribuição à luta pela democracia, direitos humanos e bem viver.

Atuou na gestão cultural em várias esferas administrativas, com destaque para os seguintes cargos:

– Presidente da Fundação Municipal de Cultura de São Luís (1997/1998)

– Secretário de Estado da Cultura do Maranhão (2007/2009)

– Assessor do Ministério da Cultura e Coordenador Executivo da II Conferência Nacional de Cultura (2009 / 2010)

 

Compositor/Poeta Joãozinho Ribeiro

 

  1. Paulo Rodrigues – Joãozinho Ribeiro, Friedrich Nietzsche disse certa vez: “A música produz sentimentos eternos e traz sensações, inclusive alegria e conforto”. É isso mesmo? O filósofo tem razão?

Joãozinho Ribeiro – O grandioso escritor e poeta moçambicano Mia Couto afirma que “todo silêncio é música em estado de gravidez”. Acho que esta zona criativa nunca foi nem será de pleno conforto. Talvez, no sentido do regozijo espiritual, possa até ser. No meu caso, meus versos denunciam os sentimentos e sensações relacionados com a produção criativa musical: “É como se fosse um parto / Realizado no quarto / Da casa do coração”. Os poetas e filósofos têm razão quando afirmam que a vida sem arte (música) seria um erro.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você ainda acredita na frase do pintor italiano Amedeo Modigliani: “o dever do artista é salvar o sonho”?

Joãozinho Ribeiro – Recentemente, desfrutei da agradável leitura da obra do poeta, compositor e escritor mineiro, parceiro do fenomenal Milton Nascimento, Márcio Borges: Os sonhos não envelhecem. Recomendo a leitura, sem moderação…(risos). Continuo acreditando neste título, sentimento traduzido em versos no poema do meu último livro, denominado Utopia da palavra: “Se o sonho não acabou / A meta é seguir em frente / E não culpar o passado / Pela ascensão do presente / Que a invenção do futuro / Registre uma nova patente, / Um sonho que anuncie / Um mundo feito de gente / Com o cara que pretendia / Mudar o mundo de novo / A utopia da palavra / Falada na língua do povo”.

Paisagem feita de tempo (poesia, 2006)
Safra de Quarentena (poesia, 2024)

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os sonhos do poeta e compositor Joãozinho Ribeiro?

Joãozinho Ribeiro Sempre gostei de sonhar os sonhos coletivos, ainda que entenda o processo criativo como uma mistura de solidão e multidão: “O poeta pinta paisagens / De tempos e lugares / Do acontecer solidário / Por vezes solitário, / Por vezes solidão, / Atreve o poema / E pede passagem / Para os seus personagens / No meio da multidão”. Penso em dedicar os anos que ainda tenho para focar no registro da minha produção literária e musical que ainda permanece inédita – uns quatro ou cinco livros de poesia, crônicas e resenhas; e cerca de uma centena de obras lítero-musicais. A busca da paz e a insuportável esperança na ampliação da humanidade do Planeta permanecem como signos de toda uma existência.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você ampliou o universo criativo da música do Maranhão. Como você avalia a música maranhense na atualidade?

Joãozinho Ribeiro – Do ponto de vista da qualidade, da diversidade e da quantidade, bastante rica e renovada. Nossa produção criativa musical nunca produziu tanto como agora, apesar de todas as disposições governamentais em contrário. Que não foram e não estão sendo poucas. Muita gente nova na cena, em todos os gêneros. Criadores da minha geração e das gerações posteriores continuam produzindo muito e bem. O grande gargalo continua sendo a falta de apoio a esta produção, e a supervalorização de artistas “nacionais” em detrimento dos (mal)ditos “locais”, principalmente nos momentos que deveriam servir de vitrine para a nossa produção criativa: Carnaval, São João, aniversários das cidades, réveillon etc.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os compositores que influenciaram o Joãozinho Ribeiro? 

Joãozinho Ribeiro – O leque é imenso! Sou um poeta que faz música, e não o contrário, totalmente descolado de estilos ou formatos! Cresci num ambiente de grande efervescência musical. Meu pai ouvia muito rádio. Ele e minha mãe cantarolavam muito dentro de casa, canções do seu tempo e do dia a dia. Minha irmã mais velha Dra. Graça (respeitada oncologista) participava do Coral da UFMA; meu irmão Sebá, primogênito da família, adquiriu um violão durante a minha adolescência, que compartilhava com nosso primo Adler São Luís (cantor e compositor). O velho casarão da Rua Afonso Pena, onde moramos por muito tempo, abrigava todos os anos uma das maiores “queimações de palhinhas”, que reunia a nata dos músicos instrumentistas da cidade, no dia 2 de fevereiro: Zé Hemetério, Roque, Vital, Zé Banana etc. Na barbearia de Seu Reis, localizada na Travessa da Lapa, reuniam-se diariamente respeitados violonistas da época para compartilhar clássicos de Dilermano, João Pernambuco… Os bares e cabarés do Centro Histórico reproduziam o dia inteiro os sucessos populares das diferentes épocas em suas vitrolas. Acho que os três grandes marcos influenciadores foram: os festivais de músicas nacionais e locais das décadas de 60 e 70, incluindo o promovido pela UFMA em outubro de 1979, em que acabei premiado com o segundo lugar; o LP histórico de Nonato e seu conjunto e o memorável Bandeira de Aço (Papete; vários compositores). Listar todos os compositores que me influenciaram seria uma tarefa muito difícil e complexa, considerando os diferentes processos de produção e movimentos musicais destas épocas, que marcaram profundamente o meu modo de compor.

 

  1. Paulo Rodrigues – Joãozinho Ribeiro, o show “Milhões de Uns” rodou pelas principais capitais do Brasil. Foi muito bem recebido pela crítica musical. É necessário divulgar mais a música do Maranhão?

Joãozinho Ribeiro – O nome já diz tudo, milhões de possibilidades que a música nos proporciona, de forma generosa e solidária – Milhões de Uns! No mercado atual, as dificuldades são imensas! De há muito não temos um programa oficial neste sentido, muito embora os meios tenham se multiplicado enormemente. A programação deveria ser permanente e intersetorial. A Cultura tem de dialogar sempre com a Educação.  A formação cultural abre inúmeras portas e janelas para o que a Humanidade tem de melhor! A divulgação passa por este entendimento de que a cultura é um ativo estratégico para o desenvolvimento do estado do maranhão.

 

 

  1. Paulo Rodrigues – Joãozinho Ribeiro, você faz críticas certeiras nas letras de músicas. Por exemplo, eu lembro do verso: “Essa terra é nossa, é só repartir”. O Brasil precisa fazer a Reforma Agrária? Precisa criar mais justiça social?

Joãozinho Ribeiro – Minhas criações refletem e traduzem o conteúdo de um saco de toda a existência que carrego comigo. A Reforma Agrária continua sendo um imperativo para o combate às desigualdades históricas do nosso país. O MST é um dos movimentos mais legítimos e necessários. Sempre que possível, compartilhamos algumas ações e realizações. A música “Passamento”, doada para o MST, foi originada da minha participação direta num processo de ocupação com arte da Fazenda Capoema, em 1987. Precisamos também de uma Reforma Agrária Cultural, para repartir de forma mais justa os recursos e os espaços da Cultura, proporcionando mais justiça social, em todos os níveis.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do compositor Joãozinho Ribeiro?

Joãozinho Ribeiro – Alguns novos já estão envelhecendo. Seguindo a trilha dos versos do Márcio Borges, de que os sonhos não envelhecem, prossigo semeando uma safra considerável de novas criações musicais, que incluem variadas parcerias locais e nacionais, tendo Zeca Baleiro como um dos parceiros mais constantes, somado a outros nomes, como Paulinho Pedra Azul, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Betto Pereira, Zé Américo Bastos, Gildomar Marinho, Ronald Pinheiro, Aziz Júnior…Uma parceria com uma cantora lusitana, Genoveva Faísca, numa canção que clama por um registro fonográfico urgente. No plano literário, tenho a intenção, que precisa ser acompanhada de gestos concretos, para uma nova publicação do livro Paisagem feita de tempo, que completa 20 anos da primeira edição (2006), completamente esgotada. Devo ter perto de uma centena de resenhas de livros e discos, além de apresentações, prefácios etc. Daria uma boa publicação.

 

Joãozinho Ribeiro, com Rita Benneditto e Zeca Baleiro

 

 

ALGUMAS COMPOSIÇÕES

 

MILHÕES DE UNS

(Joãozinho Ribeiro)

 

A ponte que une dois lados

Separa muitos caminhos

Por cima uns vão pisando

Debaixo outros sozinhos

Calçando os pés com a esperança

Agasalhada no escuro

Entrando na fila imensa

Que espera pelo futuro

 

São Joões, Josés, Manés, Binés…

Sem vintém, sem pão, sem chão…

 

João batalha um trabalho

Antônio recebe um não

Maria confere os filhos

E faz milagre de um pão

Milhões de uns vão vivendo

Debaixo de muitas pontes

Por cima um céu de concreto

Encerra os seus horizontes

 

São Joões, Josés, Manés, Binés…

Sem vintém, sem pão, sem chão…

 

 

 

ERVA SANTA

(Joãozinho Ribeiro)

 

De tanta pirraça

O Santo até se esqueceu

Do santo remédio

Que ele um dia prometeu

 

Pra acabar com o tédio

E as mazelas do pessoal

Bronquite, reumatismo,

Faringite e coisa & tal

 

Santo era um cara engajado

Muito esperto e legal

Vendia mato cheiroso

Lá no Mercado Central

 

Erva-Santa, Erva-Cidreira

Quebra-Pedra e outras besteiras

 

 

 

PASSAMENTO

(Joãozinho Ribeiro)

 

Mané da Roça era um lavrador

Gente do mato, do campo uma flor

Rosa da vida, semente de luz

Fruto da lida que a terra produz

Era Mané, era Pedro, era João

Mandioca, milho, farinha e feijão

Terra lavrada com as mãos de amor

É terra santa, é terra sem senhor

 

Quem não ajunta um dia espalha

Da fartura faz migalha

Desenterra uma mortalha

Desencanta e atrapalha

 

Chega grileiro com arame e capim

Cerca medonha que não tem mais fim

Milho, farinha não mais se produz

Só agonia de choro e de cruz

Mané da Roça não é mais Mané

Doze barrigas e uma mulher

Lavoura em luto, colheita da dor

Morre no campo mais um lavrador

 

Seu doutor,

Me responda, por favor

Se essa toalha molhada,

De tanto lavada

Consegue enxugar tanta dor

Se quando a seca não mata

A chuva arrasa

O que a gente plantou

Se o desengano da vista

De olhar tanta mágoa

Os olhos da vida vazou

 

Canto rebuscado

No canto do coração

Conta pra este povo

Que ainda é seu este chão

Conta pra Firmino, Nonato e Zizi

Que essa terra é nossa

É só repartir

 

 

 

AMOR MAIOR

(Joãozinho Ribeiro)

 

Meu amor

É um tantinho assim

De tudo que há em mim

Querendo ser maior

 

Meu amor

É um querer sem fim

Que sempre diz que sim

Nunca será menor

 

Meu amor

É como se fosse o céu

É como se fosse o sol

A terra e o mar

 

Meu amor

Um oceano de luz

Onde a vida nos traduz

O verbo amar

 

 

AZAR DO ARLEQUIM

(Joãozinho Ribeiro)

 

O toque de um clarim

Diz que sim

A dama no salão

Diz que não

Um passo encabulado

Disfarça a solidão

Desafiando o tom

De um frevo-canção

Aposto que a paixão

Do Arlequim

Em todo carnaval

Chega ao fim

A história recontada

Tragédia de um amor

Vai declarar enfim

Vitória do Pierrô!

Quando o meu bloco

Invadir a cidade

E o meu frevo

Expulsar a saudade

A Colombina que zombava

Do palhaço infeliz

Não terá mais arrego

No meu país

 

 

FORÇA ANCESTRAL

(Joãozinho Ribeiro)

 

Eu sou do samba

Eu sou mulher

E o meu lugar

Vai ser onde eu disser

Seja no palco

Seja no pé

Sigo sambando

Com esperança e muito axé

Saí do coro

Para ascender

Na minha escola

Faço versos pra valer

Na batucada

Sou maioral

Eu sou de luta

E a liberdade

É o meu carnaval

O samba é

Nossa força ancestral

Que alegra a vida

E eleva a moral

O samba tem

Um feitiço sem igual

Ingressou na academia

Ele agora é imortal

 

 

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***

 

Paulo Rodrigues é poeta maranhense/brasileiro, autor de Moinhos (no prelo), Cordilheira (Patuá, 2025) e do romance O desencanto das águas (2025), entre outros livros.