Há mulheres que trazem os livros nos olhos
passam rímel de palavras pelas pestanas
outras trazem o mar no ventre
quando salgam os poemas.
Umas velam a lua sobre o peito
enquanto um rio percorre o seu fluxo
e nas torrentes do inverno
acendem nas mãos o seu lume.
Outras encostam os olhos às paredes da casa
atravessam o cansaço
quando desafiam as suas histórias.
Uma Penélope, uma Beatriz
a Ilha dos Amores que não existe
um sebastião que come tudo
e outro que não regressa.
Há mulheres que de tanto esperarem
jamais vivem.
*
O que fica na memória sãos as árvores
os seus ramos cobrem-se de estrelas
sabem de cor o idioma das estações.
*
A inspiração pode acontecer
num quarto a sós com a literatura
quando as mãos dedilham páginas inteiras
fazem galgar as personagens
para a poesia.
Cansadas de narrativas
é nas imagens poéticas
nos versos
que se excitam
gemem de prazer.

*
Sílvia Mota Lopes é natural de Braga (Portugal). É poeta, pintora, ilustradora e autora de literatura infantojuvenil. Já participou de diversas antologias poéticas e exposições artísticas. É autora dos livros: Alícia no Bosque (2012), Ser dia e Noite Ser (2013), É Aqui Que Ela Mora (2015), Esboço (2017), Dar Corda às Palavras (2018), Passei Como Um Sussurro para que escutasses o Vento (2019), Túnica íntima (2022), Ofício Volátil da memória (2023), Orgânico (2024) e Rostos Inabaláveis (2025).

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