Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Adriana Gama de Araújo, poeta - Foto: divulgação

ADRIANA GAMA DE ARAÚJO entrevistada por PAULO RODRIGUES

Na intensidade de um ser estranho, Adriana Gama de Araújo, 2025

 

“O legal é saber que mesmo quando passamos muito tempo sem o ímpeto da escrita, a poesia não nos abandona. Acredito que o processo criativo também se faz presente nesses momentos, porque não deixamos de ler e é a leitura que mantém a porta sempre aberta.”

[Adriana Gama de Araújo]

 

 

  ADRIANA GAMA DE ARAÚJO – Natural de São Luís do Maranhão. Poeta, editora e historiadora, possui Graduação em História pela Universidade Estadual do Maranhão – UEMA (2004) e Mestrado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN (2011). Atualmente é professora de História – Secretaria Municipal de Educação de São Luís (SEMED) e da Secretaria Estadual de Educação do Maranhão (SEDUC-MA) Tem experiência nas áreas de História do Brasil e Literatura, atuando principalmente nos seguintes temas: Cidade, Brasil Republicano e Espaço Literário no Maranhão. Co-editora na Olho Dágua Edições. É autora dos livros de poemas: Mural de Nuvens para Dias de Chuva (2018); TRaNSiTo (2019); Metábole (2021) e Na Intimidade de Um Ser Estranho (2024).

 

 

  1. Paulo Rodrigues – Adriana Gama, Fernando Pessoa escreveu: “A literatura, como toda arte, é uma confissão de que a vida não basta”. É isso mesmo? Você concorda com o autor de Mensagem?

Adriana Gama – Acredito que a literatura, assim como toda criação artística é um posicionamento diante do mundo. Um posicionamento a partir do real que é extremamente cru e certeiro. Nascemos, temos um corpo que é frágil, um caminho e a certeza do fim (que é inevitável). O que fazer durante a jornada? Criar possibilidades e estratégias através das quais dizemos NÃO a essa “imposição” de finitude. A arte é nossa revolução. Fernando Pessoa viveu e vive cada vez mais através de seus textos, sua poesia, suas ideias; assim como tantas outras e tantos outros artistas e poetas. Quando escrevemos um texto, seja um poema, uma prosa ou mesmo uma pintura, uma fotografia, uma canção…, criamos uma possibilidade de diálogo que pode se estender num tempo infinito até que a última leitora e leitor deixem de existir. Essa é a grande “mensagem” da arte.

 

  1. Paulo Rodrigues – O Ferreira Gullar repetia de outra forma: “A arte existe porque a vida não basta”. A literatura na América Latina continua se espelhando nos autores europeus? Ou a realidade contemporânea é outra?

Adriana Gama – De algum modo, artistas no mundo inteiro, em todos os tempos, elaboraram ou elaboram sua versão para a ideia da imprescindibilidade da arte. O trânsito de artistas e intelectuais latino-americanos pela Europa  –  seja pelo desejo de viver em grandes centros literários e culturais como França e Espanha ou mesmo pela necessidade de encontrar abrigo em momentos de instabilidade política, principalmente, em meados do século XX, quando as ditaduras exilaram nomes importantes como Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa –  aproximou-os de ideias e estéticas que influenciaram suas escritas, contudo, também gerou um movimento de olhar para si e às questões que afligiam sua terra, ou seja, sua identidade política e cultural. Obras seminais da literatura latino-americana e para a compreensão do que é a América Latina surgiram desse movimento. Acredito que a realidade contemporânea não deixa dúvidas sobre a originalidade e importância de nossos autores e autoras para a literatura mundial.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você tem formação em História. O José Saramago afirmou: “Parece legítimo dizer que a História se apresenta como parente próxima da ficção”. Há esse diálogo realmente? Como você observa essa questão? 

Adriana Gama – História e ficção são construções discursivas, e, embora seus alicerces de sustentação sejam diferentes, não há como não considerar sua proximidade. Sou professora e sempre que estudo a Grécia Antiga com os alunos, começamos com os poemas de Homero. Homero é poeta. A Ilíada é um texto poético maravilhoso, mas também um registro histórico fundamental para se pensar aquele período. Trago esse exemplo porque a História se ocupa com o passado e o reconstrói com base em evidências, fontes e, não menos importante, um encadeamento narrativo, uma argumentação que sustente uma verdade sobre esse passado. A credibilidade da história narrada também está ligada a capacidade do historiador (e sua intimidade com a linguagem) para contar ou recontar os fatos. Estou tentando dizer que Heródoto, Tucídides, na Antiguidade, ou qualquer outro historiador de qualquer época histórica, se preocupam com construção do texto e esse cuidado é literário porque o que o historiador faz é reconstruir um passado, reconstrói a partir de sua experiência de leitura e isso tem um forte viés ficcional.  A força da narrativa da Guerra de Tróia por Homero e a força das narrativas da ciência histórica vêm do mesmo lugar: realidade, linguagem e imaginação.

 

Metábole (2021), Adriana Gama de Araújo
  1. Paulo Rodrigues – Qual é o lugar da poesia na vida da poeta Adriana Gama? O que é ser poeta, nesta quadra histórica?

Adriana Gama – Não é fácil racionalizar sobre isso para dar uma resposta. Penso que a poesia, na minha vida, esteja ligada à necessidade de criar uma heterotopia, um lugar onde eu pudesse existir com meus sentimentos e inquietações. Escrever era e é um exercício “tranquilizador”, de percepção e compreensão das coisas. Desde muito cedo, aprendi a me inquietar com as palavras, com sua beleza, o que significavam, quantos significados poderiam ter… Sou boa ouvinte e uma leitora esforçada. Então, a poesia, para mim, está nessa dimensão subterrânea das coisas, aquilo que está sob a poeira do cotidiano, do comum. Fico atenta a esse brilho que surge quando poesia sopra e algo novo é revelado bem diante do nosso nariz. Acho massa! Fico eufórica. Isso traz esperança e alegria porque é a possibilidade de algo novo e uma mudança de rota. E isso pode acontecer a qualquer hora e em qualquer lugar, não somente quando estamos diante de um poema ou uma obra de arte. Talvez ser poeta seja conseguir ver essa luz. A gente precisa cultivar um silêncio dentro do peito e da cabeça para conseguir “verouvir” a poesia. Está cada vez mais difícil com as velhas e novas ameaças que o planeta e humanidade vêm sofrendo, contudo, precisamos resistir e não desistir da poesia e da luta.

 

  1. Paulo Rodrigues – Como funciona o seu processo criativo? Tem rotina e disciplina na escrita?

Adriana Gama – Acho que rotina e disciplina são coisas ligadas às exigências da sobrevivência neste mundo. A criação existe fora dos muros, sejam eles quais forem. O tempo é o pior deles. Por isso, para mim, não é nada fácil escrever. Ainda assim, a gente encontra brechas, elabora estratégias, desvios e consegue fazer as leituras que podem se apresentar como um novo poema. Quando sou envolvida por uma ideia e começo a buscar textos que me levam numa direção específica, a escrita flui e surgem alguns textos que podem se transformar num livro ou não. O legal é saber que mesmo quando passamos muito tempo sem o ímpeto da escrita, a poesia não nos abandona. Acredito que o processo criativo também se faz presente nesses momentos, porque não deixamos de ler e é a leitura que mantém a porta sempre aberta.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os autores que você destacaria na poesia contemporânea brasileira?

Adriana Gama – Tenho a sorte e o privilégio de conhecer pessoalmente e conviver com boa parte dos poetas que leio e admiro. Nomes como Lúcia Santos, Franck Santos, Fernando Abreu, Eduardo Júlio, Luís Inácio, Félix Alberto, Celso Borges, Lindevânia Martins, Neurivan Sousa, Josoaldo Lima Rêgo, Jorgeana Braga, Antônio Aílton, Eldimir, Samuel Marinho, Samarone Marinho, Carvalho Júnior, Luiza Cantanhêde, Luís Lima e tantos outros, estão na minha mesa de cabeceira sempre. O Brasil vive um momento especial em sua produção poética, muita gente boa escrevendo e publicando. Acho que isso também é um sintoma desses tempos tão terríveis que temos vivido. A poesia abre caminhos de iluminação contra o obscurantismo. Também tenho lido muita coisa nova da Adélia Prado e relido outras que têm se apresentado como instigantes redescobertas. Estou feliz com isso. Ah… Não posso deixar de destacar Carlos Drummond de Andrade que mora no meu coração e é atualíssimo.

Mural de nuvens para dias de chuva (2018), Adriana Gama de Araújo
  1. Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o livro “Mural de nuvens para dias de chuva”.

Adriana Gama – Em 2017, participei do III Festival Poeme-se de Poesia Falada, organizado pelo sebo e livraria Poeme-se, e tive a alegria de ganhar o primeiro lugar com o poema Confissão. Isso trouxe muitas oportunidades e uma confiança naquilo que eu escrevia que eu nunca havia me permitido sentir até aquele momento. O Mural de Nuvens para Dias de Chuva surge nesse contexto. Eu tinha um blog, o Polenradioativo, desde 2010, no qual publicava meus textos e trocava ideias com poetas do Brasil inteiro. Era massa! Meu horizonte de leituras se ampliou de maneira muito significativa nessa época, mas publicar um livro nunca passou pela minha cabeça, era algo inimaginável. Publicar um livro era coisa de poeta e eu nunca ousei pensar ou dizer que era. Mas depois do festival, tive a oportunidade de conversar com os poetas que eu lia, além de conhecer muitas outras pessoas ligadas à cena literária de São Luís. O Mural é o conjunto desses textos que eu publiquei no blog. São poemas que falam de amor, solidão e sobre o tempo. É um livro muito especial para mim, trouxe para perto pessoas que são fundamentais na minha vida. Duas dessas pessoas estão diretamente ligadas à publicação do livro. O poeta Franck Santos que me apresentou aos editores da Penalux, que era a casa editorial pela qual ele publicava na época, e o poeta Fernando Abreu que me ajudou a selecionar os poemas para o livro e escreveu um prefácio lindo. Dois poetas extremamente generosos e que, hoje, são amigos muito queridos.

 

  1. Paulo Rodrigues – E o livro Na intimidade de um ser estranho? A editora Mondru tem um trabalho gráfico primoroso. É a sua nova casa editorial?

Adriana Gama – Na Intimidade de um Ser Estranho  é meu quarto livro de poemas e a responsável pelo projeto gráfico é a Gabriele Oliveira, uma profissional de uma sensibilidade incrível. Estou muito feliz com o que ela fez a partir das nossas conversas sobre como eu pensava e via o livro. É minha primeira experiência com a Mondru e o meu contato com a editora se deu a partir do interesse que tive ao ver o trabalho que fizeram com os livros do poeta Eldimir.

 

  1. Paulo Rodrigues – O poeta Neurivan Sousa comentou: “Na intimidade de um ser estranho tem poesia de um refinamento que espanta e arrebata”. Como você definiria a sua poesia, Adriana? 

Adriana Gama – Tenho grande admiração pelo poeta Neurivan Sousa e fico feliz com o comentário sobre o livro. Não sei se conseguiria definir minha poesia. Acho que seria uma tarefa inglória e impossível, não conseguiria nada além de dar voltas e voltas tentando explicar. Contudo, sei que, para mim, é uma aventura. Uma “descoberta de coisas que nunca vi”, como já disse Oswald de Andrade num de meus poemas favoritos: 3 de maio. E o que eu escrevo, hoje, traz um amadurecimento cada vez maior sobre esse jogo (e essa responsabilidade) com os significados e os universos construídos a partir da leitura do mundo e da palavra. Tenho tido mais consciência e mais tranquilidade com o que chamo de minha arquitetura poética.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos poéticos da poeta? 

Adriana Gama – Por enquanto é curtir o Na Intimidade de um Ser Estranho que acabou de sair pela Editora Mondru, fazer a poesia circular e tentar, também, colocar em dia a leitura de alguns livros que a rotina de trabalho não tem deixado. Faço parte de um grupo de leitura de poesia chamado REVERSO que faz reuniões mensais e nos debruçamos sobre a vida e a obra de uma poeta ou um poeta diferente a cada mês. Tem sido uma experiência maravilhosa, principalmente porque o grupo é formado por poetas e por pessoas que entendem a poesia como fundamental para uma existência humana. É um exercício de escuta e de leitura. Lemos, conversamos, aprendemos e estamos sempre esperando que novos participantes apareçam para enriquecer ainda mais essa experiência.

 

  1. Paulo Rodrigues – Finalizando, deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

Adriana Gama – Poesia é, antes de tudo, um compromisso com a liberdade. Precisamos exercitá-la, defendê-la. Como? Fazendo de nossa prática cotidiana uma busca por essa liberdade que tão facilmente se perde com as imposições de consumo e sobrevivência. A liberdade de ver além, de inventar, de se maravilhar com o novo. Poesia é liberdade, principalmente, contra as garras da tecnocracia e da resignação diante da miséria humana. Acredito firmemente nisso. A poesia abre o peito para respirarmos mais e melhor. Leiam poemas e sejam livres!

 

 

    TRaNSiTo, 2019 – Adriana Gama de      Araújo

 

Poemas

de

Adriana Gama de Araújo

 

 

tempo

 

a noite nunca se deitou sobre aquele lago

a eternidade: uma deformação da existência

e ainda estou lá com minhas raízes entre os pássaros.

                                                   

(Mural de nuvens para dias de chuva, 2018)

 

 

ausência

 

a ausência não tem vocação para relógio

é um algo mais delicado que envolve os corpos

vivos ou inanimados

na lastimável compreensão das horas

 

um lençol cobrindo os móveis da sala

impondo o estático

impedindo o sujo e os rasgos

do tempo que não deve ser gasto

 

– a ausência é o destino com os dois pés quebrados –

 

é a fé sem oração

toda palavra em vão

é um poço sem água

nada se move, evapora ou passa

tudo demora infinitamente

debaixo da dor que te esmaga.

 

(Mural de nuvens para dias de chuva, 2018)

 

 

poema n.1

 

     Sabes Ana? Já o sabes?

                   Kurt Schwitters

 

o tremor, a hesitação

sobretudo, a insistência

 

a vida inteira escrevo

o mesmo poema

com os ruídos e silêncios

de uma floresta noturna

 

a palma da minha mão é suja

meu corpo tem a altura do chão

um salão iluminado alegra

uma balada triste

deixe que teus olhos me vejam

na cidade dos edifícios.

                                     

(TRaNSiTo, 2019)

 

 

manhãs de domingo

 

certas manhãs de domingo

são tão verdes que poderíamos

comê-las com sal

nascem dentro da barriga

e fazem um barulho de fome

em manhãs de domingo

saudades crescem como plantas

fazem de toda lâmpada

um raio solar

são manhãs alargadas

cabem no resmungo das portas

no descanso de mãe

no fio da espada

manhãs de domingo se arrastam

enquanto são jorge põe fogo

na lua.

                                   

(TRaNSiTo, 2019)

 

 

poema para vigília

 

no pedaço de noite

em que dormes

abraçado à fantasia

de um mundo tranquilo

ninguém pula de viadutos

 

na ursa maior brilha

o céu profundo do hemisfério

em que transito

e a palavra pendura no varal

pontos de luz

 

dedos entre cabelos revelam

minha compreensão

da existência sublime e finita.  

 

(TRaNSiTo, 2019)

 

 

pequena viagem ao paraíso

 

há quatro anos mudei

para o lado da ilha

que fica perto do mar

eu não sabia, mas

por causa do ângulo

de inclinação das mãos

ao nos despedirmos

saberemos que será

impossível voltar atrás

e dizer adeus

é uma pequena viagem ao paraíso.

                                      

(Metábole, 2021)

 

 

sob a língua

 

no meio da tarde úmida

escrever a palavra onde tudo cabe

a política dos segundos

a dança do mundo

a memória de enamorados

que antes

nem se sabiam

 

— salivar a folha, suas estrias.

                                      

(Metábole, 2021)

 

tentativa de explicação

 

o amor apagado pelo dia

de noite acende

não como estrelas no céu

 

como a lâmpada incandescente

do abajur da mesa de livros

tão perto, tão quente

que se lhe ponho o dedo

queima.

                                    

(Metábole, 2021)

 

ABISMAR (primeiro movimento)

 

ou

 

explodir todas as coisas

abrir os olhos e

dizer o mundo

desde o começo

 

outra vez

                         

(Na Intimidade de um Ser Estranho, 2024)

 

 

CAMINHAR (segundo movimento)

 

seguindo a poesia

e

por itinerários diferentes

chegar àquele mesmo lugar

sem nada repetir

 

desafiar o fabuloso deserto

com palavras cheias de terra

criar um caminho sempre aberto

de sol e nervos

 

que talento

 

mudar a direção

para surpreender o sorriso

– sua nascente

esticar o corpo além da alma

para caber as palavras

suas espadas

sem precisar ou explicar

o deslocamento

 

(Na Intimidade de um Ser Estranho, 2024)

 

 

 *

 

 

PAULO RODRIGUES, o entrevistador, é poeta e jornalista, autor de Cordilheira (Patuá, 2024), entre outros livros importantes e premiados.