“Escrever é exercitar o ego, escrever para ser lido é egoísmo. Todo escritor é um Narciso, e é preciso despir-se disso para escrever boa literatura.”
[Júlio César]
*
Júlio César nasceu em São Luís do Maranhão, em 5 de janeiro de 2004, trabalha como jornalista, assessor e revisor de obras. Seus dois livros de poesia são Quando as Baleias Choravam (2022) e Grandes Tragédias (2023), com os quais conquistou o Prêmio Volts de Literatura e o Prêmio de Melhor livro de Poesia 2024 – pela AML –, respectivamente.
*
- Paulo Rodrigues – Júlio César, o poeta Affonso Romano de Sant’Anna afirmava: “O escritor é um sujeito que tem a palavra como casa e como labirinto”. Ele tinha razão? O escritor mora nas palavras?
Júlio César – Acredito que o escritor não esteja nas palavras, mas, sim, na vida, na realidade e nas relações. Escrever é complicado quando não vivemos e não tentamos olhar o mundo por outros ângulos, o que faz com que se torne um labirinto. Quando vivemos, temos dentro de nós todo o material que será registrado no papel, só basta encontrá-lo, geralmente passa despercebido como uma formiga em uma parede qualquer.
- Paulo Rodrigues – Qual é a sua relação com a poesia? Escreve por hábito? Ou tem um projeto literário para ser executado?
Júlio César – Eu penso em poesia todos os dias, mas acho que conseguiria viver sem ela. Antes, escrevia para ser qualquer coisa parecida com aqueles grandes autores que estudamos na escola. Depois, escrevia porque gostava de ser lido e assim passei alguns anos. Hoje, não escrevo quase nada e fico observando a vida, motivadora de palavras. Às vezes penso em versos que acho lindos, mas tenho tido a impressão de que alguma coisa se perde quando os registramos no papel… fico um tempo pensando, me distraio e depois esqueço. Se recordá-los, talvez valha a pena anotar. Nos últimos tempos, tenho pensado que o melhor exercício de escrita é a não escrita. Escrever é exercitar o ego, escrever para ser lido é egoísmo. Todo escritor é um Narciso, e é preciso despir-se disso para escrever boa literatura.
- Paulo Rodrigues – Júlio, como o jornalismo dialoga com a poesia? Escrever reportagens ajuda o poeta a ampliar o olhar sobre a realidade humana?
Júlio César – Eu escolhi cursar Jornalismo exatamente por isso, pois acredito que para escrever boa literatura é preciso conhecer o maior número de realidades possível. São campos que se complementam e interagem mutuamente.
- Paulo Rodrigues – A literatura é uma necessidade humana? Quais são os autores que acompanham o poeta Júlio César?
Júlio César – Expressar-se, de qualquer modo, é uma necessidade humana. Prosa e poesia foram formas que encontramos para falar sobre tópicos que achamos relevantes e que nos emocionassem de alguma maneira.
Sobre os autores que me acompanham, existem alguns. Na literatura, Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Victor Hugo, Liev Tolstoi, Wislawa Szymborska, e alguns mais. No cinema, Glauber Rocha e Jean-Luc Godard. São os que lembro no momento, mas a verdade é que eu não leio tanto, nos últimos anos tenho tido mais dificuldade para me concentrar em leituras. Por também trabalhar com revisão de livros de literatura, acabo lendo na maioria das vezes por obrigação.
Apesar disso, vez ou outra uma leitura consegue me prender.
- Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o livro Quando as Baleias Choravam, que você lançou pela editora Folheando do Pará.
Júlio César – Foi o meu primeiro livro de poesia, publicado em 2022, quando tinha 18 anos. A obra reúne poemas escritos a partir de 2020 que falam sobre saudade, luto, esperança e reflete muito da minha vontade de começar a trabalhar com as palavras. Destaco que a editora Folhando foi essencial para esse início; é uma casa muito acolhedora que ainda está se firmando no mercado editorial nacional, mas que também já publicou outros maranhenses de maneira gratuita.
Sobre o livro… eu particularmente não gosto tanto dele, só salvo alguns poemas, mas acredito que fiz um bom trabalho para a época, e serviu de porta de entrada para outras produções.
- Paulo Rodrigues – Já o livro Grandes tragédias foi escolhido como Livro do Ano pela Academia Maranhense de Letras em 2024. Como foi a cerimônia de premiação? As honrarias são importantes?
Júlio César – Grandes Tragédias é uma obra dividida em cinco atos, publicada em 2023 também pela Folheando. O exercício que fiz para saber se, de fato, os poemas me agradavam foi pensar: “Se meu livro tivesse somente este poema, e com ele eu precisasse dizer tudo o que eu sinto e penso, eu estaria satisfeito?”. E assim fui escrevendo.
A cerimônia de premiação foi ótima, minha família e amigos estiveram presentes, então eu não poderia dizer outra coisa. Fiquei muito feliz por receber o prêmio pelas mãos de Laura Amélia, que é uma pessoa que eu gosto tanto, sempre muito doce, simpática e acolhedora.
As honrarias são importantes, pois servem como um reconhecimento pelo esforço desempenhado em uma produção. Porém, não significam muito. Acho que a satisfação maior é viver e escrever. Os prêmios vão empoeirando na prateleira, a vida e as palavras seguem se renovando.
- Paulo Rodrigues – É difícil construir uma voz literária, num meio que é elitista desde sempre?
Júlio César – É difícil publicar, ainda mais estando no Maranhão. Porém, autores contemporâneos, principalmente do Pará, vêm mostrando a possibilidade de construirmos uma literatura que fuja desse elitismo ao qual nos referimos. Destaco Marcos Samuel Costa e Monique Malcher.
- Paulo Rodrigues – Você se considera parte da literatura contemporânea produzida no Brasil? Como analisa a literatura contemporânea do Maranhão?
Júlio César – Não, nem mesmo do Maranhão; só escrevo algumas coisas das quais gosto e é isso, não acredito fazer parte de qualquer coisa.
A literatura contemporânea representa novos autores escrevendo “coisas novas” ou seriam “coisas novas” escritas por autores antigos? Talvez um pouco dos dois (haha). Porém, acredito que para, de fato, haver uma nova literatura maranhense, a qual definimos como contemporânea, é preciso haver algum tipo de avanço. Mas avanço com relação a quê? Se quando falamos da produção literária no Maranhão sempre nos referimos a nomes do passado? Para os outros estados, talvez ainda sejamos o Maranhão de Gonçalves Dias, Ferreira Gullar e Josué Montello. A poesia brasileira segue buscando razões para existir, diferentemente da prosa, como disse Sérgio Buarque de Holanda. Quando rompermos com os fantasmas do passado, e projetarmos isso para fora do estado, aí sim poderemos considerar uma contemporânea literatura maranhense, sabendo que esta estará criando algo de novo, indo para algum outro lugar inexplorado. Enquanto isso, seguimos afagando nosso Narciso, produzindo textos e obras que duram pouco mais de um piscar de olhos e caem no esquecimento. Enchemos bibliotecas, mas produzimos pouco. E eu me enquadro neste cenário.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores, poeta.
Júlio César – A poesia não leva a lugar nenhum. Mas é tão bonita! Gosto de poesia porque ela transforma em outro o lugar do qual nunca saímos.

Poemas
de
Júlio César
Triunfo
O futuro se estende à frente,
nessa noite de mil sonhos,
nesse beijo de mil dias
Caminho sozinho
Azul pela avenida
Golfinhos aparecem no mar e me assustam
em uma voraz coreografia
Casais se beijam
Crianças correm
Cachorros latem verbos que se extinguiram
Há muito tempo não te escrevo em francês
Je t’aime. J’ai besoin de parler
Com que palavras te direi que tenho medo
e que nunca sei dizer o que preciso dizer?
Je t’aime. J’ai besoin de parler.
Júlio na floresta densa
Estou sempre pensando em poesia,
por isso perco as coisas de vista.
Ainda estou te procurando
Para Isabela Carvalho
Morreu ano passado
Sim, tudo piorou depois que ela partiu
A gente recolhe os caquinhos aos poucos, né?
Tem dia que dói demais
Ela era muito especial para mim
Ela é… continua sendo
De longe, de perto, de lado, de cima e de baixo,
uma das melhores pessoas que eu tive na minha vida
Ando sumida
Já não moro mais ali
A ausência é tão estranha
Saber que um dia a gente se acostuma
é ainda mais
Com o tempo vai passando
Mas acho que isso
não passa jamais.
A ponte e a distância
Para Sabrina Oliveira
Estou tentando abrir os olhos. Não no sentido mulher esperta, malandra, sagaz. Quero abrir os olhos porque acho que vejo muito pouco. Já pensou sobre a coisa do campo de visão? Só se vê o que acontece à frente e um pouco no periférico. E tudo o que acontece e sabemos é metade do que acontece e não sabemos.
Estou meio mal, Sabrina… Essa coisa do amor é de deixar a gente em frangalhos. Procurei palavras para dizer o que sinto e acabei dizendo o que não sinto. Acabei dizendo “te amo”, acabei mentindo de novo e acabei não acabando. Meu novelo de lã me prendeu, mas eu não me entrego.
Achei uma aliança perdida. Quem a perdeu, será que a perdeu? Acho que a metamorfose é por aí, né? Um dia a gente acorda e quer ser outra. Assim sem aviso, sem jeito e sem destino. Mas, no final, eu gosto das metamorfoses, dão vontade de viver.
Sabrina, eu acho… Sabrina, eu acredito… que o objeto amado seja talvez o que nos induziu a cleptomania, o que capturamos e demos um nome, o que guardamos debaixo da cama em um baú de sete chaves secretas, no quarto dessa quimera de veneno e de ciúme.
O amor é a ponte, ou é a distância?
Ou a gente que da gente se distancia?
É amar Ana?
Amar Clarice?
Amar Sofia?
Amar, apenas amar, para sempre amar,
como uma luz que vai cortando a escuridão?
Escrevi em verso sem perceber, e amar talvez seja isso:
um descuido de quem não resiste às forças do coração.
Todos os poemas do mundo
Todos os poemas já foram escritos
E todas as mulheres também já foram amadas
Muitos lugares visitados
As casas tão habitadas
Praias da infância tão vastas
Afundaram
Todas as músicas já foram cantadas
E o futuro se desvenda ainda mais
Nos jornais a guerra ganhou uma atmosfera
de desfecho de jogo de futebol,
cheirando a sal e paiol,
banhado de cinza e de bruma,
vermelho, vazio, e escuma,
vinho tinto inundando meu sangue
Nos beijos os dentes se rangem,
se chocam, conflitam, se comem
Todas as bocas calaram
Todos os copos secaram
Todos os nós se rasgaram
Todos os sorrisos somem
Há vinte séculos está perdido um pedido de perdão
Daqui a mais vinte começamos tudo de novo,
com mais energia, mais vigor, mais sorte,
mais amor, mais ternura, muito mais disposição
Todos os poemas já foram escritos
Todas as mulheres já foram amadas
Mas este é meu poema
Mas este é meu amor
Aqui e agora e escrevendo e amando
São meus e ninguém me tira
Ninguém me tira jamais.
Encontro
Te esperei por duas horas
Você não veio.
Ondas de plástico
Não vou deixar guardado,
porque nada espera,
porque nenhuma fresta se abre
Somente
na hora do ato
Que é o ato?
Refaço teu rosto com ondas de plástico
E soletro três milhões de vezes o mesmo amor
Aposto tudo em uma corrida de automóveis de papel
que queimaram
Me reduzo a fotos avulsas
Uma câmera de 2002 nunca mais funcionou
Nela está o filme das nossas vidas
Nem sequer sabemos
Mas este momento de agora
vale muito mais que um filme,
vale muito mais que um tempo
Está comigo e vale muito mais.
Vão abraçar o mundo
Rosa,
tá lembrada de quando painho era vivo
e nos levava todo dia de sábado à praia?
Que a gente dormia no burburinho do transporte
e acordava de cara para o céu laranja,
e sempre sem chinelos,
– que ele dizia que praia é lugar sagrado e não pode ir calçado –
Que a gente não via a hora de mergulhar naquele marzão de cajuína
que se revelava lá longe e salgava a pele morena da juventude
Como que querendo dizer que
felicidade é um dia qualquer num sorriso de criança.
Nessa altura dos cabelos brancos,
esta herança que a família traz,
o vigor dantes era lembrança
Não era mais “corre, filhoca”
Mas “espera este teu pai, ó meu amor”
Mãozinha nas costas, chapéu, camisa branca de botões
Não perdia o jeito de sempre
Você acha que a gente enfastia ao envelhecer?
Trejeitos de adulto caduco
entrando pelas rachadurinhas que o tempo fez
Às vezes, não quero acreditar e lembro de nosso pai
Tarde, cedo, antes, nunca. O mesmo homem que sempre fora
O mesmo brilho dos cabelos brancos
Felicidade será que machuca?
Pegava a gente no colo e dizia os segredos das Espanhas,
depois apontava em direção ao mar,
dava dois tapinhas nas costas e dizia
“Vão abraçar o mundo, minhas morenas tropicanas”
E começava o sonzinho que tocava dentro do coração.
Cinema em Fukushima
As japonesas dançam sobre saltos exorbitantes
E balançam seus vestidos do tamanho do vento
Flautas iluminam a noite de Fukushima
Um homem fuma alegremente
Os tambores pegam fogo
A classe operária dá cambalhotas e encena a morte
Cortes cada vez mais rápidos da cinegrafista francesa
Tanta franqueza em seus olhos de onda
Deito minha cabeça no travesseiro
Shonagon inventou o japonês
e eu reinvento o brasileiro
Janeiro nunca mais foi o mesmo
Plongée, meu bem, a visão que quero ter de ti esta noite
Ela me olha e sorri
Os quartos se enchem de nuvens
E lá em cima outras vigiam as pessoas sob o céu anil
de Fukushima
Céu azul como teus olhos,
repleto de novas manhãs.
Ferrovia rio grande
Escrevo-te embriagado por sobre os trilhos
E essa é minha maior sinceridade
Durante uma noite inteira,
faço e refaço esta carta
com letras acanhadas
Você tão longe
Mas somente num instante
percorremos juntos esse susto
Que tragédia seria morrer agora,
logo quando a culpa perde a força,
quando o medo e o desejo somem,
restando só essa mistura indistinta
de curiosidade
Só te escrevo no fim do mundo
Por isso brigamos de novo
Por isso gosto tanto do teu jeito
E por isso nos consolamos
Que emoção
Cada vez mais perto
Mais perto
Mais perto
Mais perto
De repente para
Um silêncio consome as sombras
Um rápido clarão
Claro. Mais claro do que a aurora
inunda a noite inteira
E a linha do trem corta o meu coração…

*
PAULO RODRIGUES, o entrevistador, é poeta e jornalista, autor de Cordilheira (Patuá, 2024), entre outros livros importantes e premiados.

Você pode ter perdido
NUNO RAU: Um poema é um ato de pensamento imbricado em reservas de sensibilidade
CONCURSO DE POESIA FERREIRA GULLAR – ALTO ALEGRE DO PINDARÉ/MA
A ONIPRESENÇA DE VIRIATO GASPAR