PELO CÉU DE MINHAS ENTRANHAS
sempre quis voar além do meu calcanhar
senão para dentro de mim mesmo
aprofundar-me o mais distante
possível do meu próprio eu
e lá dentro de mim
desbravar as mais ínfimas artérias
pelo céu de minhas entranhas
no ermo da caverna
corre em mim o sangue das quimeras
não tenho asas tenho sonhos
que me levam as mais longínquas alturas
eu em mim sou um mundo dentro do mundo
sou tão profundo que meu olhar mais raso
enxerga a eternidade
COTIDIANO
chego em casa
sempre depois da meia noite
no sofá em frente à TV
a mulher cochila e ronca
o gato se espreguiça
e volta a dormir
só o cachorro
me sorri
e só então me sinto acolhido
repatriado entre os meus
sob o mesmo teto
onde sempre regresso
estrangeiro
FORA DOS TRILHOS
um peso na existência
um punhal nas entranhas
no bolso um vale transporte
e alguns trocados para o lanche
mas é dentro da alma
que a vida escorre
lá fora
a vida evapora
a ferrugem engole o trem
fora dos trilhos
e um funeral de grilo
atiça a carniça
serve de banquete aos urubus
o grito perde a língua
o que se ouve é silêncio
uma trilha sonora
cantada em libras
AMPULHETA
sinto a vida me escapando
por entre os dedos
uma chaga
tem posto em perigo
minha lavra
o tempo não para
apesar do engarrafamento global
e dos agrotóxicos em demasia
há um gafanhoto
roendo as pálpebras dos meus dias
IMORTALIDADE INCRIADA
Para um ilustre itabirano
e agora Carlos?
pedras não há mais
porém sete faces tem o caminho
quem de nós conhece
a língua dos labirintos?
o caso corre em segredo de poesia
arrastado pelo bonde
e suas inúmeras pernas
coloridas pela primavera
desbotadas com o outono
o mundo é vasto
não cabe no mundo
deixa o poeta atônito
o verso branco
e a solução vai ficando sem rima
e agora Drummond?
em cheque todas as virtudes
não há patriotismo sem ritmo
ambos se fecham na solidão dos bares
e não mais se deslizam nas ironias
sobre tudo confundidas
com a eternidade das coisas findas
não há morte para quem rompe o infinito
a imortalidade incriada
soma-se a glória emergida do limbo
a ausência é só um quadro na parede
emoldurando as mais claras abstrações
deixando o poeta fechado
na tela entreaberta
eu não devia te dizer
mas entre poetas não há segredos
dá cá o ouvido
ouve o grito do meu silêncio
ele não dói

*
Carlos Vinhorth (Carlos Denilson Tomé Cunha). É natural de Santa Inês MA. Poeta, contista, cronista, romancista e compositor, membro da Academia de Letras de Santa Inês – MA, membro da Academia Vianense de Letras – MA. Vencedor de inúmeros concursos literários, integra a antologia de poetas maranhenses SAFRA 90 (1996), lançou o CD PERFIL em parceria com o musico vianense Toninho Rabelo (2002). Recebeu o título de Cidadão Vianense pela Câmara municipal de Viana, no ano de (2005). Convidado de honra, participou com intervenções poéticas nas comemorações dos 750 anos de Viana do Castelo (Portugal, 2008). Foi Vencedor do concurso de poesia I Semana Cultural Samuel Barreto (2021) e 2° Lugar na III Semana Cultural Samuel Barreto (2023), recebeu menção honrosa no 1° Concurso Literário da Academia Ludovicense de Letras (2022) com o livro inédito, Santuário de Ausências. Foi selecionado para a antologia Tecido Tempo – Mostra da poesia contemporânea do Maranhão (2023) da Academia Maranhense de Letras, e autor selecionado para a antologia Nordestes em duas categorias, poesia e crônica, Selo Off Flip (2023).
Autor dos livros: DO EU AU OUTRO – UM TRAJETO POÉTICO (2016) E SANTUÁRIO DE AUSÊNCIAS (2023), coautor das Antologias TECIDO TEMPO ‘’AML’’ e O QUE NÃO CALOU DENTRO DE NÓS ‘’Coletivo Vozes do Vale’’.

Carlos Vinhorth é uma potente voz da literatura contemporânea.
E esse espaço no Sacada Literária é muito importante para a literatura maranhense.