Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Carlos Vinhort, poeta - foto: divulgação

5 poemas de CARLOS VINHORT

 

PELO CÉU DE MINHAS ENTRANHAS

 

sempre quis voar além do meu calcanhar

senão para dentro de mim mesmo

aprofundar-me o mais distante

possível do meu próprio eu

      e lá dentro de mim

      desbravar as mais ínfimas artérias

      pelo céu de minhas entranhas

      no ermo da caverna

corre em mim o sangue das quimeras

não tenho asas tenho sonhos

que me levam as mais longínquas alturas

      eu em mim sou um mundo dentro do mundo

      sou tão profundo que meu olhar mais raso

 

      enxerga a eternidade

 

COTIDIANO

 

chego em casa

sempre depois da meia noite

 

no sofá em frente à TV

a mulher cochila e ronca

 

o gato se espreguiça

e volta a dormir

 

só o cachorro

me sorri

 

e só então me sinto acolhido

repatriado entre os meus

 

sob o mesmo teto

onde sempre regresso

estrangeiro

 

 

FORA DOS TRILHOS

 

um peso na existência

um punhal nas entranhas

 

no bolso um vale transporte

e alguns trocados para o lanche

 

mas é dentro da alma

que a vida escorre

 

lá fora

a vida evapora

a ferrugem engole o trem

fora dos trilhos

 

e um funeral de grilo

atiça a carniça

serve de banquete aos urubus

 

o grito perde a língua

o que se ouve é silêncio

 

uma trilha sonora

cantada em libras

 

 

AMPULHETA

 

sinto a vida me escapando

por entre os dedos

 

uma chaga

tem posto em perigo

minha lavra

 

o tempo não para

apesar do engarrafamento global

e dos agrotóxicos em demasia

 

há um gafanhoto

roendo as pálpebras dos meus dias

 

 

IMORTALIDADE INCRIADA

                   Para um ilustre itabirano

 

e agora Carlos?

pedras não há mais

porém sete faces tem o caminho

quem de nós conhece

a língua dos labirintos?

 

o caso corre em segredo de poesia

arrastado pelo bonde

e suas inúmeras pernas

coloridas pela primavera

desbotadas com o outono

 

o mundo é vasto

não cabe no mundo

deixa o poeta atônito

o verso branco

e a solução vai ficando sem rima

 

e agora Drummond?

em cheque todas as virtudes

não há patriotismo sem ritmo

ambos se fecham na solidão dos bares

e não mais se deslizam nas ironias

sobre tudo confundidas

com a eternidade das coisas findas

 

não há morte para quem rompe o infinito

a imortalidade incriada

soma-se a glória emergida do limbo

 

a ausência é só um quadro na parede

emoldurando as mais claras abstrações

deixando o poeta fechado

na tela entreaberta

 

eu não devia te dizer

mas entre poetas não há segredos

dá cá o ouvido

ouve o grito do meu silêncio

 

ele não dói

 

 

Carlos Drummond de Andrade – Dirceu Veiga, veigailustrador.wordpress.com

 

*

 

Carlos Vinhorth (Carlos Denilson Tomé Cunha). É natural de Santa Inês MA. Poeta, contista, cronista, romancista e compositor, membro da Academia de Letras de Santa Inês – MA, membro da Academia Vianense de Letras – MA. Vencedor de inúmeros concursos literários, integra a antologia de poetas maranhenses SAFRA 90 (1996), lançou o CD PERFIL em parceria com o musico vianense Toninho Rabelo (2002). Recebeu o título de Cidadão Vianense pela Câmara municipal de Viana, no ano de (2005). Convidado de honra, participou com intervenções poéticas nas comemorações dos 750 anos de Viana do Castelo (Portugal, 2008). Foi Vencedor do concurso de poesia I Semana Cultural Samuel Barreto (2021) e 2° Lugar na III Semana Cultural Samuel Barreto (2023), recebeu menção honrosa no 1° Concurso Literário da Academia Ludovicense de Letras (2022) com o livro inédito, Santuário de Ausências. Foi selecionado para a antologia Tecido Tempo – Mostra da poesia contemporânea do Maranhão (2023) da Academia Maranhense de Letras, e autor selecionado para a antologia Nordestes em duas categorias, poesia e crônica, Selo Off Flip (2023).

Autor dos livros:  DO EU AU OUTRO – UM TRAJETO POÉTICO (2016) E SANTUÁRIO DE AUSÊNCIAS (2023), coautor das Antologias TECIDO TEMPO ‘’AML’’ e O QUE NÃO CALOU DENTRO DE NÓS ‘’Coletivo Vozes do Vale’’.