Cantor e compositor Daffé,
um dos grandes nomes da música do Maranhão
Paulo Rodrigues
Especial para o Sacada Literária
Daffé é natural do município de Coroatá, mas viveu e aprendeu a amar Santa Inês, cidade fonte de inspiração. Buscou inspiração em artistas consagrados, tais como: Raimundo Soldado, Luiz Gonzaga e João do Vale.
Em 1997, lançou seu primeiro trabalho, consolidando toda a sua influência musical no disco intitulado de “CLAREANDO”, com 9 faixas que agradaram aos mais exigentes, apesar da escassez de recursos para realizar o disco, pois foi na simplicidade e sutileza dos arranjos, e forte entonação vocal que prevaleceu. O Daffé não parou mais: participou de várias coletâneas e projetos no Maranhão, MPM de cara nova. Daffé foi um dos destaques do projeto, participou do disco com a música “Quadrante”, de sua própria autoria. No projeto “Segunda de arte”, participou do disco com a música “Mapinguari”, em parceria com Robson Garcia. De festivais, foram muitas participações, de perder a conta. Até que, em 2000, lançou o CD “PROVÉRBIOS”; em 2004, SOMENTE SOLO; em 2008, o CD Canções “PARA SOLAR”; em 2010, lançou “É SÃO JOÃO” e em 2011 “PÉ DE BEIJO. Participou do Grupo Som do Mará com vários artistas renomados do senário maranhense, entre eles: Josias Sobrinho, Beto Pereira, Gerude, Ronald Pinheiro, Tutuca, Celso Reis, Chiquinho França e Marco Duailibe.
É sem nenhuma dúvida, um artista que alegra o nosso estado, desenvolvendo também um bom trabalho como gestor cultural de destaque na cidade de Santa Inês.

- Paulo Rodrigues – Daffé, Paul McCartney comentou certa vez: “Eu acredito que a música pode curar. As pessoas encontram paz na música”. Você encontra paz na música?
A citação de Paul McCartney reflete uma verdade profunda, que é observada em inúmeras culturas e contextos. A música tem a capacidade única de ativar áreas do cérebro ligadas às emoções, à memória e à recompensa, podendo modular o estresse, reduzir a ansiedade e até aliviar a percepção da dor. Ela oferece um refúgio. E também um canal para expressar e processar sentimentos, é um meio de conexão que transcende barreiras.
Com a afirmação de McCartney, entendendo que a música é, de fato, uma fonte poderosa de paz e cura para a humanidade. Isso eu sei muito bem.
Eu escuto música e fico anestesiado. E veja só, quando produzo entro num estado que parece transe.
- Paulo Rodrigues – Você comenta sempre nas entrevistas que ouviu muito Raimundo Soldado. Ele influenciou o compositor e cantor Daffé? E quais outros cantores chamavam sua atenção?
Daffé – A paixão pela música me pegou cedo. A inspiração veio de gente grande. Raimundo Soldado, na época o melhor cantor da região, foi meu primeiro ídolo, um verdadeiro farol no meu caminho musical. Junto dele, nomes como João do Vale e Luiz Gonzaga, acenderam ainda mais a chama. Eu lembro que esperava, e até sonhava, com o aniversário do Armazém Paraíba, em Santa Inês. Aquela data era sagrada. A única chance de ver de perto os meus ídolos, de me sentir perto da magia que eles criavam. Aqueles shows eram mais que apresentações. Eram aulas. A inspiração pura que me moldou e me fez sonhar em estar no palco um dia.
- Paulo Rodrigues – Como foi integrar o Grupo Som do Mará? Vocês levavam boa música para o Maranhão e as pessoas ficavam felizes. Ainda precisamos de projetos para divulgar a música do Maranhão?
Daffé – “O som do Mará“, para mim, foi o melhor projeto que aconteceu no Maranhão (em termos de música). Era mais do que simplesmente divulgar nossa arte. Era uma iniciativa completa, que unia a gente através da música. Tinha palestras e cada artista tinha a oportunidade de mostrar seu trabalho em sua própria cidade, junto com outros nove artistas de São Luís. Foi incrível dividir o palco e essa experiência com Josias Sobrinho, Beto Pereira, Gerude, Ronald Pinheiro, entre outros grandes nomes que fazem a cultura do nosso Maranhão pulsar.
Nós temos muito potencial. Muitos artistas geniais. Como diz o Josias Sobrinho na música Terra de Noel: “Nasci na terra de Noel/Sou cidadão do mundo/ Não vou tirar meu chapéu/ Para qualquer vagabundo”.
- Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o seu primeiro CD, que se chamou “CLAREANDO”.
Daffé – Em 1997, uma oportunidade inesperada marcou o início de uma nova fase na minha carreira. Fui convidado por Augusto Bastos, cantor e compositor, para gravar um jingle no renomado estúdio de Seu Nonato e seu conjunto, em São Luís.
Ao final da gravação, Seu Nonato, com sua visão e generosidade, me fez uma pergunta que mudaria tudo: ele queria saber se eu já tinha algum CD gravado. Ao ouvir minha resposta negativa, ele fez uma proposta irrecusável. Ofereceu o estúdio para que eu gravasse meu próprio álbum, com a condição de que eu só pagaria quando arrecadasse o dinheiro.
Não hesitei. Essa chance única resultou em um CD de 9 faixas que obteve um ótimo resultado. A crítica recebeu de forma positiva. A mídia divulgou bem o trabalho. Com arranjos de: Edinho Bastos, Henrique Duailibe, Murilo Rego. Dentre as músicas que mais se destacaram foi a canção “Cetim” (uma parceria com Antônio José), e “Eta Pindaré”, (de Becão). Rapidamente caíram no gosto do público, solidificando meu nome no cenário musical maranhense.
- Paulo Rodrigues – Você ganhou o Prêmio Universidade de melhor CD Folclórico de 2010. Qual foi o CD? Fale um pouco para nós sobre a importância dessa honraria.
Daffé – Verdade. Em 2010, lancei o CD É São João”, um trabalho com 10 faixas que marcou um momento especial na minha carreira. Este álbum foi agraciado com o Prêmio Universidade nas categorias de Melhor Música por “Bailarino das Areias” – uma parceria que muito me orgulha com Antônio José – e também como Melhor CD. Todo o projeto foi gravado no estúdio do meu amigo Arlindo Pipiu, com a excelente produção de Ronald Santos e Rui Mário. Com Design gráfico de Jesiel Sales Pontes, um time que fez toda a diferença para esse reconhecimento.
- Paulo Rodrigues – Como foi a experiência como secretário de cultura de Santa Inês? Você desenvolveu vários projetos culturais importantes. Para muitos foi o melhor secretário de cultura do Maranhão. Qual projeto destacaria para nós?
Daffé – Apoio irrestrito à produção artística local. Nós criamos programas de fomento e editais transparentes. Alcançamos artistas de todos os segmentos, desde os mais tradicionais aos mais experimentais, garantindo que a riqueza cultural de Santa Inês fosse plenamente reconhecida e incentivada.
Valorização das tradições: Valorizamos o Bumba-Meu-Boi, o Tambor de Crioula, a culinária, o artesanato – todas essas manifestações foram pilares de uma gestão que buscou preservar e projetar a identidade maranhense, promovendo a transmissão de saberes para as novas gerações.
Inclusão e acessibilidade: Trabalhamos os espaços culturais da cidade: Espaço Dona Zima, Praça da Saudade, Viva Lobato. Garantimos que eventos e espaços culturais fossem acessíveis a todos, com programações diversas que atendeu a diferentes públicos e necessidades, incluindo pessoas com deficiência e comunidades em situação de vulnerabilidade.
Fomento à educação cultural: Investimos em projetos e levamos a arte e a cultura nas escolas, formando novos públicos e descobrindo talentos desde cedo.
Um grande Projeto: Acredito que um dos melhores projetos do maranhão em termo de intercambio cultural “Santa Inês Recebe”. O referido projeto valorizou o artista local, tornando-o mais conhecido musicalmente. Foram oito meses levando um artista renomado do Maranhão e um de Santa Inês, com patrocínio da Equatorial. Projeto em parceria com o cantor e compositor Josias Sobrinho.
- Paulo Rodrigues – A música Bailarino das Areias é uma das mais tocadas no São João do Maranhão. Conte um pouco da história dessa composição.
Daffé – A música “Bailarino das Areias”, música do Boizinho Incantado, hoje um verdadeiro ícone do nosso São João maranhense, alcançou seu status graças, em grande parte, a uma divulgação maciça do Boi de Nina Rodrigues. A verdade é que, atualmente, nem mesmo o Boizinho Incantado toca essa toada com a mesma frequência e intensidade. O Boi de Nina Rodrigues abraçou como um hino.
Originalmente, “Bailarino das Areias” foi o título do segundo CD do Boizinho Incantado. Nós já cantávamos essa toada nos terreiros. A ideia de gravá-la nos levou ao estúdio de Seu Nonato e seu conjunto, sob a produção de Roberto Ricci. No entanto, durante o processo de gravação houve uma pausa. Nesse meio tempo, fui para Santa Inês e mostrei a toada para o meu grande parceiro Antônio José. Ele achou a letra muito curta. Com sua genialidade, adicionou a estrofe final que se tornou um marco: “Dança vem menina, flor divina do cordão, te amarra na minha barra, me guarda no coração“.
Essa é a parte que meu grande parceiro, Antônio José. Ele era um poeta genial. Foi o meu melhor parceiro.
- Paulo Rodrigues – Daffé, como foi dividir o palco com Chico César no Projeto MPB Petrobrás?
Daffé – Marco importante na minha trajetória. Aquele show foi, sem dúvida, um divisor de águas. Tive o privilégio de fazer três aberturas de shows do Chico César, e uma delas ficou gravada de forma especial. Foi justamente em 2010, quando eu estava lançando o meu CD “Canções para Solar”. A energia daquele palco, “Multicenter SEBRAE, a expectativa do público. Foi uma felicidade gigante. Na semana seguinte, eu lançaria o “Canções para Solar”, no prestigiado Teatro Arthur Azevedo.
Essa experiência foi fantástica, um verdadeiro trampolim que deu uma alavancada significativa na minha carreira. Lembro com carinho que aquela foi a primeira vez que fiz um show no Teatro Arthur Azevedo, e a produção impecável ficou a cargo do talentoso Mário Jorge, com o senário do Ruber. Foi um momento lindo. Uma noite que selou um novo capítulo e reafirmou minha paixão pela música.
- Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do Daffé?
Daffé – Após um período desafiador na saúde. Estou de volta com novos e inspiradores projetos musicais. Afinal a música foi meu maior alicerce e processo de cura durante a recuperação. “A música cura. É o que está me sustentando até hoje.”
Com essa paixão renovada, tenho várias músicas inéditas e planejo gravá-las para lançar nas redes sociais. Além do lançamento digital, pretendo levar minha música e minha história de resiliência para shows em diversas cidades do Maranhão, reconectando-me com meu público.
LETRAS DE DAFFÉ
Bailarino Das Areias
[Daffé e Antônio José]
O Sol já veste o dia
Meu boi ainda vagueia
A Lua fez vigília
Tinideira são candeias
Estrela matutina, flor menina
Do meu céu
Cenário de magia
Na copa do meu chapéu
Pra meu boi, ê meu boi
Prata da Lua cheia
Bailarino das areias
Dança, vem menina
Flor divina do cordão
Te amarra na minha barra
Me guarda no coração
Cetim
[Daffé e Antônio José]
Como uma flor que, murchou
O orvalho não chegou pra dar vida
Se o amor acabou
É que fonte dos beijos secou em mim
Valeu o sol e o luar
Vestido de cetim
Valeu poder te amar
Assim maior que o mar
Faca de ponta no peito
Teu jeito adeus doeu
Meu Silêncio
[Daffé]
Por que tem que ser assim?
Se eu, pra beijar você
Você tem que gostar de mim
Não sei o que vou fazer
Olhando teu gesto frágil
Falei palavras sem sair de mim!
Eu posso me arrepender
Do que eu disse
Menos do meu silêncio!
Transo com a Lua pensando em você
Sob a luz de um incenso
Não sei o que vou fazer
Não quero é mais falar
Segredos como a dor
Que carrego em mim
O amor é uma ilusão
Sem a qual não podemos viver!
***
Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista. Autor de Cordilheira (2024), entre outros livros importantes.

Grande cantor e compositor Zé Carlos Daffé, seu trabalho contribui para o crescimento da nossa cultura maranhense.
Daffé é um grande cantor da música do Maranhão. Parabéns ao Sacada Literária!