“Se levarmos em consideração a nossa condição de estado periférico, onde os recursos para a cultura são infinitamente parcos e o pouco que sobra é investido de maneira, a meu ver, pouco inteligente e produtiva, acho que o artista do Maranhão já faz é muito.”
[Chico Saldanha]

Chico Saldanha, cantor e compositor nasceu em Rosário, e ainda criança veio morar em São Luís, mais precisamente na rua de São Pantaleão. Lá conheceu e conviveu com vários amigos que depois se tornariam grandes nomes na música maranhense.
Começou sua carreira cantando músicas dos Beatles, ainda no Liceu, ao lado do amigo Chico Linhares e do irmão Nena.
Depois participou dos Festivais dos anos 70. Venceu o de 1972, com a música Dom Quixote em parceria com o poeta Ivan Sarney.
Em 1980, mudou-se para São Paulo. Participou ativamente (junto com outros artistas) da produção de vários trabalhos, como o festejado projeto Velhos Moleques.
O trabalho de Chico Saldanha transita com facilidade entre a música regional e outros ritmos como blues, canções, bregas etc.
Entre suas músicas mais conhecidas, nos 4 CDs que produziu, tem destaque para as toadas Itamirim, Linha Puída, Babalu, Parabéns Rosário, Arco-Íris.
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- Paulo Rodrigues – Tom Jobim insistia no argumento: “toda música é reflexo de uma época”. Você concorda com o mestre que internacionalizou a Bossa Nova?
Chico Saldanha – Claro que concordo com essa afirmação atribuída ao mestre Jobim. Ele foi um dos maiores compositores de sua época, compreendeu que a música, assim como todas as formas de arte, carrega as marcas do seu tempo. Abordam, invariavelmente, questões relacionadas à sua época, ao momento em que foram criadas. Tenho consciência disso quando lembro do primeiro samba gravado no Brasil, 1917, Pelo Telefone, autoria de Donga/Mário Almeida, onde já se vê claramente retratada uma forma de abordagem da cultura popular urbana que retratava a brasilidade, o coloquialismo, enfim, o que era chamado, à época, de carioquice. Tudo condizente, refletindo com a época em que foi composta. Também, reflexo do momento desenvolvimentista que vivia o país nos anos JK, criou-se a bossa nova, um desenvolvimento do samba-jazz. Depois o surgimento da canção engajada, a Jovem Guarda e outros movimentos. O Tropicalismo iniciando o movimento de politização da moderna canção brasileira pós bossa nova, trazendo por um lado a força dos temas sociais, por outro a força da música brasileira que vinha lá de trás. Esses movimentos e uma sucessão de gêneros que se seguiram sempre corresponderam a acontecimentos da época e os refletiram. Eu, como compositor do Maranhão que assistiu e participou ativamente de uma fase de transição da música popular que aqui se fazia nos anos 60, muito bonita e criativa, por sinal, em comparação à música que hoje se faz, posso distinguir perfeitamente esse fenômeno e concordar com o argumento jobiniano.

- Paulo Rodrigues – A música popular brasileira ainda pulsa forte no país? E a música do Maranhão? Como você analisa o cenário atual?
Chico Saldanha – Se ao longo do século XX a força criativa da boa canção brasileira desafiou e, até certo ponto, venceu a padronização da indústria cultural, tornando-se um de seus produtos mais exemplares, por que não deveria estar ainda pulsando firme no gosto musical brasileiro?
O aparecimento cada vez mais constante de músicos e compositores novos e excepcionais que escuto por aí, oxigenando e renovando a nossa música popular me dá essa certeza.
Quanto à música feita no Maranhão, ela sempre está me surpreendendo, apesar de ainda não ter a merecida divulgação. São músicos novos, compositores jovens, super criativos que aparecem a cada esquina, a cada beco. A comunhão, a identificação visceral da população com o reggae, o mix com os nossos ritmos diversos, tudo isso forma um caldo de cultura invejável e único na nossa cena cultural.
- Paulo Rodrigues – Os artistas do Maranhão não poderiam fazer mais pela cultura do Brasil? O que falta, Chico?
Chico Saldanha – Se levarmos em consideração a nossa condição de estado periférico, onde os recursos para a cultura são infinitamente parcos e o pouco que sobra é investido de maneira, a meu ver, pouco inteligente e produtiva, acho que o artista do Maranhão já faz é muito. Vejo todos os dias artistas plásticos, cineastas, pessoal do teatro, músicos se virando dentro do possível, apresentando trabalhos de alta qualidade e o apoio quando existe é mínimo.
O Maranhão já dá uma grande contribuição à cultura do Brasil, seja pela diversidade de seus ritmos, seja pela excelência dos nossos artistas que possuem um trabalho realizado nos grandes centros.
Talvez o que falta é mais sensibilidade de quem senta no lado interno do balcão na hora da discussão das políticas públicas.
- Paulo Rodrigues – O disco Bandeira de Aço do Papete foi um trabalho de bastidores de Chico Saldanha? É realmente um disco muito importante para a música brasileira?
Chico Saldanha – Em parte, tem um fundo de verdade. Mas, é importante dizer que toda essa história de que levei as músicas que fazem parte do disco para Papete nasceu de uma mera casualidade.
Em 1976, eu passava uma temporada no Rio, e Papete, um velho amigo da São Pantaleão, quando passava por lá, costumava se hospedar comigo e ficávamos tocando e cantando o dia inteiro. Despretensiosamente, comecei a mostrar algumas canções de compositores maranhenses que ele não conhecia na época.
Ele que sempre se fazia acompanhar de um gravador registrou tudo. Depois soube que ele levou a fita cassete para o produtor Marcos Pereira que se emocionou com aquelas músicas e decidiu gravar o Bandeira de Aço.
Segundo Papete, ele manteve essa história em segredo durante muitos anos para me poupar nas discussões acaloradas que surgiram logo após o lançamento do vinil que felizmente se dissiparam em pouco tempo.
Quanto à importância do Bandeira de Aço para a música brasileira isso é inegável.
Surpreendeu e mostrou para o Brasil um time de compositores de alto nível que fazia música aqui no Maranhão. Mas a importância maior é que maiores reflexos trouxeram para a música feita em nosso estado. De repente, se viu representada e divulgada, principalmente aqui no Nordeste onde o Bandeira é super conhecido e também serviu para elevar a autoestima dos nossos compositores.
- Paulo Rodrigues – Conte um pouco sobre a composição de Itamirim. Por que é tão aplaudida pelos maranhenses?
Chico Saldanha – A música Itamirim surgiu quando eu ainda morava em São Paulo. Na época do São João, batia uma saudade enorme do Maranhão. Eu triste, trabalhando num escritório de advocacia. Lá mesmo no escritório comecei a rabiscar a letra. A música remete a uma passagem da minha infância, quando, na época do São João, meu pai, Juca Saldanha, costumava me levar para a margem do rio Itapecuru, em Rosário, onde eu nasci, e aguardar um boi de orquestra que vinha da outra margem do rio. Acontece é que esse boi nunca chegava, e eu acabava dormindo. O tema central gira em torno disso.
Musicalmente falando, eu, quando compus a melodia, fiz propositalmente uma primeira parte bem tradicional e quebrei um pouco na segunda, o que me fez supor que essa música nunca iria tocar em lugar algum. Chamei o maestro Ubiratan Sousa para fazer o arranjo e o mestre Tião para cantar nesse meu primeiro registro em disco.
Engraçado, e ao mesmo tempo surpreendente, é que inicialmente a música começou a ser muito aplaudida em São Paulo, local pouco afeito às toadas. Foi gravada pela primeira vez lá (pelo grupo Flor do Mato). Depois é que gravei e trouxe o disco pra cá, deixando em algumas rádios. Voltei dois anos depois, e a música tinha pegado e fiquei muito feliz, vendo muita gente cantando.
Acho que as pessoas gostam dessa toada pela tessitura que comporta muitas células melódicas (do antigo boi de orquestra). Abriga também uma modernidade harmônica surpreendente na segunda parte, além da excepcional interpretação de Tião Carvalho e da luxuosa participação do mestre Ubiratan nos arranjos. Outra grande alegria que essa música me proporcionou foi quando a minha companheira, a poeta Laura Amélia, compôs uma toada super poética “Morena de Itamirim”, gravada no CD Celebração, como resposta musical à música original.
- Paulo Rodrigues – Você é um compositor eclético. Trabalha com muitos ritmos musicais. Como foi sua formação artística?
Chico Saldanha – Realmente trabalho com várias vertentes musicais. Acredito que essa facilidade que tenho para compor vem do ambiente musical onde fui criado. Minha mãe, gostava de cantar. Sempre colocava os filhos para cantar em casa. Isso ainda em Rosário. Depois que meus pais vieram morar em São Luís, na rua São Pantaleão, meu irmão mais velho (José) virou um compulsivo comprador de discos 78 rotações e LP. Ficávamos escutando de bolero ao jazz, de Jackson do Pandeiro a Tommy Dorsey, de Noel a Ella Fitzgerald.
Junte-se a isso tudo, o ambiente de cultura popular sempre pulsante nessa região da cidade. Os amigos todos eram grandes músicos, que ali residiam. Os programas de auditório da Rádio Timbira, onde minha tia era a pianista e, às vezes, me carregava para lá. A minha participação no primeiro grupo a cantar os BEATLES no Maranhão. Também o grande interesse que eu sempre tive pela música popular, somado à minha memória sempre antenada pelos “capilares musicais” do meu sistema nervoso.
- Paulo Rodrigues – “Quatro 70” é parceria, beleza e poesia? Chico Saldanha, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Joãozinho Ribeiro carregam um olhar coletivo?
Chico Saldanha – Quatro 70 foi o acontecimento musical mais importante que ocorreu neste ano e um dos mais importantes da minha carreira.
A visão do coletivo foi uma razão muito forte que me atraiu a fazer parte do projeto. Joaozinho, Josias, em especial, são artistas que desde sempre procuraram aproximar as diversas tendências musicais aqui presentes. Seus inúmeros projetos, se formos fazer uma pesquisa, visam sempre o coletivo, sempre são inclusivos. Basta atentarmos para o projeto capitaneado por Josias Sobrinho no Convento das Mercês onde já foram incluídos, em pouco tempo de duração, centenas de músicos maranhenses.
Foi uma felicidade muito grande reencontrar no palco, cantar, com Sérgio Habibe, esse músico e compositor referencial na música maranhense, amigos desde os desde os tempos dos antigos festivais, anos 70, no Costa Rodrigues.
Salve o Quatro 70!
- Paulo Rodrigues – Elizeu Cardoso mostrou extrema felicidade ao interpretar “Arco-íris”. Foi feita para ele interpretar mesmo? Como funciona o processo de criação com você?
Chico Saldanha – A extrema felicidade foi encontrar Elizeu na minha vida. Inclusive de uma forma muito casual. Já era seu fã, através de algumas composições que ouvia no rádio, mas não sabia nem como era a cara dele. Um belo dia, no quintal de Dona Solange, casa do jornalista Zema Ribeiro, fui apresentado ao Elizeu. Amizade e parceria à primeira vista.
Estava com a música ARCO-ÍRIS já com a base pronta, mas achei que deveria dar para outro cantor fazer a interpretação. Foram indicados vários interpretes e eu não batia o martelo. Até que surgiu a brilhante ideia de convidar Elizeu. Fui todo tímido sondar se ele aceitava o encargo. Ele prontamente aceitou. Sorte minha. Interpretação brilhante dando vida nova à canção, que hoje é muito apreciada.
Em suma, essa música se não foi, tinha que ser feita pra ele. Grato, Elizeu!
Quando vou compor, os temas vêm de uma escolha que eu não saberia explicar. É um processo baseado na casualidade, talvez. Surge de uma necessidade interna, nos afetos inconscientes, na vivência que adquiri nos muitos lugares por onde andei, nas várias tribos que convivi mais de perto, e principalmente na minha memória musical que ainda funciona muito bem.
- Paulo Rodrigues – Quando sairá um álbum novo do Chico Saldanha? Segue criativo?
Chico Saldanha – Em geral, meus álbuns acontecem entre um e outro, num espaço de tempo relativamente grande. Costumo dizer brincando quando sou perguntado que me inspiro na poeta polaca Wislawa Samborska que diz: “a imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas”.
Mas, agora já estou com alguns singles nas plataformas digitais e pretendo, ainda este ano, gravar novas músicas complementando um novo álbum.
Tenho criado algumas canções novas. Tenho parcerias recentes com Zeca Baleiro, Joãozinho, Josias e outros compositores amigos.
- Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores e leitoras.
Chico Saldanha – Já agradecendo a gentileza do convite para expor alguns aspectos da minha vida artística, dirijo aos leitores minha mensagem para que continuem a prestigiar a música feita no Maranhão como estão fazendo. Temos artistas de grande qualidade e jovens músicos que, a cada dia, surgem como grandes talentos. Também que se liguem mais aos aspectos políticos, no que diz respeito à nossa cultura. E que repensem suas escolhas, quando das eleições, visando trazer pessoas mais interessadas em abrir novos palcos, cuidar da nossa memória, dos nossos arquivos históricos.
Aos artistas, que continuem a sua função de criar espelhos, repensar o mundo através da arte, modificar e tentar modificar consciências.
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LETRAS DE CHICO SALDANHA
BABALU
[Chico Saldanha]
Gente cadê Babalu?
será que tá no Halem, Burundi, Kelru
rei do Congo na tv
cometa de Bill Hally
Babalu aiê (bis)
Ma yo te digo
que nem sempre a vida imita a arte
aqui na Broadway em qualquer parte
te quiero decir
Babalu
dançando nas nuvens com pés emprestados
não olhe mais a vida
pelos olhos de rei Charles
Ray-Ban na cabeça
retoma teu charme
volta Papa-Oom-mow-mow
rei da dublagem…
ABSOLUTAMENTE
[Chico Saldanha]
Você confundiu amor com amizade
no auge da paixão qualidade quantidade
conteúdo continente
grana com felicidade
o discurso o improviso
o obscuro com a modernidade
Você confundiu o absurdo e o mágico
careta e performático
você pôs no mesmo saco
a poesia a prosa
confundiu Pessoa Rosa
o eterno o que era vago
e a versão para esconder o fato
Não viu que tempo é tempo
espaço é sempre espaço
ignorou que a perna
nem sempre é maior que o passo
não captou que as coisas pendem sempre por um fio
na proporção exata em que se encontra
o pé o couro o sangue o touro a prancha o menino do Rio
Você confundiu ideia e realidade
e misturou no texto o claro e o indecifrável
o lado B da música era seis por meia dúzia
sútil e enigmática era o tudo o nada…
DOLORES
[Chico Saldanha/ Zema Ribeiro]
para Dolores O’Riordan
Nunca mais encontrei Dolores na balada
Ela nunca mais me disse nada
Enquanto eu bebia ao pé do balcão
Dolores nunca mais subiu ao palco pr’uma canja
Mesmo que apareça outra banda
Ouço apenas o vazio de meus pensamentos
A balada já não tem a mesma graça
Nunca mais pedi um drinque estranho
Desligaram o som
Não se ouve mais When you’re gone
When you’re gone
Eu que sou uma gata sem eira nem beira,
Já virei zumbi
Zombie
Aos poucos fui perdendo os discos
Que passei a vida a colecionar
Que passei a vida a colecionar
Dolores foi embora sem dizer goodbye
Tropeço na saudade quando a noite cai
Procuro uma palavra, não vou encontrar
Ninguém vem me dizer onde ela foi morar
Sua voz se diluiu no sinal vermelho
No cruzamento entre a morte e a canção
Eu bato ponto todo dia no balcão
Na doce ilusão de um dia ela voltar


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Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista.

chico saldanha é sem sombra de duvidas um dos mais arejados artistas brasileiros. Experiência associada a uma invejada memória dão o tom perfeito a suas criações geniais!! Um bom da MPB. Dos nossos!!!
Muito bom encontrar a maturidade, lucidez e poesia no trabalho de Saldanha, um dos grandes músicos e compositores do nosso rico Estado. Parabéns!
Chico Saldanha é um compositor genial. O Sacada Literária divulga o melhor da cultura do Maranhão. Parabéns!
Chico Saldanha é um poeta-músico e vice-versa que trata dos temas indagados por outro poeta, Paulo Rodrigues com palavras que soam como 🎶 melodias.
j. Ewerton Neto.
Um artista que atravessa o tempo como quem sabe ouvir o vento
Nesta entrevista conduzida com sensibilidade por Paulo Rodrigues, Chico Saldanha revela-se como aquilo que de fato é: um artista de travessia, atento ao seu tempo, mas profundamente enraizado na tradição cultural do Maranhão. Suas palavras não são apenas reflexo de memórias — são também observações críticas, afetuosas e lúcidas sobre o ofício de criar em meio às carências estruturais e à potência inventiva de um povo que, apesar de tudo, canta.
Há algo de raro em Chico: a capacidade de transitar entre ritmos e épocas sem perder o chão do próprio território. Ele fala do Maranhão não como folclore, mas como força viva — com seus becos, seus bois, suas rádios, seus vinis, seus silêncios e suas resistências. E ao contar sobre as origens de Itamirim, sobre os encontros fortuitos que viram parcerias, ou sobre o gesto político de compor, ele nos oferece não apenas uma biografia artística, mas uma ética do fazer musical — onde memória, afeto e crítica se entrelaçam como vozes numa toada.
Em tempos de mercado acelerado e esquecimentos velozes, Chico Saldanha permanece como um desses artistas que não apenas fazem música, mas fazem sentido. Um mestre discreto que segue, passo a passo, compondo espelhos para o mundo — e nos lembrando que a canção, como ele mesmo diz, também é lugar de repensar consciências.