Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Escritor Marcos Fábio Belo Matos - foto: divulgação

MARCOS FÁBIO BELO MATOS entrevistado por PAULO RODRIGUES

 

“Eu procuro ler sempre, tenho sempre um livro de cabeceira de literatura e costumo fazer as leituras antes de dormir, todos os dias. E eu vou lendo de acordo com o meu interesse, sem me guiar pelo que é clássico, ou moderno, ou contemporâneo.”

[Marcos Fábio]

 

Marcos Fábio Belo Matos é natural de Bacabal. Jornalista e Licenciado em Língua Portuguesa, é mestre em Comunicação, doutor em Linguística e Língua Portuguesa e pós-doutor em Comunicação. É professor dos cursos de Jornalismo e Pedagogia da UFMA -Imperatriz. Foi diretor do CCSST  (UFMA-Imperatriz), Vice-Reitor e Diretor de Comunicação da UFMA (2019-2023) e Superintendente de Comunicação da UFMA (2024-2025).

É autor de 35 obras, entre acadêmicas e literárias, das quais destaca: “…E o Cinema Invadiu a Athenas: a História do Cinema Ambulante em São Luís (1898-1909)”, ganhadora do Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís – Categoria Pesquisa Histórica (2002); “Crônicas de Menino – Crônicas”, ganhadora do 1º.  Prêmio BNB de Cultura (2006); “Ecos da Modernidade: uma análise do discurso sobre o cinema ambulante em São Luís”, ganhadora do Edital Fapema Literatura (2016); “O 18º. Andar” – Novela – ganhadora do Edital Literatura da Fapema (2017); “Palavras no Avesso” – Crônicas – ganhadora do Edital Edelvira Marques (2018); “Veritas” – Contos – ganhadora dos prêmios da Academia Ludovicense de Letras e da Academia Imperatrizense de Letras (2024). É editor da página de literatura da Academia Imperatrizense de Letras e editor-chefe do site Região Tocantina, espaços nos quais faz divulgação literária.

 

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  1. Paulo Rodrigues – Marcos Fábio, o filósofo Aristóteles afirmou: “O historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido”. É assim mesmo? O mestre grego tem razão?

Marcos Fábio – Acho que sim. A poesia tem sempre a capacidade de sair do mundo estritamente real, de inventar realidades sem nenhum compromisso com a verossimilhança, de brincar com a invenção de mundos, abstrair por inteiro. E esse é, justamente, o barato da poesia – mas eu iria além: este é o barato da literatura, como um todo. A realidade, para a literatura, é apenas o trampolim de onde ela pula para fazer suas acrobacias.

 

  1. Paulo Rodrigues – Marcos, você escreve em vários gêneros. Como funciona o seu processo de escrita?

Marcos Fábio – Meu processo de escritura da literatura é muito irregular, indisciplinado e motivado por inspiração. Fiz muita poesia, aos borbotões, dos 18 aos 25 anos. Depois, enveredei pela prosa, sobretudo pelos contos. E era sempre aquilo: escrever tocado pela inspiração, sentar e escrever uma história de um fôlego só; ou pensar numa história, anotar seu título, mas só escrever quando, realmente, me sentisse inspirado. Essa história de que a literatura é um trabalho sistemático ainda não funcionou para mim. Eu sou guiado pelo entusiasmo, pelas epifanias que, de quando em vez, aparecem e eu as aproveito. Tenho uma história a respeito disso que gosto de contar. Quando estava no Rio de Janeiro, fazendo mestrado, eu morava em Niterói e, quando ia ao supermercado, passava diante de uma igreja Batista. Daí eu pensei num conto que trouxesse uma história que tivesse aquela igreja como ambiente. Pensei no título, “O Piano”, escrevi na agenda. Mas só fui escrever a história 10 anos depois, todo começo de ano eu escrevia o título do conto na agenda nova, a daquele ano, mas nunca sentava para fazer. Uma vez eu me inspirei e escrevi. Gostei tanto que, logo depois, escrevi uma sequência, chamada “A Moça do Piano”.

 

Capa do livro Contos Cáusticos, 2004, Marcos Fábio Belo Matos
  1. Paulo Rodrigues – Que autores têm chamado sua atenção na literatura brasileira contemporânea?

Marcos Fábio – Eu procuro ler sempre, tenho sempre um livro de cabeceira de literatura e costumo fazer as leituras antes de dormir, todos os dias. E eu vou lendo de acordo com o meu interesse, sem me guiar pelo que é clássico ou moderno ou contemporâneo etc. Por exemplo: acabei de ler o famosíssimo “Cem Anos de Solidão”, livro que eu comprei há uns 20 anos, depois me desfiz e depois, ano passado, comprei de novo para, finalmente, começar a leitura em junho. Mas, sobre literatura nova – ou de autores e autoras novas, como assim se pode dizer – eu tenho lido algumas coisas e gostado do que leio. Vou dar alguns exemplos, com a certeza de que vou esquecer muita gente. Tem a Ana Maria Gonçalves com seu portentoso “Um Defeito de Cor” – livro lindo, que li já este ano; o Airton Souza, autor de muitas obras e muitos gêneros, cuja obra “Outono de Carne Estranha”, abalou as bases da literatura brasileira em 2024; o gaúcho José Falero, com “Os Supridores”, um livro realmente poderoso; o Jeferson Tenório, de quem li “O Avesso da Pele”; a Carla Madeira, de quem li, recentemente, “Tudo é Rio”. E tem os nossos brilhantes autores e autoras maranhenses, de quem destaco a Lindevânia Martins, com os contos de “Teresa Decide Falar”; o José Neres, com “Restos de Vidas Perdidas”, “Quase Tudo em Família” e muita coisa boa que ele já fez; as dezenas de mulheres que publicaram no meu projeto “Mural das Minas”, que gerou um livro lindo publicado ano passado. E não posso deixar de destacar os meus amigos e amigas escritores e escritoras de Imperatriz, uma terra que gera muita literatura. Daqui, destaco a Hyana Reis, com o livro “Amores em Tempos de @”, um relato saboroso sobre esses tempos mais que líquidos; o João Marcos, com “Curacanga”, um romance histórico bem interessante; o Alysson Steimacher, autor de obras como “O Signo do Seis” e “A Beleza dos Seus Segredos”; a Cristina Galleti, uma autora muito interessante, que publicou um livro bastante sensível chamado “Vem que eu te conto um Conto”; o Domingos Almeida, que publicou um livro na forma de texto teatral, chamado “Xica do Sertão de Terra e Puaca”. Tem mais gente, que ficou de fora. Mas essa lista que fiz representa bem este momento atual da nossa literatura – ao menos, pra mim.

 

  1. Paulo Rodrigues – E como você observa a cena literária no Maranhão? Há autores que você destacaria?

Marcos Fábio – Acho que a resposta acima já dá uma meia resposta a esta pergunta aqui. Mas vou aproveitar o espaço para aumentar a lista e, de já, deixo minhas desculpas pelos esquecimentos que ela vai trazer. Vou citar os/as autores e autoras que me chamam a atenção: Linda Barros; Júlio César; Antônio Ailton; Wybson Carvalho; Weliton Carvalho; José Ewerton Neto; Adriana Moulin; Ribamar Silva; Elizandra (Liz) Ribeiro; Helena Frenzel (maranhense que mora na Alemanha); Gabriela Lages; Tereza Bom-Fim (autora de literatura infantil); Gilmar Pereira (também autor de literatura infantil); Iramir Araújo; Luiza Cantanhede. Vou aproveitar para deixar aqui um registro bastante necessário: cheguei a São Luís, para estudar na antiga Escola Técnica Federal do Maranhão, em 1988, com 16 anos, e, assim que cheguei, um dos primeiros livros que li foi do Ubiratan Teixeira, uma novela chamada “O Banquete”. Acho que aquele livro me fez querer ser escritor e contar histórias como aquela…

 

  1. Paulo Rodrigues – Você publicou um livro de poemas cujo título é ANONIMATO. O que essa obra representa para você?

Marcos Fábio – Este ano, coincidentemente, o “Anonimato” faz 35 anos. Ele foi publicado, de forma bastante artesanal, em 1990. Foi datilografado em máquina elétrica e impresso em xerox – nem sei se a geração Z  sabe o que é isso. Uma edição bastante simplória, de 100 exemplares. Mas foi ali o início da minha vida literária. Um jovem de 18 anos lançando um livro na sua cidade natal, Bacabal, e, com ele, querendo trilhar uma carreira nas letras… Ele tem essa enorme simbologia dos inícios, o germe da literatura que eu iria fazer crescer pelas próximas três décadas e meia. E ele tem o cheiro da poesia, algo que fui deixando, que ficou um tanto esporádico em mim. Tanto que toda a minha produção literária, depois dele, é de prosa – contos, crônicas, novelas. Este ano, meu amigo, José Neres, me presenteou com uma reedição do “Anonimato”, em formato de e-book, que ficou linda e resgata em mim uma memória muito especial.

 

  1. Paulo Rodrigues – Fale um pouco sobre o livro “Veritas” para os nossos leitores.

Marcos Fábio – “Veritas” é meu derradeiro livro de contos. Ele reúne 25 contos que têm em comum aquele cheiro de realidade, aquelas situações que podem acontecer com, absolutamente, qualquer pessoa, em qualquer lugar, enfeixadas pelos instrumentos que a literatura nos dá… daí porque o veritas – que, em latim, quer dizer verdade. É um livro importante na minha carreira literária, pois com ele eu ganhei os prêmios da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e da Academia Imperatrizense de Letras (AIL). Ganhar um prêmio literário, mais que qualquer láurea ou valor financeiro, é importante porque você sabe que ele passou por um crivo de gente que conhece e gosta de literatura. E isso é importante para qualquer escritor e escritora.

 

 

  1. Paulo Rodrigues – O “Veritas” ganhou o primeiro lugar do Concurso Literário da Academia Ludovicense de Letras 2022. Os concursos literários ajudam a divulgar a obra dos autores?

Marcos Fábio – Sim, sim. Os concursos literários ajudam muito. Eles são, além de uma vitrine, uma forma de o escritor e a escritora ser valorizado/a e de, quando existem prêmios, auferir alguns reais, o que não é desimportante. Vou dar um exemplo: com o valor do prêmio que eu recebi do concurso literário da Academia Ludovicense de Letras, eu criei outro prêmio, focado em incentivar os jovens escritores e escritoras, que eu chamei de Prêmio Jovens Talentos da Literatura Maranhense, que recebeu mais de 50 textos, no gênero crônica, de todo o Maranhão, e que foi vencido por um escritor de Bom Lugar. Foi uma forma de incentivar a juventude a também enxergar na literatura uma possibilidade de vida, como aconteceu comigo, lá atrás. Foi uma ótima experiência, que eu sei que ajudou muita gente a se expressar pela literatura e a acalentar dezenas de sonhos… O Maranhão, sempre tido como berço de grandes escritores e escritoras – Josué Montello, Gonçalves Dias, Maria Firmina dos Reis, Aluísio e Artur Azevedo e tanta gente – tem pouquíssimos prêmios literários. O Concurso Artístico e Literário “Cidade de São Luís”, que já premiou tanta gente boa e que me permitiu, em 2002, publicar minha dissertação como livro, infelizmente foi sepultado. Em Imperatriz, temos o Prêmio Literário da Academia Imperatrizense de Letras, mantido pela prefeitura de Imperatriz e organizado pela AIL, que tem sido bastante importante para a Região Tocantina. Oxalá tivéssemos uns 10 prêmios como esse…

 

  1. Paulo Rodrigues – Marcos Fábio, você se dedicou ao mundo acadêmico e ao literário. Acha que conseguiu conciliar bem? Faria alguma coisa diferente?

Marcos Fábio – Eu, como diz aquela música, “se pudesse e se meu dinheiro desse…”, talvez tivesse vivido de literatura. Mas eu não tive escolha e, como muitos escritores e escritoras latino-americanos, precisei ganhar a vida desde cedo. E, aos 18 anos, me tornei funcionário público federal, do antigo CEFET-MA e, em 2006, fiz um concurso para a UFMA, em Imperatriz, que estava montando o Curso de Jornalismo. E por aqui estou até agora, como professor, 19 anos já. A literatura, neste cenário, se tornou para mim uma carreira paralela, algo que eu vou, sistematicamente, construindo e alimentando. Como disse lá em cima, já são 35 anos de atividades literárias, que me permitiram produzir, 12 obras, entre poesia, conto, coletâneas, novela. O restante da minha produção tem o perfil acadêmico: publiquei minha dissertação de mestrado em 2002; minha tese de doutorado em 2017; organizei algumas coletâneas de artigos e participei de outras. Pelas minhas contas, são 35 anos de literatura e 35 obras – entre acadêmicas e literárias. E penso que assim vou seguir até o encontro com “a indesejada das gentes”…

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores e leitoras, mestre Marcos Fábio.

Marcos Fábio – A mensagem que eu quero deixar se divide em duas partes. A primeira: valorizem a literatura; valorizem o poder que a literatura pode ter em suas vidas: o poder da mensagem, da estética, da fruição em termos de beleza, de encantamento, de emoções que ela pode trazer. A segunda: procurem conhecer a literatura maranhense, nossos escritores e escritoras têm um talento enorme, escrevem em tantos gêneros, têm tanta coisa boa para mostrar e oferecer. Eu, há uns   anos, tenho me dedicado também à divulgação dos nossos autores e autoras, nas páginas da Academia Imperatrizense de Letras, no jornal O Progresso, daqui de Imperatriz, e também no site Região Tocantina, do qual sou editor-chefe. Muita gente boa já passou pelas páginas do jornal e pelo site. E muita gente boa ainda está para passar. O esforço é o de fazer com que essa literatura do Maranhão chegue ao maior número de pessoas possível. Não foi só na época da Athenas Brasileira que tínhamos bons autores e autoras, não. Ainda hoje temos. O que falta pra gente é divulgação!

 

 

Capa do livro de contos Baú [“Único e-book que lancei na Amazon, em 2023 – Marcos Fábio Belo Matos]

Contos de Marcos Fábio 

 O PIANO

 Todos os domingos eu ia religiosamente à igreja. Mas não ia pra orar nem pra louvar ao Senhor nem nada dessas coisas de palavra de Deus, não. Eu ia era pra ver ela tocar piano. Ela era uma visão do céu, parecida com aquelas imagens de anjo que eu via no meu livro de catecismo, quando era guri. E a música que ela tirava do piano era maravilhosa.

Eu chegava cedo na igreja e me sentava bem na frente de onde o piano ficava, esperando a hora dela chegar. Ela entrava, normalmente, uma meia hora antes, para passar as músicas. Trazia um caderninho, que um dia eu vi cheio de uns sinais estranhos, deviam ser as notas musicais que ela tocava. Sentava no banquinho, abria o piano, botava o caderninho numa espécie de prateleirinha, onde ele ficava penduradinho e dando exatamente para ela ver os sinais e tocar por eles. Tocava sem acompanhamento. Era uma igreja tradicional, muito silenciosa. Nada daqueles cultos cheios de guitarra, bateria, baixo que mais parecem um show de rock, com um pessoal tocando e cantando histericamente. O pastor tocava violino, de vez em quando, fazendo dueto com ela no piano – uma maravilha!

Verde, vermelho, amarelo, azul, lilás…Ela variava muito a cor do vestido. Mas sempre usava vestido, nunca calça nem saia nem outro tipo de roupa. Sempre vestido. Não devia ser norma da igreja, não, porque via muitas meninas lá de blusinha, jeans justinho, até de decote. Talvez fosse pelo fato dela tocar o piano, e o piano impor uma certa postura mais clássica, sei lá. Só sei que eu adorava quando aqueles vestidos entravam na nave da igreja, sentavam e dedilhavam uma música celestial, invadindo meus ouvidos e tomando conta do meu cérebro inteiro.

Na primeira vez, entrei na igreja por acaso. Tava em casa sem nada pra fazer, aí fui dar um passeio. Quando passava na frente do prédio, ouvi a música. Fiquei curioso, era uma música tão suave, tão diferente…Entrei e dei com ela passando os hinos, quase ninguém ainda tinha chegado. Sentei na frente dela e fiquei de olhar fixo nos dedos que deslizavam pelo piano. Nem piscava. Acho que ela percebeu, pois me olhou depois de ter passado as músicas e fez um cumprimento muito sutil, acenando com a cabeça e dando um risinho mínimo, mas eu percebi.

Fui muitas vezes à igreja, sempre na esperança de que ela nunca faltasse. E ela nunca faltou enquanto eu morei na cidade, vários anos. Mas um dia eu voltei lá pra rever uns parentes, fui ao culto e não encontrei mais ela. Não quis perguntar nada, porque não conhecia ninguém na igreja, frequentei todos aqueles anos como um desconhecido e ninguém se importou de saber nem o meu nome. Melhor assim. O piano ainda estava lá, mas só de decoração, nenhum som. Agora tem um cara tocando violão, ainda bem que não é uma daquelas bandas que ficam se esgoelando pra ver se Jesus ouve lá do céu. O pastor também mudou, agora é um mais novinho. Assisti só a metade do culto e fui embora antes de tirarem a oferta.

 

Moça ao piano – Imagem gerada por IA [prompt: AA]

 

AQUELA XÍCARA VERDE MUSGO

Nada tem de especial e tem tudo de especial.

Era essa a resposta que Tadeu sempre dava para quem perguntasse por que aquela xícara não era jogada fora. Mas não explicava o motivo. Afinal, era uma xícara pequena, a asa já tinha quebrado, o verde meio que perdeu o viço, havia uma lasca na borda. Tinha tudo para ser jogada fora, mas resistia na cozinha onze todo aquele tempo.

Aquela xícara verde musgo era o seu amuleto. Pra onde ele ia, ela ia junto. Quando foi para o Amazonas, a serviço da empresa de engenharia em que trabalhou dois anos, como gerente, ela foi na bagagem, metida entre as roupas, dentro de duas meias grossas. Resistiu. Voltou dois anos depois para São Luís, pra casa dos pais junto com ele, até rumar, de novo, desta vez para o sul, Bento Gonçalves, para mais um trabalho por temporada. Tadeu gostava dessa vida nômade, um tempo em cada lugar, uns anos em cada clima, ora frio, ora vento, ora calor. E ficava mais feliz ainda de poder levar sua xícara da sorte.

Ela quebrou a asa em casa mesmo, num acidente bobo, em Santa Catarina. Ele foi lavar e ela escorregou e caiu dentro da cuba. A asa não partiu na hora, ficou apenas trincada. Mas assim que ele foi secar, a asa caiu. Ele ficou puto, berrou um palavrão, pensou em colar mas achou que não daria certo. Abriu a tampa da lixeira acionando com o pé e jogou a asinha lá. Depois passou o dedo pela borda, como a pedir desculpas, e guardou-a.

Foi Bárbara quem deu para ele. Foi dela que ele ouviu, quando ainda tinha 18 anos: “Essa xicrinha é para você tomar seu cafezinho e lembrar de mim, todo dia. No dia em que ela quebrar, nosso amor quebra junto”. Ele recebeu dela na cama, na república em que morava com mais dois estudantes, o pai o pôs na capital para estudar e ser alguém na vida, já que, no interior, ele estaria condenado a ser comerciário – no máximo, pequeno comerciante, como o pai. Na capital, estudado, ele poderia ser alguém melhor.

Bárbara também era do interior e estava na capital pelo mesmo motivo. Fazia curso de Enfermagem e o conheceu numa festa de calouros. Ela era mais velha que ele, dois anos mais velha, e já estava no 3º. período quando ele entrou para fazer Administração de Empresas na estadual. Ela fazia na federal, mas sempre estava pelas calouradas. Dizia que as festinhas dos calouros eram animadas e boas pra pegar “neném de fralda”.

Quando Tadeu viu aquela moça meio aloirada, com aquele vestido azul, cheio de umas estampas bonitas, que olhava para ele e acenava com um gesto de brinde com a cerveja, ele resolveu chegar mais perto. Chegou, perguntou o nome dela e a conversa se estendeu pela noite toda. Terminou às cinco da manhã, com um amasso, um belo amasso na porta da quitinete em que ela morava com uma amiga.

Dois anos os dois namoraram. Bárbara lhe deu a xícara no aniversário de um ano de namoro, porque Tadeu amava tomar café. Ele dizia que o café era o Lexotan dele. Ou a endorfina, a depender da ocasião. Ele recebeu o presente, emocionado, não sabia o que era porque ela o pôs numa caixa de sapato, para disfarçar. Quando abriu e viu a xícara, Tadeu deu um risinho de felicidade e nela um beijo amoroso e agradecido.

A xícara durou mais que o amor. Quando terminou a graduação, Bárbara recebeu um convite para trabalhar no Ceará, em Tianguá. Tadeu estava no 6º. período. Ainda cogitou trancar o curso e ir com ela, mas ela não concordou. Ficariam a distância, alimentando o amor, dariam um jeito de resistir.

Não resistiu. Oito meses depois que ela foi, o romance acabou. Os contatos foram rareando, as obrigações de ambos foram pedindo mais atenção e algumas situações de romance foram aparecendo. No fim, ambos concordaram que era melhor pôr fim àquilo e seguir as vidas.

Mas Tadeu nunca a esqueceu. Rasgou os cartões que recebeu; apagou as fotos das redes sociais; cortou relações virtuais; deixou enfim de ter contato e lembranças. Só não se livrou da xícara. Para onde ele ia – e ele foi para muitos lugares, muitas vezes, chegou a mudar de estado duas vezes no mesmo ano – levava-a. A xícara era seu vínculo com Bárbara. Uma presença-ausência que ele fazia questão de manter.

Margarete não sabia da história sentimental da xícara, mas sabia do apreço do patrão por aquela coisinha verde musgo desquarado. Por isso ficou triste e apreensiva, quando ela caiu no chão e se espatifou, escorregando dos dedos cheios de espuma de sabão. Juntou todos os cacos, esperou “seu Tadeu” chegar do serviço aquele dia (ela sempre saía antes de ele chegar), explicou a situação, pediu imensas desculpas e não quis receber a diária. Ele disse que não era certo, que “essas coisas acontecem, deixa de besteira, Margarete!”. Colocou o dinheiro na mão dela e se despediu.

Margarete não viu a cara triste que Tadeu fez, abrindo a tampa da lixeira com o pé e jogando os cacos da xícara fora. Nem o suspiro que ele deu, quando a tampa se fechou.

“Já estava mesmo na hora”, ele disse, num sussurro quase inaudível. Mas ele ouviu, e apenas ele precisava ouvir.

 

[Marcos Fábio Belo Matos]

 

 

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PAULO RODRIGUES, o entrevistador, é poeta e jornalista, autor de Cordilheira (Patuá, 2024), entre outros livros importantes e premiados.