OS SAPATOS DE
FRANCISCO
Sempre há os que se engatam nos tapetes,
se engasgam nas baixelas e acepipes.
Mas a nós tocou olhar os que se arrastam
por um trocado, um níquel, uma moeda.
É preciso deixar-se esmigalhar
por essa dor que esmaga os que trafegam
pelas margens do mundo, pelas rinhas
das ruas que fustigam quanto apinham.
Há meninos sem rumos nos sinais.
Há meninas vendendo-se, atrás
de um pequenino grão de coisa alguma.
Que Lhe dirás então, que mostrarás?
Teus sapatos tão sujos desses tais
que o mundo sequer nota, e que Ele ama.
II
Que custo há no suor dos que carregam
o peso dos que comem bem nas festas?
O preço dos que à noite apenas gestam
os litros de suor, sal das refregas?
Não há lugar pra dor nos gabinetes.
Tudo cheira a Chanel e a sabonetes.
A fome mora além, nas cercanias.
Lá onde o pão não vai, roncam vazias
as barrigas sem fundo das crianças.
Preferem um sanduíche a uma esperança.
Acham melhor comer do que brincar,
pois não há como correr sem almoçar.
Por bagas de salários mastigamos
as promessas sem flor dos que nos domam.
E vamos empurrando o nosso coma
atrás de um dia mais que nem galgamos.
Lá onde o céu não chega e o chão é lama,
é lá que o Amor está, lá nos reclama.
[Viriato Gaspar
28/4/2025]

Viriato Gaspar é poeta brasileiro/maranhense, autor de Manhã Portátil (Sioge, 1984)… e Fragmuitos de Mim (Penalux/Litteralux, 2023), entre outros.

Neste poema a sensibilidade de Viriato mais aguçada do que nunca. Mesmo falando da pobreza de muitos, a beleza do poema se sobressai.
De fato, Silvana, um poema lindo, tocante e lapidado, como é característico da poética de V. Gaspar, e que une toda uma comunidade humana, católica ou não.
Viriato Gaspar, poeta do abismo social e das almas descalças, entrega em _Os sapatos de Francisco_ uma composição que é, ao mesmo tempo, elegia e profecia, denúncia e oração. Trata-se de um poema que pisa o chão da vida real com a leveza grave dos que sabem ver — e, por verem, não se permitem calar.
A escolha do título já é, em si, uma pista ética e estética: Francisco — o de Assis, o das chagas, o dos pobres — transforma-se em símbolo de uma espiritualidade radicalmente encarnada, que se mede não pelas vestes litúrgicas, mas pela poeira dos caminhos. “Teus sapatos tão sujos desses tais que o mundo sequer nota, e que Ele ama” é verso que resume, como um ícone esculpido, a espiritualidade do chão, essa que se suja de humanidade para redimir o humano.
A estrutura do poema se divide em dois momentos, como dois andares de uma mesma cruz: o primeiro, o olhar; o segundo, o custo. No primeiro, a voz poética reconhece a sina dos que “se arrastam por um níquel”, enquanto os salões do poder seguem engasgando-se com acepipes e tapetes. O tom é de solidariedade ferida, uma espécie de compaixão que já não basta a si mesma, pois exige mais do que ver — exige esmigalhar-se junto, verbo forte que exprime a urgência de uma entrega existencial.
No segundo momento, o tom ganha ares proféticos. A crítica é mordaz e lírica, dirigida à esterilidade moral dos “gabinetes” onde “tudo cheira a Chanel e a sabonetes”. Viriato rompe com qualquer romantização da pobreza: “preferem um sanduíche a uma esperança” é o tipo de verso que desestabiliza a retórica piedosa e impõe a crueza das escolhas cotidianas de quem vive em estado de urgência. A fome não espera abstrações.
Formalmente, o poema alia ritmo cadenciado a uma linguagem clara e precisa, que não teme o uso de imagens contundentes. Há algo de João Cabral em sua secura expressiva, mas também um lirismo compassivo que lembra Drummond quando se debruça sobre os “anjos tortos” da cidade.
O último terceto é um fecho de ouro e barro: “Lá onde o céu não chega e o chão é lama, / é lá que o Amor está, lá nos reclama.” Trata-se, talvez, da mais bela síntese da teologia poética que o texto propõe: não há redenção fora da lama, porque é nela que germina o clamor do Amor com letra maiúscula — esse que não se oculta em dogmas nem se refugia em templos assépticos.
Os sapatos de Francisco é, pois, um poema que não se lê impunemente. Ele convoca. Ele interroga. Ele suja nossos sapatos, e nos faz perguntar se há, de fato, caminho para Deus que não atravesse a sarjeta dos homens.
Um poema de sentimentos e sensibilidade com a fome dos semelhantes, não tão somente das crianças e parte da sociedade brasileira, mas da humanidade que as dores das guerras e a impácia do poder dos homens, que sentam no trono e se deleitam com o dinheiro público, e mil Papas Franciscos não conseguem fazer as mudanças que desejam através das suas enciclas. Parabéns ao poeta Viriato Gaspar pela sacudida através da sua inquietação poética.