Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Foto: Antoine Mekary – ALETEIA, pt.aleteia.org, fundo removido.

OS SAPATOS DE FRANCISCO – Poema inédito de Viriato Gaspar

OS SAPATOS DE

FRANCISCO

 

Sempre há os que se engatam nos tapetes,
se engasgam nas baixelas e acepipes.
Mas a nós tocou olhar os que se arrastam
por um trocado, um níquel, uma moeda.
É preciso deixar-se esmigalhar
por essa dor que esmaga os que trafegam
pelas margens do mundo, pelas rinhas
das ruas que fustigam quanto apinham.
Há meninos sem rumos nos sinais.
Há meninas vendendo-se, atrás
de um pequenino grão de coisa alguma.
Que Lhe dirás então, que mostrarás?
Teus sapatos tão sujos desses tais
que o mundo sequer nota, e que Ele ama.

 

II

 

Que custo há no suor dos que carregam
o peso dos que comem bem nas festas?
O preço dos que à noite apenas gestam
os litros de suor, sal das refregas?
Não há lugar pra dor nos gabinetes.
Tudo cheira a Chanel e a sabonetes.
A fome mora além, nas cercanias.
Lá onde o pão não vai, roncam vazias
as barrigas sem fundo das crianças.
Preferem um sanduíche a uma esperança.
Acham melhor comer do que brincar,
pois não há como correr sem almoçar.
Por bagas de salários mastigamos
as promessas sem flor dos que nos domam.
E vamos empurrando o nosso coma
atrás de um dia mais que nem galgamos.
Lá onde o céu não chega e o chão é lama,
é lá que o Amor está, lá nos reclama.

 

 

[Viriato Gaspar
28/4/2025]

 

 

 

Viriato Gaspar é poeta brasileiro/maranhense, autor de Manhã Portátil (Sioge, 1984)…  e Fragmuitos de Mim (Penalux/Litteralux, 2023), entre outros.