Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Fonte: thiagosurian.wordpress.com

OS SAPATOS DE FRANCISCO – um olhar de César Borralho sobre o poema de Viriato Gaspar

César Borralho

 

Viriato Gaspar, poeta do abismo social e das almas descalças, entrega em Os sapatos de Francisco  uma composição que é, ao mesmo tempo, elegia e profecia, denúncia e oração. Trata-se de um poema que pisa o chão da vida real com a leveza grave dos que sabem ver — e, por verem, não se permitem calar.

A escolha do título já é, em si, uma pista ética e estética: Francisco — o de Assis, o das chagas, o dos pobres — transforma-se em símbolo de uma espiritualidade radicalmente encarnada, que se mede não pelas vestes litúrgicas, mas pela poeira dos caminhos. “Teus sapatos tão sujos desses tais que o mundo sequer nota, e que Ele ama” é verso que resume, como um ícone esculpido, a espiritualidade do chão, essa que se suja de humanidade para redimir o humano.

A estrutura do poema se divide em dois momentos, como dois andares de uma mesma cruz: o primeiro, o olhar; o segundo, o custo. No primeiro, a voz poética reconhece a sina dos que “se arrastam por um níquel”, enquanto os salões do poder seguem engasgando-se com acepipes e tapetes. O tom é de solidariedade ferida, uma espécie de compaixão que já não basta a si mesma, pois exige mais do que ver — exige esmigalhar-se junto, verbo forte que exprime a urgência de uma entrega existencial. No segundo momento, o tom ganha ares proféticos. A crítica é mordaz e lírica, dirigida à esterilidade moral dos “gabinetes” onde “tudo cheira a Chanel e a sabonetes”. Viriato rompe com qualquer romantização da pobreza: “preferem um sanduíche a uma esperança” é o tipo de verso que desestabiliza a retórica piedosa e impõe a crueza das escolhas cotidianas de quem vive em estado de urgência. A fome não espera abstrações.

Formalmente, o poema alia ritmo cadenciado a uma linguagem clara e precisa, que não teme o uso de imagens contundentes. Há algo de João Cabral em sua secura expressiva, mas também um lirismo compassivo que lembra Drummond quando se debruça sobre os “anjos tortos” da cidade.

O último terceto é um fecho de ouro e barro: “Lá onde o céu não chega e o chão é lama, / é lá que o Amor está, lá nos reclama.” Trata-se, talvez, da mais bela síntese da teologia poética que o texto propõe: não há redenção fora da lama, porque é nela que germina o clamor do Amor com letra maiúscula — esse que não se oculta em dogmas nem se refugia em templos assépticos.

Os sapatos de Francisco é, pois, um poema que não se lê impunemente. Ele convoca. Ele interroga. Ele suja nossos sapatos, e nos faz perguntar se há, de fato, caminho para Deus que não atravesse a sarjeta dos homens.

 

 

 

 

César Borralho é poeta, pesquisador e professor de Filosofia.