José Neres
(Especial para o Sacada Literária)
A ONIPRESENÇA
DE
VIRIATO GASPAR
Os livros são, de certa forma, refúgios silenciosos de nossas memórias, fragmentos da história tanto de quem os escreveu quanto de quem os leu. Ao mergulhar nas páginas de um livro, o leitor passa a sentir-se presente em momentos que não viveu e recebe uma permissão par dialogar com pessoas que possivelmente nem mesmo já estejam entre nós.
Os escritores são pessoas tão iluminadas que conseguem permanecer mesmo quando se vão. Suas palavras deixam rastros, perfumes e novidades que permitem rastrear seus passos e conhecer parte de seus pensamentos, gostos e a anseios. Tornam-se onipresentes mesmo na inevitável eterna ausência física.

Viriato Gaspar (1952-2025) é uma dessas figuras iluminadas que permanecerá na memória de seus leitores/admiradores enquanto houver alguém escrevendo ou falando sobre arte, sobre poesia.
Navegando com elegância pelas profundas águas das palavras, esse poeta maranhense participou de antologias, publicou livros individuais e, desde o início da década de 1970, contribuiu para o engrandecimento das letras brasileiras.
Habilidoso no manejo com as palavras, Viriato Gaspar, demonstrava uma predileção pelos sonetos elaborados em redondinha maior ou menor, porém trafegava com desenvoltura e elegância por outras formas e métricas, recorrendo inclusive aos versos livres quando havia a necessidade de assim se expressar. Ele era um cultor das formas, mas não um prisioneiro delas.
Os livros de Viriato Gaspar não foram obras do acaso. Eram, sim, trabalhos muito bem elaborados e cuidadosamente planejados, a fim de que todos os versos atingissem as esferas significativas almejadas pelo autor. E isso ocorre mesmo quando aparentemente o livro ainda estivesse por ser concluído, como aconteceu com Onipresença (Sioge, 1986, 42 pág.) e que foi publicado pelo Plano Editorial Maranhão Sobrinho.
O livro conta apenas com 36 sonetos, já que, segundo o editor Francisco Alves Coelho, os demais poemas que comporiam o volume chegaram depois, em virtude de problemas de saúde na família de Viriato Gaspar. Na orelha do livro, há a promessa de uma segunda edição com os demais textos.
Mesmo curto, Onipresença não deixa de ser um livro denso. Nele, as conceituações propostas não abarcam os questionamentos feitos ou sugeridos. É um livro de inquietações, de dúvidas e de questionamentos constantes. Nele, podemos encontrar a ideia de que:
a tarde é pura trapaça
de escuridões multicores,
em meio à vida que passa
nos espinhando com flores. (pág. 17)
Pouco mais adiante, o leitor se depara com uma quebra de conceito do senso comum que coloca o domingo como dia de repouso para o trabalhador. O Poeta não concorda com essa ideia e defende a tese de que o:
domingo é apenas o espaço
de transferir a semana
para além do tempo escasso
de coisa cotidiana.
domingo é o ócio do braço
que batalhou na gincana
da vida feita o cansaço
da própria existência humana.
Viriato Gaspar era um questionador nato que gostava de desestabilizar a insana aparente lógica das coisas. Mesmo em um tema tão revisitado pela literatura – como é o caso do amor – ele levantava hipóteses que saiam do convencional esperado pela maioria dos leitores. Desse modo, em Onipresença:
o amor é mera morfina
aspirina de vivência
com que o homem imagina
curar a dor da existência. (pág. 23)
Porém, conforme foi dito anteriormente, esse é um livro de questionamentos sem busca de respostas exatas. O Poeta tinha consciência de que a elaboração das perguntas poderia ser mais importante do que a busca das possíveis soluções para os problemas levantados. Dessa forma, diante de uma realidade tacocrática, na qual a velocidade das ações paralisa até mesmo as possibilidades de desenvolver um pensamento reflexivo, ele (se) pergunta:
por que corre tanto o homem,
apressado, no seu carro,
que passa rápido e some
como a brasa de um cigarro?
deve ser motivo forte,
pois correm tantos, aos milhares,
como se tivessem morte
grudada aos seus calcanhares. (pág. 35)
Contudo, além de trazer indagações, Viriato Gaspar também atentou para a única certeza que temos, a constante proximidade da Morte, a verdadeira “Onipresença” que cerca todos os indivíduos a cada suspiro. O livro, desde as epígrafes até seu desfecho, é centrado na presença da tarde. Mas não apenas a tarde como período medido em horas e minutos, mas sim a ideia da tarde como momento de transição entre o dia (metáfora da vida) e a noite (simbologia recorrente da morte).
O livro como um todo pode ser lido como um longo poema que começa com a presença do calor emanado pela tarde e culmina com a ideia de que
a tarde é mansa, mas rouba
as horas que a gente invente
para fugirmos de nós,
nessa doçura salobra
de se agarrar ao presente
que nos escapa, veloz. (pág. 40)
Como questionamento final, o poeta pergunta – sem necessidade de procurar por resposta – sobre o destino físico do homem. O que sobrará depois que a tarde chegar a seu fim a noite estender seus braços sobre nós?
de que será feita
a carne do homem,
Se a morte o espreita
e os vermes o comem?
(…)
de que serão feitos
seus sonhos, seus feitos,
que os anos consome? (pág. 38)
Onipresença é um livro que traz como conteúdo a própria essência humana questionada em forma de sonetos. O livro é também uma prova de que Viriato Gaspar e sua obra estarão sempre (oni)presentes na memória de quem admira a vida e a boa poesia.

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José Neres é escritor e professor de Literatura.

O Sacada Literária reafirma, com textos como este, sua vocação mais nobre: ser um espaço de memória, reflexão e cuidado com a palavra. Em tempos de leitura apressada e opiniões instantâneas, o portal escolhe a permanência, o silêncio fecundo e a escuta atenta da literatura que resiste ao desgaste do tempo. O ensaio de José Neres revela rara sensibilidade crítica. Há equilíbrio entre rigor literário e delicadeza afetiva, pois a leitura não disseca o poema, mas o acompanha, respeitando seus ritmos, suas inquietações e suas zonas de sombra. O texto compreende que certas obras não pedem conclusões fechadas, mas convivência prolongada, e lê Viriato Gaspar com inteligência e respeito profundo pela poesia. E Viriato Gaspar surge como aquilo que sempre foi: um poeta da forma e da fissura, do soneto disciplinado e da pergunta aberta. Texto, autor e homenageado se encontram num mesmo gesto de fidelidade à literatura. O leitor, ao final, tem a sensação rara de que a boa poesia, quando bem lida e bem apresentada, segue sendo uma das formas mais altas de resistência humana.