RAFAEL OLIVEIRA
LINGUAGEM E TRANSGRESSÃO
o erotismo na poesia de Neurivan Sousa
Em literatura, o erotismo configura-se como uma equação estética e linguística que amplia as fronteiras entre desejo e arte. Como objeto de natureza literária, carrega o peso de tabus culturais, sociais e religiosos, desafiando os limites da criação. Obras como A História do Olho, de Georges Bataille, O Amante de Lady Chatterley, de D.H. Lawrence, e O Rol das Faces, de Eliane Morais, transfiguram o erotismo em potência estético-simbólica na forma narrativa. Na poesia, autoras como Gilka Machado, Hilda Hilst, Olga Savary, Adélia Prado e Dilercy Adler eliminam filtros morais e desvelam o erotismo como uma força discursiva e sensível, articulando técnica, imaginação e emoção.
É nesse contexto que se insere Flor de malagueta, de Neurivan Sousa — obra que ocupa lugar especial na temática da eroticidade na poesia. Ultrapassa, por isso, o expediente decorativo e se torna linguagem em estado de transgressão e vertigem. Lançado em 2023 pela Editora Patuá e laureado pela Academia Ludovicense de Letras, Flor de malagueta desloca as expectativas tradicionais sobre a representação do desejo, recusando modelos romantizados ou fórmulas explícitas já, de certa forma, exauridas.

Flor de malagueta não se vincula ao erotismo vulgar, pois atinge a dimensão do espetáculo linguístico. Poemas como Gozo Mútuo e Teu Decote pertencem a um sistema semiótico em que o corpo é palco — não apenas objeto de contemplação, mas matéria poética integrada à performance do texto. Versos como “leio a bula / das tuas nádegas / como se fosse / escrita grega” exemplificam essa operação em que o corpo é, simultaneamente, signo e sentido. Neurivan promove um jogo de deslocamentos — entre voyeurismo e desejo —, no qual o leitor transita por imagens que convertem o desejo em metáfora, instaurando uma poética em que corpo e linguagem se tornam cúmplices de uma mesma força criadora.
A construção sinestésico-simbólica da obra é um de seus traços mais marcantes. Em versos como “deslizo sobre tua pele / os dedos de Beethoven / na ressonância do íntimo”, o erotismo, amalgamado à textura poética, se materializa em tato, som e palavra. Trata-se não apenas do corpo, mas da linguagem que se torna corpo textual — superfície sensível e visual. Uma espécie de tríplice enlace entre poesia, poeta e leitor. Evita-se, assim, a vulgaridade, justamente por expor o corpo através de sua elegância estética e carga sensorial.
Se a sutileza sinestésica atua pela insinuação, em “Medusa” a exposição se intensifica pelo viés do perigo. O erotismo articula-se entre o fascínio e a ameaça, como se observa em: “desejo a naja / que reside / em sua garganta […] se for / para me saciar / não me devore”. A imagem da serpente, associada à figura mitológica, instaura a tensão simbólica de um desejo que, enquanto seduz, assombra e encanta.
Em A Dupla Chama: Amor e Erotismo, Octavio Paz afirma que “o erotismo é uma poética corporal” e que “a poesia é uma erótica verbal”. Neurivan Sousa sistematiza essa equação em: erotismo/corpo/verbo. Nessa sistematização, a carne se faz verbo, e o verbo, carne. Em versos como “minha língua – ferramenta – só reconhece a sua habilidade / quando pratica a arte de deixar nos teus olhos / uma chama apagada”, observa-se que o corpo é dispositivo de linguagem, lugar onde se inscrevem desejo, sentido e experiência estética. O erotismo, portanto, não é mera temática, mas força estruturante que desloca limites, tensiona fronteiras e reafirma a poesia como espaço privilegiado da transgressão.
Assim, Flor de malagueta consolida Neurivan Sousa como uma das vozes mais relevantes da poesia maranhense contemporânea. Ao conferir ao erótico a estética da sensualidade, o poeta amplia os limites da expressão poética. O erotismo torna-se, então, categoria essencial na arte da palavra, onde desejo e linguagem se fundem em prazer contínuo e transgressor, permitindo que os poemas, a cada leitura, fecundem a imaginação do leitor.

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Rafael Oliveira
Médico e membro da SOBRAMES-MA

Meus aplausos ao crítico literário Rafael Oliveira, quanto a análise da forma poética “Flor de malagueta” de Neurivan Sousa. Realmente a construção sinestésica permeia por toda a obra e o erotismo poético desperta a imaginação do leitor.