Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Paulo Rodrigues, poeta - foto: divulgação

Poemas de PAULO RODRIGUES: a vida sinaliza um PROTESTO

 

“Vocês pensam que é mole viver

a enxaguar

a nossa roupa branca nos artigos?”

[ Vladimir Maiakóvski ]

 

Moinhos

Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Acadêmico de Direito. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).

Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório.

Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia.

Conquistou o primeiro lugar no Prêmio Marcus Vinicius Quiroga de Poesia da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro em 2024, com o livro inédito Moinhos.

É membro da Academia Caxiense de Letras. 

 e-mail: paulo.rodrigues12512@gmail.com

 

 

POEMAS DE PAULO RODRIGUES:

A VIDA SINALIZA UM PROTESTO

  

 

O CORAÇÃO NÃO PODE CEGAR

 

É só um desenho

esquecido na gaveta

da escrivaninha, tem poeira,

restos de lápis de cor,

um contrato de locação

e um livro de Octávio Paz

cochilando sobre ele.

 

É só um desenho;

os limites foram sacrificados

pela inflação,

balança comercial,

dólar

(a tesoura fez só o pelo sinal).

 

Não carrega a placa

do Profeta Gentileza.

 

É só um desenho:

 

não é um colírio,

a Fortaleza de San Carlos de La Cabaña,

o Memorial da Balaiada,

tão pouco a Praia dos Carneiros,

em Pernambuco.

 

É só um desenho.

(só isso).

 

 

MARIA DA PENHA OU ISABELLE ADJANIR

 

Quando eu disser não,

é não.

 

Não acelere o carro,

não mande flores,

não desenhe coração

nas paredes.

 

Não é não.

Não insista, não provoque Sísifo,

com subidas intermináveis.

 

O amor não quer aeróbica.

Deita no chão

e se esfrega.

 

Quando eu disser não

é não.

 

O motel secou,

as unhas têm freios,

a carroça atravessa o boi.

 

Se insistir

acabou o sereno, é verão.

 

levo uma faca,

na cintura.

 

 

ROLIÚDE

 

Sentava-se na esquina,

de costas pra rua.

 

A mesma camisa,

a mesma calça,

os mesmos sapatos.

 

Era um homem

invisível.

 

Catava feijão.

 

Nunca ouviu falar

em mais-valia.

 

Sonhou com um barranco,

na Serra Pelada.

 

Curou-se da doença.

 

Não do feijão.

 

 

MONUMENTO DA CINELÂNDIA

  

Jaime Oliveira é artista plástico,

faz colagens com discos,

que encontra nas ruas do Rio de Janeiro.

 

Oferece

o Cartola tomando café

e cantando para mim.

 

Eu puxo a cadeira,

eles sentam ao meu lado.

 

Fazia vinte anos que ninguém

conversava com o Jaime.

 

Uma lágrima

(como polpa de maracujá)

escorreu na gola da camisa.

 

Nos abraçamos

como se entregássemos o morto,

na porta do cemitério.             

 

 

AS MANHÃS NÃO TEM OFERTAS, NEM PROMOÇÃO

 

os filhos olham para a escada

há uma lesão na luz,

de todos eles.

 

o mais velho desce primeiro

e pergunta:

apago as velas

ou quebro o oratório do quarto?

 

os outros ajoelharam;

amarraram as camisas,

seguram o terço da mãe.

 

 

CAFÉ PRETO

 

as mulheres juntavam

cuidados e saudades,

nas fotos antigas.

 

dois meninos brincavam

no meio fio, pintado de cal;

escoltados pelos olhos

das formigas.

 

os vingadores desceram

do carro atirando nos

inimigos, que estavam

na rua.

 

os meninos tiveram as camisas

atravessadas pelas balas.

 

a ambição escorrega

nas lágrimas, de uma das mães.

 

a outra ficou no chão

olhando para o sangue

(na asa da xícara).

 

 

MISTÉRIOS

 

a Travessa do Tamarineiro

me invade

como o sol invade

o broto, antes da flor.

 

como invade a explosão

antes do cheiro do caju;

a nódoa aberta

na fotografia da sala.

 

a Travessa do Tamarineiro

exala o cheiro forte

da vida.

 

eu sou o círculo

no lado avesso,

do abismo. 

 

 

EXTERMÍNIO

 

despeno

o céu,

arrancando

as andorinhas.

 

 

QUE VALE UM CÉU SEM ASAS?

  

meus irmãos da Guiné

de frases subnutridas, nos olham

como um baobá iluminado pela paz.

 

habitado por uma única palavra.

eu me faço infinitas perguntas.

 

onde está António Trabulo?

por que foi morar num mito Shaka Zulu?

onde esconderam a liberdade?

 

a liberdade mora na laje

de todas as favelas

e toda tarde ela empina um arco-íris.

 

 

SEGURANÇA PÚBLICA

 

O café esfria à minha frente.

 

Os olhos da mãe na tela da tevê

são tigres na madrugada, e buscam

os culpados.

 

Eu fico aflito.

 

Subo as escadarias da comunidade.

Ao meu lado, quatro cartuchos de bala.

 

Escuto todos os gritos.

As portas se fecham, as luzes se apagam.

Um muro cai.

 

O filho, de costas, na rua.

A mãe aos berros:

“A PM não respeita

a farda da escola”?

 

*

 

Escombros de Ninguém – Paulo Rodrigues

O Abrigo de Orfeu – Paulo Rodrigues
Cordilheira – Paulo Rodrigues
Uma interpretação para São Gregório – Paulo Rodrigues