Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Deborah R. Cordeiro, escritora - fonte: divulgação

QUEM CHEGA PRIMEIRO – Um conto de Deborah Cordeiro

QUEM CHEGA PRIMEIRO

 

Deborah R. Cordeiro

 

— Bonita essa fazenda, né? Meu avô cuida muito bem daqui. E o Seu Raimundo também. Ele é o caseiro, aquele lá meio estranho — disse Úrsula saindo do rio, passando a toalha felpuda no rosto fino e curioso. — De onde você é mesmo?

— Daqui de Garimpo — acocorada na beira do rio, Virgínia escondeu um pouco mais a cara entre as pernas flexionadas antes de responder com a língua desidratada.

— Nossa, aqui é quente, eu viveria nadando nesse rio. Por que não entra também?

— Não dá, não posso me molhar. Venho todo começo de manhã pra ajudar lá em casa. A cozinheira me dá um trocado.

Úrsula parou de enxugar o rosto. Fechou a boca numa linha fina e sem graça.

— Sim, eu sei que é… — disse Úrsula vazando o s pela fenda entre os dentes no meio da cara, enquanto encarava os dedos enrugados. Segurou a novidade no estômago. — Eu já sabia que você era, eu acho que já te vi. — Enrolou o cabelo com cheiro de barro e limo, antes de continuar. — Trabalho lá em casa também… arrumo a bagunça do quarto, às vezes. E ninguém nem me paga nada — completou a meia-piada e soltou o ar preso num sorriso afogado.

— Mas você não precisa continuar a fazer esse trabalho nas férias, né? Ninguém trabalha, não precisa! — revirou os olhos, continuou: — Chatice trabalhar, não acha uma chatice? Vem comigo em segredo, eu pago um trocado pra você depois no fim do dia.

Puxou Virgínia pelo braço que sorriu com a boca aberta, saboreando a palavra chatice e a possibilidade de dizê-la.

Virgínia correu na frente, pensando em voltar. Foi galope a galope, pegando vento na cara, pisando com o pé calado na mata. Não deixaria rastros ou testemunhas. Seguiu na dianteira se desviando dos olhares da nova amiga ali logo atrás, tão bonita e rosa, e saudável. As têmporas de Virgínia, com veias estouradas, também corriam junto no fluxo de sangue grosso, roxo-graxa rompendo as tubulações das bochechas.

Indo longe demais, freou o ritmo de se mover mais rápido do que pensar. Diminuiu o espaço entre os passos e a distância entre ambas, sentindo o sol da manhã furando a sombra da copa das árvores. Úrsula passou por Virgínia e parou a maratona batendo triunfante no meio do tronco de um cajueiro que fazia divisa entre a mata cerrada e a clareira: — Bati!, gritava a menina da cidade que ainda cheirava a café torrado na boca.

Virgínia, com o hálito vazio, levantou os olhos dos pés desacelerados e a encarou. As duas sabiam quem chegaria primeiro. Sabiam disso secretamente. Ainda assim, deram-se um abraço de lado, tocando os ombros que davam na mesma altura, enquanto se despediam. Embrulhada com a toalha, Úrsula seguiu pela estradinha de pedra até a babá que lhe esperava na porta da casa.

A outra, enxugou o suor e seguiu.

 

*

 

Deborah R. Cordeiro, escritora maranhense, nasceu na cidade de São Luís Maranhão, em 1984. É mãe de Dimitri, Theo e Amelie, professora formada em Pedagogia pela UFMA, Mestra pela Unifesspa, Produtora Cultural no ramo de Saraus e Eventos Lítero-Musicais. Iniciou a carreira de escritora em 2023, com o livro de poemas intitulado Histérica: poesia de quem sobreviveu mulher. Em 2024, publicou o livro de poesia Puérpera: de mim, da letra e do que não foi dito, que foi lançado na FLIP deste mesmo ano e também na FELIS (Feira do Livro de São Luís).