Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

ENTRE LINHAS E AGULHAS: escrever é costurar poesia no frágil tecido humano

 

Evilásio Júnior

Especial para o Sacada

 

Há relações entre a linguagem e as lavadeiras de roupa. Graciliano Ramos foi muito assertivo ao fazer tal relação com o processo de escrita. Há uma tendência de se debruçar sobre a arte literária em nosso tempo, apontando a literatura como a palavra trabalhada artisticamente. Compreende-se esse processo apenas por uma perspectiva academicista, primando-se pelo conhecimento que vem dos espaços privilegiados de escrita, em detrimento de outras áreas da vida, como se não tivessem o mesmo rigor. Lembro aqui do labor das lavadeiras, das costureiras, pessoas que utilizam o corpo na feitura de seus trabalhos, fazendo também de seus ofícios uma forma de arte e sensibilidade.

Assim como o autor de Vidas Secas, escritor dono de uma linguagem substantiva, dura, seca, recorreu à figura das lavadeiras para mostrar o enxugamento do texto, eu parto de um processo que me é mais familiar: a costura. Muito antes de me fazer poeta (ainda me encontro em processo para isso), sempre gostei de observar minha mãe, Dona Lusia, construindo suas obras de arte.

A costura não é algo realizado apenas com o corpo, precisa de uma artesania. Não se faz roupa com qualquer tecido, há uma preocupação com a beleza do material, há um olhar sensível para o corpo, há uma métrica, há uma estética, há poesia. O olhar da costureira, assim como o olhar do poeta, busca vestir a nudez humana. Algo que vai além de um mero produto, de um artefato para ficar exposto em uma determinada vitrine, pronto para ser levado e usado.

Foi com minha mãe que aprendi a costurar a vida. Aprendi que sou feito de um tecido frágil, que, em alguns momentos, algo em mim será feito de retalhos, talhos, cortes, porém eu posso costurar os meus pedaços e me refazer. Enquanto a costureira faz a sua arte com linhas, agulhas, tecidos, o poeta pesponta a existência usando linhas imaginárias. Isso, contudo, não impede que a poesia seja sentida em todo o corpo, costurando os rasgos que a vida provocou em nós.

Acredito que a poesia nos veste de humanidade ainda que muitos questionem esse fato. Eu não posso fazer uma relação de minha escrita com algo distante de mim, que não faz parte de minha forma de ser, de ver e de compreender o mundo e as coisas à minha volta. A sala de costura da casa de minha mãe é um espaço criativo, de cuidado, de aprendizagem. Lá aprendi a costurar as minhas feridas e a minha escrita.

Quando alinhavo um texto, um pensamento, sei que as mãos de minha mãe também estão ali conduzindo as linhas da minha forma de pensar, de escrever, de falar… Não sei fazer roupas, mas observando a minha mãe em mais de 50 anos de costureira, peguei os fios imaginários e os costurei com a sensibilidade, mostrando que o poeta é aquele que saber costurar em si e no outro, com os fios da humanidade.

 

Ícone de silhueta de agulha e linha ilustração vetorial logotipo  personalizado com símbolo de agulha e curvas | Vetor Premium

 

 

Evilásio Júnior, nascido em Santa Inês/MA, em 1984, é ativista cultural, escritor e poeta. Secretário da Universidade do Brasil Polo Santa Inês, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão, especialista em Literatura e Ensino pela Universidade Estadual do Maranhão, Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira pela Faculdade Integrada Instituto Souza.

É autor dos livros de poemas Pulsões de vida e morte, 2019, Antropologia da Terra, 2023 e Quando os tambores ancestrais pulsam nas retinas da noite, 2025.