Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Wanda Cunha, escritora e compositora - foto: divulgação

A potência crítica e formal do romance de WANDA CUNHA, “Retalhos”

Bioque Mesito

Especial para o Sacada Literária

 

 

Retalhos (2026), romance de Wanda Cunha

O romance Retalhos, de Wanda Cunha, organiza uma arquitetura narrativa que investiga modos contemporâneos de enunciação e memória e propõe uma rede de episódios que se recolhem e se redistribuem como nós de uma malha sensorial. Ao articular elementos do crime com práticas espirituais e a hipótese de mundos paralelos, a obra questiona a linearidade temporal e demonstra a plasticidade do vivido, mostrando como a experiência subjetiva se conecta a registros digitais que persistem e se transformam. Essa disposição rizomática convoca uma postura investigativa do leitor que reconhece a dispersão como forma legítima de conhecimento e exige uma leitura que reconstrua referências em movimento. As camadas textuais trabalham em correlação e produzem fricções onde sentidos se sobrepõem e se deslocam, criando zonas de dúvida e invenção interpretativa.

O romance inaugura um campo de reflexão sobre agência, rastros e produção de sentido em ecossistemas narrativos híbridos e propõe uma reorganização de categorias consolidadas como identidade, autoria e memória¹. A narrativa recusa a estrutura arborescente para abrir espaços onde a história e a lembrança se apresentam como arranjos instáveis, submetidos a recombinações; em zonas onde encontram-se vestígios criminais e rituais de sentido, a presença de arquivos digitais atua como catalisador de religações e de falsificações possíveis, o que altera a experiência temporal e transforma a cronologia em superfície de investigação. A opção formal do texto cria tensões que suscitam perguntas sobre quem tem autoridade para narrar e sobre como traços do passado circulam entre testemunho e manipulação; o leitor assume papel ativo de intérprete, que desenha itinerários de sentido e que testa a plasticidade das categorias de identidade e autoria; dessa maneira, a prosa convida a discutir práticas de memória, responsabilidade e as condições materiais da preservação do passado.

A escolha pela fragmentação transforma elementos dispersos em material para uma investigação que tem no leitor o agente responsável pela montagem de sentido. Episódios de crime e passagens espirituais dialogam com registros digitais e criam um arquivo que subverte a continuidade cronológica, ao oferecer múltiplas temporalidades. Ler exige articular conexões e experimentar hipóteses de relação entre fragmentos, sabendo que as interpretações serão temporárias e passíveis de revisão. Essa maneira de contar aproxima-se da renovação formal modernista e, simultaneamente, problematiza questões contemporâneas sobre memória e tecnologia. A leitura assume papel ativo e crítico e revela a contingência como princípio do conhecimento narrativo.

A composição narratorial transforma heterogeneidades em coesão mediante uma gravidade afetiva que orienta a sucessão de registros. Momentos de investigação criminal se entrelaçam com práticas ritualísticas e com descrições de aparelhos e sistemas digitais, e essas sobreposições remetem a exigências morais relativas à responsabilidade e à reparação. A gravidade afetiva opera como eixo ordenador que sustenta as variações de linguagem e que possibilita a emergência de sentidos complexos, preservando a inteligibilidade. Isso indica que a unidade estética se funda, sobretudo, em relações funcionais entre elementos temáticos e emocionais.

Janna funciona como ponto de articulação entre relatos íntimos e estruturas coletivas ao indicar que a experiência singular está imbricada em regimes políticos e tecnológicos de visibilidade. Sua atuação docente e sua escrita promovem enunciados que acolhem vozes marginalizadas e que tensionam narrativas normativas sobre culpa e responsabilidade. Ao ocupar posição de fragilidade e de agência, a personagem evidencia condições materiais que tornam vidas vulneráveis e, ao mesmo tempo, mostra práticas de cuidado e solidariedade que subvertem exclusões.

A leitura orientada por essa presença transforma memórias dispersas em arquivo crítico que interroga rotinas e procedimentos sociais e que mobiliza demandas de reparação²; mas recusar a condição de vítima configura uma tática discursiva que reposiciona a explicação da violência nos modos pelos quais se fala e se registra o sofrimento. Ao dar voz a si e a outras mulheres, a personagem cria enunciados que produzem conhecimento situado sobre precariedade e resistência. Narrar passa a ser uma operação de transformação em que a dor individual se converte em material crítico capaz de desafiar ordens e normas estabelecidas. A narrativa revela que a escrita pode ser instrumento de cuidado coletivo e de mobilização política e que nomear constitui o primeiro passo para reivindicações.

A personagem Janna permite refletir sobre a construção de subjetividades complexas, sem heroísmo e com compromisso reflexivo, enquanto suas ambivalências oferecem pistas para compreender como agir, estando sujeita a constrangimentos materiais e simbólicos. A tensão entre racionalidade e intuição aponta para a pluralidade de saberes que contribuem para repertórios de resistência e de sentido. Ao situar – se na interseção de hierarquias sociais, a personagem evidencia como opressões se somam e influenciam trajetórias e escolhas. Permanecer na escrita constitui para ela prática de afirmação e de preservação de memórias coletivas que se recusam ao apagamento.

A reconstituição de vozes apagadas transforma o romance em um dispositivo de invenção histórica que articula trajetórias pessoais a críticas sobre hierarquias raciais e de gênero e que desenha perfis de continuidade e de ruptura. Ao colocar em cena Dandara, Chica da Silva e Maria Firmina dos Reis, a narrativa evidencia a força da oralidade para conectar arquivos fragmentados e para subsidiar práticas de descolonização epistemológica. Dialogar com correntes que valorizam saberes afro-brasileiros confere legitimidade política à conversão da memória em instrumento de reconhecimento e de luta. Ler esse conjunto implica engajar – se em processos de reparação simbólica e de expansão de pertencimentos coletivos³. A obra ergue uma política da palavra ao devolver voz a mulheres que a tradição silenciou e ao recuperar camadas de existência que a historiografia oficial apagou. A narrativa articula fontes orais e materiais e reconstrói trajetórias dispersas para formar um arquivo que evidencia processos de exclusão e de resistência.

A reescrita empreendida pela obra transforma figuras historicamente silenciadas em sujeitos complexos e reconstrói os quadros de circunstância nos quais atuaram para sobreviver e cuidar. Ao reenquadrar Dandara, a narrativa atribui a ela dispositivos de estratégia, cuidado e desejo que rompem com leituras que a colocavam numa posição meramente de suporte. A releitura de Chica da Silva demonstra as articulações entre poder econômico e laços sociais que condicionavam as possibilidades de atuação de mulheres negras em uma sociedade escravocrata. O ato de retornar a essas vidas converte a leitura em prática política que possibilita novas formas de identificação e de ensino sobre o passado. Da convergência entre restituição e crítica nasce uma obra comprometida com a transformação simbólica.

A junção de mitologias ancestrais, cultos mediúnicos e hipóteses tecnológicas gera na narrativa uma malha onde o sagrado e o técnico se tocam e se modificam mutuamente. A noção de agenciamento ajuda a entender como memórias circulam em redes compostas por sujeitos humanos e dispositivos e como essas memórias podem ser tratadas ora como afeto, ora como dados. Esse tratamento coloca em relevo tensões entre a intenção de preservação e os riscos de instrumentalização que tornam experiências vulneráveis a formas de captura.

A obra questiona, assim, autoria, responsabilidade e escolhas sobre o que conservar na memória coletiva. Ler implica problematizar os limites entre o corpo que lembra e os sistemas que arquivam¹; a narrativa constrói uma topografia em que elementos sociais, técnicos e desejantes se conectam em agenciamentos que reconfiguram as fronteiras entre vida e arquivo e entre sentimento e registro. Operar nesta topografia exige atenção às assimetrias engendradas pelos próprios meios de preservação, quando estes selecionam, hierarquizam e tornam visíveis certos vestígios em detrimento de outros. A tensão entre a capacidade transformadora da técnica e a necessidade de humanização da experiência aponta para a urgência de práticas interpretativas que preservem a densidade relacional das vidas afetadas. A obra produtivamente tensiona teoria e experiência ao demonstrar que a responsabilidade sobre a memória é compartilhada entre narradores, leitores e infraestruturas e que qualquer projeto de preservação deve incorporar critérios éticos e políticos de justiça memorial⁴; e é nesse ponto que a obra por vezes desliza, mas sem prejudicar o contexto geral.

A contingência em que conceitos ocupam espaço dramático transforma certas sequências em passagens de demonstração, onde a dimensão performativa da cena é reduzida a suporte de um raciocínio explícito, o que evidencia um movimento de teorização que atravessa a escrita ficcional. Essa estratégia amplia o alcance crítico da narrativa ao disponibilizar instrumentos de leitura interna à própria obra e ao propor interpretações imediatas sobre seus temas, ao mesmo tempo em que impõe ao leitor a perda de imersão, quando as pessoas da história funcionam mais como enunciadoras do que como agentes encarnados. Ponderar esse efeito implica reconhecer que a literatura pode ser veículo de reflexão intensa e que tal intensidade nem sempre é compatível com a continuação do efeito dramático puro.

A narrativa articula memórias, mitos e dispositivos técnicos para explorar modos em que lembranças atravessam redes e reconfiguram existências pessoais e coletivas. Ao colocar rituais ao lado de procedimentos de armazenamento, a obra evidencia como memórias podem ser transformadas quando passam a ser tratadas como dados e como essa transformação repercute em identidades e laços sociais. Compreender esse arranjo exige ver tecnologia e cosmologia como coautoras de sentidos e exigir formas de governança que distribuam responsabilidades sobre preservação e acesso. A leitura crítica combina hermenêutica cultural e reflexão sobre infraestruturas para ponderar impactos sobre direitos e sobre práticas de cuidado comunitário.

A potência da obra decorre da tensão fecunda entre propósito ético e experimentação formal, porque a narrativa emprega artifícios ficcionais para desenhar as conexões entre racismo, misoginia e apagamento histórico. A costura de memórias pessoais, práticas ritualísticas e tecnologias de arquivo atua como gesto de rememoração que desloca interpretações oficiais e reabre o passado como campo de disputa. Ao operar dessa maneira, o romance confirma a capacidade da literatura de denunciar injustiças e de sugerir linhas de reparação e reconhecimento coletivo. O projeto ultrapassa a esfera estética ao conversar com correntes críticas que veem a escrita como ferramenta de esperança radical e de transformação social⁵.

A trama assume uma estética do retorno, em que a repetição funciona como ferramenta de crítica, e a história se mostra plural e revisável, enquanto o ato de nomear perpetradores e vítimas desfaz silenciamentos institucionais e ergue um arquivo vivo que exige respostas coletivas. Ler o romance com a noção de arché ajuda a ver a obra como proposta normativa que convoca responsabilidade social e que entende a reescrita do passado como procedimento reparador. A alternância entre luto e esperança confere ao texto um tom profético, porque cada retorno ao trauma abre possibilidade de refazer vínculos e de rasurar narrativas consolidadas. Logo, a obra ganha força ao unir diagnóstico ético e projeto transformador por meio de linguagem ficcional comprometida com a mobilização.

 

REFERÊNCIAS 

  1. DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, vol. 1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4103541/mod_resource/content/1/Deleuze%20Guattari%20Mil%20plateus%20vol%201.pdf
  1. BUTLER, Judith. Vidas Precárias: O Poder do Luto e da Violência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. https://www.autenticaeditora.com.br/livro/vidas-precarias/
  1. GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-Latino-Americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. https://www.zahar.com.br/livro/por-um-feminismo-afro-latino-americano
  1. CANDIDO, Antonio. A Literatura e a Formação do Homem. In: CANDIDO, Antonio. Textos de Intervenção. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2002. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4111020/mod_resource/content/1/Textos%20de%20intervenção%20-%20Antonio%20Candido.pdf
  1. HOOKS, Bell. Ensinando a Transgredir: A Educação como Prática da Liberdade. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2017. https://www.wmfmartinsfontes.com.br/ensinando-a-transgredir/

 

SOBRE A ESCRITORA:

Wanda Cristina da Cunha  nasceu em São Luís do Maranhão, no dia 05 de junho de 1959. Filha do escritor e jornalista Carlos Cunha e da professora Plácida Jacimira Cabral da Cunha. Estreia na Literatura Maranhense aos 12 anos de idade, com uma peça teatral, em dois atos, publicada no Jornal Pequeno, intitulada “Sociedade Moderna”. Conquanto, aos dez anos já escrevia trovas mimosas, típicas de sua idade. Na adolescência escreveu várias poesias, que foram publicadas em 1981, sob o título de “Uma Cédula de Amor No Meu Salário”, livro de estreia. Formada em Comunicação Social (Jornalismo) e Letras. Em 1983, publica o seu segundo livro, desta feita de crônicas, intitulado “Engraxam-se Sorrisos”.Em 1986, publica o livro de poesias “Rede de Arame”, que traz a orelha do escritor João Felício dos Santos. Em 1989, publica, sob um título barroco, seu “Geofagia ruminante no sótão da preamar”, observando-se que geofagia é o hábito de comer a terra, o que demonstra que se trata de um poema longo e de fôlego, por meio do qual canta as belezas de sua terra natal, suas história, topografia, culinária, linguística e política social, à luz de um estilo de cordelista ciosa do seu ofício. Publica, em 1993, seu livro antológico “Flor de Marias No Buquê de Costelas”, reunindo mais de 20 (vinte) autoras, todas sob o nome de Maria, que são, na verdade, heterônimos da escritora. Lança, em 2009. o CD “Vida de Ouro e Amor de Prata”, com músicas de sua autoria, em homenagem aos seus 50 anos de idade e 25 anos de casada. Publica o livro “Viagem às Ruas de São Luís” – Teatro – 2012. Publica o conto infantil “Parede tem ouvido”, em 2015.  Em 2020, publica pela Penalux o livro de crônicas “No semblante do cotidiano: risos de marés e lágrimas de um sol-posto” cheio de irreverências, ora lírico, ora satírico, ora jocoso. Em 2022, volta à poesia com o livro “Eu so Wanda Cunha, entre o verbo e o verso”, pela Editora Baronesa. Em 2024, Wanda Cunha organiza a antologia intitulada “Ecos da Academia Maranhense de Trovas: novos trovadores”, publicada pela Editora da Academia Maranhense de Trovas – AMT, de que a autora é a atual presidente.

 

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[Bioque Mesito é autor de 8 livros de poemas publicados.]