Entrevistadores:
Alexandre Maia Lago
Adonay Ramos Moreira
A dor da perda, os desvãos do juízo, os escorregões da insanidade, o peso do sofrimento emocional. Todos são temas recorrentes na oba da jornalista e escritora madrilenha Rosa Montero. Sua prosa envolvente revela, mesmo quando se dedica a assuntos íntimos e aparentemente corriqueiros, as digitais de um talento singular. Não por acaso, firmou-se como um dos grandes nomes da constelação literária do mundo hispânico contemporâneo.
Com uma obra profundamente marcada pela investigação da condição humana, na qual se misturam o realismo, a fantasia e uma linguagem clara e direta, seus livros representam um dos mergulhos mais profundos dos dilemas humanos na contemporaneidade, destacando-se como uma das autoras que mais se dedicam à perigosa e necessária aventura dos mistérios da psiquê humana, tudo isso, como lembrou certa vez Mario Vargas Llosa, em uma prosa “limpa e direta”, que “evita a arrogância e o pretensiosismo”.
Vencedora de vários prêmios, dentre eles o Prêmio Nacional das Letras Espanholas (2017) pelo conjunto da obra, o Prêmio Qué Leer (2004 e 2006), o Prêmio Grinzane Cavour e o Prêmio da Crítica de Madrid (2014), Rosa Montero é atualmente um dos nomes mais importantes da literatura moderna espanhola, pela profundidade de seus temas, pela clareza de sua prosa e pela sensibilidade com que trata assuntos complexos, o que nos permite dizer, como afirmou certa vez sobre ela o grande escritor espanhol Enrique Vila-Matas: “Rosa Montero gosta do risco e arrisca tudo para que voltemos a acreditar nas relações entre realidade e linguagem, no poder das palavras”.
- Entrevistadores – Em seu livro A Louca da Casa, você afirma: “Todos os gêneros têm suas regras e, em princípio, é necessário segui-las para praticá-los bem”. Nesse sentido, quais são, em sua opinião, as regras do romance e como você avalia esse gênero hoje?
Rosa Montero – De fato, cada gênero tem suas regras, e confundi-las leva a um resultado ruim. Por exemplo, se você escrever uma peça teatral muito ensaística, provavelmente será muito tediosa; se escrever um ensaio muito poético, poderá faltar precisão e profundidade. E assim por diante. Se você escrever um romance jornalístico, será um romance ruim porque será superficial. E se escrever jornalismo muito novelesco, será ruim porque será pouco confiável. O romance é um gênero obscuro e complexo, muito semelhante à vida em sua complexidade e paradoxos. Romances são sonhos sonhados de olhos abertos, porque nascem do mesmo lugar no inconsciente onde os sonhos nascem. Comparado ao jornalismo, por exemplo, o romance é praticamente o oposto. No jornalismo, você escreve sobre o que conhece: pesquisa, realiza entrevistas, lê livros… e na ficção, você escreve sobre o que não sabe que sabe, porque, como eu disse, brota do seu inconsciente incontrolável. De todos os gêneros, é o que tem menos regras restritivas, mas certamente você precisa escrever para aprender, não para ensinar. Romances utilitaristas (feministas, sobre direitos dos animais, pacifistas, etc.) traem a própria essência do romance, que é a busca pelo sentido da existência. Escrever um romance é uma jornada de conhecimento, e você não pode embarcar nessa jornada já possuindo as respostas. E é um gênero vibrante, porque continua a capturar os sonhos da humanidade.
- Entrevistadores – Ao discutir Agatha Christie em seu livro Nós, mulheres (Historias de mujeres, em espanhol) você destaca como ela teve que lidar com seus demônios desde muito jovem, como o fato de ter ficado órfã, a ruína financeira do pai e a possessividade e depressão da mãe. Quais são, então, os demônios da escritora Rosa Montero, e como ela os enfrenta?
Rosa Montero – Ufa, já que você escreve a partir do subconsciente, como eu disse, nós, autores, somos os últimos a saber do que estamos falando, hahaha. Você escreve na mais completa escuridão. Mas com o tempo, passei a enxergar minhas obsessões: a morte, o sentido da vida, se é que ela tem um, a passagem do tempo e o que o tempo faz e desfaz conosco, porque viver é se desvendar no tempo, o poder, a imprevisibilidade da realidade, a memória como uma construção imaginária, o amor, a necessidade de viver com os outros para que a vida valha a pena ser chamada de vida…
- Entrevistadores – A famosa frase de Gustave Flaubert em uma de suas cartas para Louise Colet afirma que o escritor deve ser como Deus: presente em todos os lugares e invisível em nenhum. Para você, qual é o papel do escritor na sociedade contemporânea, onde a imagem predomina quase completamente sobre a palavra?
Rosa Montero – Veja bem, os romances e a leitura em geral continuam firmes e fortes. Ler sempre foi uma atividade de minoria, mas essa minoria é maior do que nunca hoje em dia. Vou repetir: os romances são os sonhos da humanidade, e precisamos sonhar para não enlouquecermos ainda mais do que já estamos. Quanto à minha experiência pessoal, sou um daqueles escritores incapazes de escrever sobre a própria vida nos meus romances; sempre busco personagens que não têm nada a ver comigo. Mas certamente escrevo sobre coisas muito profundas dentro de mim, sem nem mesmo saber ou entender, da mesma forma que quase nunca entendemos os sonhos que temos à noite.
- Entrevistadores – Para você, a literatura ainda desempenha um papel relevante na luta pela emancipação das mulheres?
Rosa Montero – Depende do gênero literário em questão. Você pode defender suas ideias em ensaios e jornalismo (ambos gêneros literários), mas o romance, como eu disse, não pode ser utilitário. O romance nos torna mais sábios em geral, mais empáticos e mais humanos.
- Entrevistadores – No livro A Louca da Casa, a imaginação surge quase como uma força indomável. Você acha que a criatividade é algo que pode ser controlado ou pode escapar ao escritor?
Rosa Montero – É claro que existem pessoas que não conseguem controlar a própria imaginação. Isso acontece em alguns transtornos mentais, e há especialistas que afirmam que o romance é um delírio controlado. E não precisa sair do controle. A falta de controle decorre da doença mental, não da escrita.

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*Alexandre Maia Lago é advogado, escritor, membro da Academia Maranhense de Letras e da Academia Ludovicense de Letras, autor da série cronística Letras de Sempre.
*Adonay Ramos Moreira é escritor, advogado, autor de O defunto imaginário (2021) e A reinvenção do paraíso (2026).

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