Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Débora Reis, poeta - foto: divulgação

DÉBORA REIS entrevistada por PAULO RODRIGUES

PAULO RODRIGUES ENTREVISTA

A POETA DÉBORA REIS

 

A escritora maranhense Débora dos Reis Cordeiro, nascida na cidade de São Luís em 1984, é mãe de Dimitri, Theo e Amelie, professora formada em Pedagogia pela UFMA, Mestra pela Unifesspa, Produtora Cultural no ramo de Saraus e Eventos Lítero-Musicais. Iniciou a carreira de escritora em 2023, com o livro de poemas intitulado Histérica: poesia de quem sobreviveu mulher. Em 2024 publicou Puérpera: de mim, da letra e do que não foi dito, lançado na FLIP desse ano, livro de poesia também lançado na FELIS (Feira do Livro de São Luís), em sua cidade natal.

 

 

1.     Paulo Rodrigues – Débora Reis, conte um pouco da experiência de ser produtora cultural em São Luís?

Débora Reis – A experiência é nova e posso dizer que estou – estamos, eu e Karla Castro – me aventurando ainda. A Cântaro Produções nasceu a partir do ensejo de trazer a poesia para a centralidade de nossos encontros entre amigos e amigas, de criar um espaço próprio para a literatura nas noites pela cidade. Ainda estamos tateando os melhores formatos e modelos de fazer isso acontecer. Os saraus lítero-musicais, como costumamos chamar, são eventos que realizamos com um sorriso no rosto, apesar das dificuldades e trabalhos nem sempre amigáveis. Essa alegria é o motivo de todas as nossas ações e estamos indo com cautela para que essa nunca falte. Estamos começando a entrar num terreno bem disputado – da produção cultural –, mas eu e Karla estamos chegando para somar, somente, levando poesia e arte junto com demais artistas e escritores que se ajuntam a nós. A cidade carece desse estímulo e achamos que nossas produções, mesmo que ainda recentes, já vêm enriquecendo o cenário cultural de São Luís, e isso já nos é suficiente.

2.     Paulo Rodrigues – Poeta, o Sarau-Literário que você realiza é um sucesso de público e crítica. O Maranhão tem fome de poesia? De boa música?

Débora Reis – Claro! A cidade de São Luís e todo o estado do Maranhão tem fome da letra, seja ela escrita, seja ela falada. E Paulo, digo mais, acredito o cidadão sacia essa fome de diversos modos e em diversos lugares, é sobre qual alimento estamos consumindo e não sobre a fome, em específico. Estamos lutando é para que a poesia e a literatura, junto com a música popular brasileira, tenham seu espaço cativo de modo a ser uma forte opção no leque cultural. Atualmente, a cultura massificada é a mais produzida, difundida e consumida, uma vez que está nas mãos do capital, das grandes corporações, gravadoras, e até das grandes editoras nacionais e internacionais. Mas isso não nos intimida, acredito que seja até um estímulo para irmos adiante, provocando um diálogo rico e não elitista, ou seja, queremos interligar o popular com o erudito, o sacro e o santo, a escrita e a oralidade, o vinho e a cachaça, a fim de trazer ao público uma criatura ainda sem nome, talvez seja apenas arte. Em nossos saraus temos poesia da mais alta ponta até poesias que brincam com o escracho, temos Drummond e temos Paulo Nó Cego, cordelista de nossa terra. Acredito que é necessário um olhar menos ortodoxo para a literatura, que seja cada dia mais cotidiano, como o ato de beber, comer, dormir. Nossos Saraus se chamam “Poesia de beber”, acredito que se autoexplica. É isso, poesia que se traga e sacia a sede sem muitos empecilhos, entraves ou códigos sociais. O sucesso de público é relativo, pois de fato sempre temos casa cheia, mas confesso que queremos mais, queremos a juventude ali, o trabalhador e trabalhadora comum. Queremos a democratização da poesia, que inclusive tem suas origens na oralidade e no cotidiano popular.

3.     Paulo Rodrigues – No poema, LEITE PRETO, você diz: “ Havemos de derramar leite preto/ na terra onde pisamos. / Havemos de ser povo, / Num céu sem nuvens”. A poesia precisa sentir as dores do povo?

Débora Reis – A poesia não tem regra, ponto. Ela vem como força motriz da expressão humana. Entretanto, a poesia que faço traduz quem sou, involuntariamente. “Leite Preto” pretende lançar uma utopia territorializada em um novo solo das relações humanas no que tange a raça. Me senti negra há pouco tempo, menos de dois anos atrás, e isso foi um processo estranho e dolorido. Minha pele clara mascarava minha ancestralidade e pertencimento, e isso é comum no Brasil como um todo, país cuja miscigenação “escondeu” a raça, sem de fato esconder o racismo e seus produtos. Hoje eu entendo que meu corpo, meu nariz, meu cabelo etc. compõe uma raça, e já estive e estou debaixo do estigma da negritude brasileira. Em minhas poesias falo muito da questão de gênero, sobretudo no meu primeiro livro “Histérica”, publicado em 2022. Já em “Puérpera” falo de um renascimento, e a questão da raça está dentro do escopo desse novo batismo, além obviamente da questão do feminino, interligada àquela. Então, Paulo, a poesia que trago fala de dor – como quase tudo que falamos que teima em denunciar nossas dores – mas é sobretudo de um despertar, de tomar consciência, não fala de sentimentos infantis, pueris ou pouco talhados, fala de um sentir racional, quase que em tons filosofais; são poesias densas e complexas, pois eu sou assim, felizmente ou infelizmente. Minhas poesias falam de mim e talvez por isso também fale das dores do povo, sobretudo do meu povo.

4.     Paulo Rodrigues – Você pode falar um pouco sobre o seu processo criativo? Como surgem os poemas?

Débora Reis – Eu não gosto de responder nada sobre o meu processo criativo porque me sinto uma fraude (risos), mas acredito que falar disso me liberta também. Eu não tenho técnicas, estudos e nem saberia fazer um curso para quem quer começar a escrever poesias. Sou indisciplinada por natureza, e para quase nada atendo a um padrão. Eu, Deus, e minha terapeuta sabemos disso. Então, sendo bem objetiva, escrevo poesias desde pequena, acredito que me alfabetizei nesse processo de escrita poética. Tinha cadernos e papeis avulsos com diversas poesias escritas em momentos de “ócio”, o que na verdade era um misto de diversão e ofício infantil. Era tímida – e ainda sou, em certa medida – e passei a esconder o que escrevia ali na adolescência, quando novelava sobre amores não correspondidos (risos). Depois, na fase adulta, enfrentei circunstâncias que me dissociaram de mim, e a escrita passou a ser cada vez mais rara. Criar é um processo de conexão consigo mesmo, se você não se vê, não se ouve ou não se lê, você tende a ter uma criatividade escassa, ou nenhuma, para isso. Enfim, voltei a escrever quando minha terceira filha nasceu, poesias infantis – todas perdidas porque não salvei na nuvem –, e vi meus filhos vibrarem ao lerem e ouvirem o que eu havia escrito, foi um despertar. Depois do meu segundo divórcio, eu passei a me ver novamente, e acredito que voltei ao meu lugar essencial, ao que sou. Logo, voltei à poesia. Meu processo criativo, acredito, não tem a ver com escolhas técnico-metodológicas, tem a ver com estar presente em mim mesma, em me reconhecer como sujeito, como gente, como mulher. Se isso é universal, não sei, mas é a minha condição imposta à escrita livre e criativa.

5.     Paulo Rodrigues – Temas relacionados à mulher, à superação, ao campo sociológico humano predominam na sua escrita. Você elege os temas poéticos?

Débora Reis – Os temas que me elegem, meu amigo (risos). Brincadeiras à parte, acredito que não seja uma seleção muito ordenada ou consciente. Eu não tenho certezas a postular nesse sentido, mas tenho a hipótese de que aquilo que escrevo é fruto do que já me habita anteriormente. A escrita artística, ao contrário da científica, não pretende a neutralidade ou o distanciamento do objeto. É, a meu ver, a própria subjetividade materialmente constituída que organiza a escrita. Eu tenho certa preguiça ao me deparar com poesias que não falam com a carne/osso, chamo de “poesias alienígenas”, um tanto inatista. Manuel de Barros fala do seu quintal e da sua infância, Silvia Plath fala do casamento, da mulheridade, da maternidade e até da violência doméstica praticada por seu parceiro, também poeta, Ferreira Goulart fala do aroma da tangerina e do pão nosso que por vezes temos no dia a dia. A poesia é materialidade, e não existe maior materialidade que nossa experiência de vida, e isso não tem a ver com objetos físicos que tocamos ou no lugar onde estivemos, apenas, tem a ver com as corporeidades simbólicas que estão vivas e pujantes em nossa casa, em nossa mente. Mesmo assim, não acredito que estou fazendo uma autoficção ou escrita biográfica, estou apenas traduzindo o mundo por minhas lentes. E na escrita, minhas lentes são individuais e coletivas, e sempre soberanas. Minha hipótese é de que os temas e assuntos selecionados que a poesia demanda vêm dessa massa de vozes, cores e sons preexistentes, mas ela própria não se revela nisso, uma vez que destrói a realidade para reconstruir em seu lugar o inimaginável. Isso significa que os temas que falam sobre a questão do feminino modulam em grande medida a minha consciência, daí a construção poética. Contudo, não me atomizo na esfera sociológica ou mesmo no senso comum. A filosofia e a espiritualidade também constroem a tessitura do texto poético, o que me leva para além do imediato, do pragmático ou do óbvio. Penso eu que isso garante que minhas poesias não sejam reduzidas ao aqui e agora – apesar de eu ser fatalmente um ser temporal -, pois espero pretensiosamente que sejam, sobretudo, arte, uma vez que bebem na materialidade, decerto, mas para em seguida transpô-la, reinventando-a. Assim, o tema principal das minhas poesias é a utopia.

6.     Paulo Rodrigues – Débora Reis, comente um pouco sobre o livro PUÉRPERA, que foi lançado pela editora Patuá em 2024.

Débora Reis – Acredita que eu ainda não consegui dar conta de resumir esse livro? Todas as vezes que eu falo dele, falo de algo diferente, apesar do fio da meada estar preservado. Isso me fez pensar que talvez fosse o momento de ser como aqueles escritores blasés que não comentam sobre o que escrevem. Eu descobri que eu comento como leitora, gerando um sentido outro a cada leitura. Como autora, já era, perdi. Não sei falar sobre isso. A autora morreu ali, nas letras. Atualmente, eu estou muito interessada em saber o que as pessoas sentem e entendem sem esse meu guia de leitura, o que gera nelas, então convido o leitor desta entrevista que ainda não leu meu livro a parar por aqui, ler, e depois voltar para esse bate papo sobre a obra (risos). Bom, como leitora – e intérprete – do que escrevi posso comentar que o livro me dá calafrios. Fala do ciclo da vida a partir de uma visão peculiar, ou seja, intimista, subjetiva, até obscura, por vezes. Começa do nascimento, enviesado pelo espectro da morte social da mulher, passa pela nova concepção e parto do ser renovado pela palavra e ato de dizer, de existir pelo verbo, depois chega à experiência de ser um humano novo no mundo, tal qual um bicho experimentando a natureza de forma orgânica e lúdica, e por fim, fala da morte, enviesada pela euforia de uma vida bem vivida, haja vista que foi forjada pela própria criatura, que se tornou deus em seu ato próprio de renascimento. Uma morte cheia de simbolismos, uma não-morte, quem sabe, dado o ciclo arbitrário da vida. Esse vórtice poético é pautado por muitas visões, como a questão do gênero, da raça, da infância, da territorialidade, da cidadania, e de várias camadas da existência, todas em suspensão, como um sonho dadaísta. É desse puerpério que falo, não do biológico, apenas. Lancei “Puérpera” (2024), na FLIP do ano passado, logo após “Histérica” (2023), e sabia que ele deveria vir em seguida, pois eu estava cheia de letras na ponta da língua e na ponta dos dedos. Histérica nasceu datado, falava de uma Debora que havia falecido, recentemente, e foi um lindo desfecho que dei a ela, creio nisso. Até mesmo o estilo da escrita já havia sido, de certa forma, modificado. “Histérica” fala da sobrevivência da mulher, “Puérpera” fala da reconstrução dessa mulher. E como uma mulher puérpera, não conheço muito bem ainda este recém-nascido, mas estou disposta a ir devagar, sentindo, pegando, relendo, estranhando, celebrando, aceitando, indo. Espero que tenha vida longa! 

  1. Paulo Rodrigues – PUÉRPERA é muito diferente dos seus livros anteriores, poeta?

Débora Reis – Possuo dois livros de poesias, “Histérica – poesia de quem sobreviveu mulher” e “Puérpera – de mim, da letra e do que não foi dito”. Como antecipei anteriormente, há sim diferenças, mas creio que ainda possuo uma identidade forte que é a poesia intimista e que trata sobre o feminino, tema sobrepuja a narrativa poética nas duas obras. A maior diferença entre as obras se dá pelo alter ego, creio. A primeira obra quem fala é uma mulher ferida, com medo, que se encoraja a dizer das opressões vividas. É um grito de resistência, que denota dor, mas conota liberdade. No segundo livro, o alter ego é uma mulher que narra a própria vida como quem conta um conta, como quem proseia poeticamente sobre a trajetória já vivida e que ainda está por vir. Assim, o texto sofre mudanças. O primeiro livro traz uma poesia mais longa, quase em tons de tragédia, com ares de novela. O segundo livro é mais ponderado, e abandona um pouco os recursos trágicos, apesar de ainda trazer em seu escopo o drama como linguagem. Essa mudança de alter ego é feita internamente dentro do mesmo personagem, não se trata de dois sujeitos, deste modo, mas de um sujeito que fora transmutado. De forma proposital, essa mudança revela uma sequência entre as obras.

8.     Paulo Rodrigues – Poeta, como você analisa a literatura contemporânea do Maranhão? Há autores que você destacaria?

Débora Reis – Tenho gostado bastando do que tenho tido acesso. Ainda não sei pontuar ou codificar a fase poética que vivemos, mas certamente é plural e diversificada. Tenho críticas às poesias pueris, infantilizadas, que falam de amor e dor como quem está diante de um diário adolescente. Poesia não pode se dar ao luxo de acessar a superfície das emoções ou das ilações. Esse tipo de produção não me chama atenção, em definitivo, e tenho acompanhado algumas dessas publicações com certo receio. Mas, em contrapartida, tenho em mãos obras extraordinárias, como a do Sebastião Ribeiro Filho, livro de poesias intitulado “Solo”, que me deixou extasiada, sem chão (risos). A qualidade da escrita do Sebastião é de dar orgulho em qualquer maranhense. Não posso deixar de citar Lindevânia Martins em seu último livro, um romance incrível chamado “Teresa decide falar”, que estou concluindo a leitura e já me cativou demasiadamente. Sorri e chorei junto. Fico emocionada com as nossas conquistas. Pontuo com felicidade as obras também do companheiro Paulo Rodrigues, Júlio César e Karla Castro, que estão na minha cabeceira, como boa literatura.

9.     Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Débora Reis – Não me apresentei como professora até agora, mas sou, e vou falar na qualidade de educadora nesse momento. Eu queria poder dizer que a vida não é boa suficiente sem ler, sem livro, sem literatura. A vida também é rarefeita quando não escrevemos, sobre sabe-se lá o que. A escrita faz parte do nosso corpo e nossa história, e ninguém deveria ficar fora disso. Se isso têm nos faltado, estamos vivendo na mediocridade, infelizmente. Me sinto muito honrada em poder colocar a vida em forma poética, mas reflito que não deveria ser um privilégio, a escrita deveria ser algo muito mais natural, sem necessidade de pompas, editais, lançamentos, prêmios etc. Digo isso para que todos se sintam encorajados a pegar um papel, um lápis e começar rabiscar, sentir-se legitimado a colocar em palavras um mundo imenso que nos habita. Essa conquista é individual e coletiva, pois é pela palavra escrita que em muito produzimos, multiplicamos e salvaguardamos o conhecimento. Preocupa-me a baixa capacidade do ser humano, atualmente, de poder escrever. Não tenho dados de estudos científico, mas postulo que tal fenômeno tem sua variável na adoção massiva das novas tecnologias que ampliaram tanto o acesso à informação, que passamos a acreditar que nada mais se produz, está tudo lá, nas redes, na nuvem, no site de busca. Ninguém escreveu o que você pode escrever, a vida não parou ainda, o mundo muda vertiginosamente, e quem vai registrar/interpretar isso? Quem vai fazer uma nova arte? Quem vai escrever a vida? A inteligência artificial decerto fará, e isso me desola. Se eu puder falar algo que faça sentido hoje, é: meus amigos, leiam e escrevam, em nome do que somos

 

POEMAS

 

[PUÉRPERA]

Interim

Dormir com os lençóis no pé

é um carinho da minha mãe

acordar com o sol na cara

é uma lembrança do meu pai.

Entre uma hora – e outra,

sou órfã.

 

Via Crucis

A polêmica que entrego

é sempre uma:

basta apresentar-me nua.

 

Revelar-se

Os olhos

o nariz

a boca

tudo revela a vida que sou

nos neurônios

no pulmão

na bexiga.

E me sinto pele esfolada

quando sai dos poros

a alma espirrada na tinta.

 

Revestir

Quero rasgar o mundo

ter nele textura

texto

tessitura.

os meus panos já não cobrem…

Hei de costurar o céu para me vestir

 

Comendo a terra

Vi a terra me comendo,

como era útil a minha existência,

Gostei de ser comida, gostei de ser adubo, gostei de ser sabor

sal da terra

Alimentei-me dessa utopia:

de ser conteúdo da vida.

Passei a comer a terra, para devolver a gentileza

e sorvi seus grãos, mastiguei as raízes,

esperei o sol queimar

aguardei a chuva molhar

cheguei num córrego, escorregando pelas pedras

E completamente envolta por tudo que não tinha vida:

 

vivi.

Fiz escamas.

Fiz guelras.

Fiz alvéolos.

Respirei debaixo d’água.

Virei bicho outra vez.

 

 

[HISTÉRICA]

 

Alforria

Sai de casa para preservar o meu filho

Parto cesárea na cela

Só me dando a liberdade

Ele poderá ser dela.

 

Três Marias

Os olhos de quem se perdeu

Brilham demais.

Eles viram estrelas.

Estrelas

Apegadas, com medo, inertes,

Paradas, sem enredo, sem vestes.

Os olhos de quem se perdeu

Explodem de dor

Mas um dia se implodirão

A Maria,

A Maria

E a Maria.

 

Em seus dedos

Cada dia que me vejo nascer

Eu me repito,

Respingo o passado no futuro

Sem me perceber.

Círculo infinito,

Um caos comandado por meu inconsciente

Mal-feito:

Formou-se em seus dedos

Um círculo, um centímetro

Um pouco menor que um botão de calça jeans.

Mal-tido:

Formou-se em meus traumas

Um romance, outro lance

E um pouco mais desperto

O desejo de transgredir como um rasgo no cós da calça jeans.

Se gozo o sabor em minha boca,

Os lábios ousam sentir prazer.

Me culpo. Cuspo.

Dilacera a carne,

Êxtase ou nojo: abuso

Abuso

Que se tornou parte de mim

E me custa o amor

E me custa me amar

E me perco do que sou eu,

Só inventando um deus para me perdoar.

Princípio de um vórtice, os limites se expandem

Basta moralizar um pouco mais,

Para o fel ser doce

E o doce que me escorre, ser de volta o fel

Que tomo,

Trago,

Sugo

Introduzo

Fujo

Retorno.

Endeuso traumas para me dizer sã

Enlouquecida, em meu divã

Recriando o paradoxo

Do Princípio imaculado

Da mácula perpétua, que costurou o ódio no espelho

O ódio do que vejo,

E vejo os seus dedos

No botão da calça jeans.

 

Sob a Chuva

Eu sou como a chuva tórrida

Que cai no chão duro

E corre lisa, levando um embrulho por baixo do sol

– Penetra o solo

Desgrenha o subsolo

Se embrenha quente no lençol.

Mas não dorme

Umidifica

Lava

Solve.

Foi-se chuva

Tornou-se poço

Não se avexe, moço

Eu vim de lá de baixo

Mas caio da enorme nuvem

Acima do teu cacho.

É para o teu bem

Que te trago à memória

Todas as suas vidas,

Mais de mil anos atrás

Na superfície da tua tensão.

Perfuro teu corpo,

Teu coração

 

E desço tua garganta.

Água no teu osso

Água na tua planta

Tua densidade não me espanta.

Deságuo

Ao nível do mar.

Chuva tórrida

Que pinga no superlativo T

roveja

Ressoa

Animais buscam abrigo

Passarinho não se vê.

Cai a manga do pé

Sobe o cheiro da terra

Esse é poder da chuva

Soberana água

Sobre todo o viver.

Insípida, saboreio tua carne

Inodora, chamego teu pescoço

Incolor, estrago tua tela cinza

Revelo as sombras

Sobre teu acanho,

Teu choro estranho

Que não lacrimeja, não se vê.

Um copo d’água no canto da tua boca seca

Um córrego no teu fígado seco

Erosão das tuas personagens.

Água no teu osso

Água na tua planta

Para te deixar de pé

Para minha antropofagia

 

Sou como chuva tórrida

E ontem bati na tua janela

Enquanto você dormia.

 

 

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Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista