Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Poeta Daniel Blume

DANIEL BLUME entrevistado por PAULO RODRIGUES

 

Daniel Blume: advogado, procurador do Estado do Maranhão, escritor, membro da Academia Maranhense Letras.

Autor dos livros de poemas Inicial (2009), Penal (2025), Reposta ao Terno (2018), Delações (2020) e Cartas ao Neto: versos maquiavélicos (2024).

 

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  1. Paulo Rodrigues – Daniel Blume, o Lenio Streck afirmou: “A Literatura ajuda a existencializar o Direito”. Você concorda? É isso mesmo?  

Daniel Blume – Concordo em parte. Entendo que Lenio Streck reconhece a literatura como dimensão em que a existência se expõe e discute as relações humanas cujo eixo central é o Direito, numa espécie de reconstituição. É fato. Entretanto, aproveito para verticalizar meu pensamento: primeiro porque é a existência que demanda o Direito como condição fundamental de subsistência; sem justiça, os direitos não se sustentam e a vida é líquida e insustentável. Nesse caso, penso que o direito, ou melhor, os direitos é que servem de inspiração para a literatura, principalmente quando eles faltam.  Prefiro pensar que o Direito clama pela justiça por meio das leis e a literatura, por meio do discurso e da arte.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você acredita que a literatura constrói uma aproximação interessante entre o Direito e o mundo prático? 

Daniel Blume – Sim. O mundo prático se alimenta da falta e a literatura se alimenta do mundo. Se pensarmos na falta original, podemos perceber que essa insatisfação parte de um auto-desconhecimento e da indiferença que é, em grande medida, social. Todo utilitarismo, toda ambição, todo consumismo; o endividamento, o roubo, a corrupção e tantas outras coisas degradantes do mundo chegam muitas vezes desse vazio que é ausência de justiça. A literatura expõe para a humanidade os frutos da injustiça e provoca no advogado que lê obras literárias a necessidade de entender seu agir em prol de um mundo mais justo. Ou menos injusto. Daí nasce a luta com a palavra literária. Necessária, mesmo que vã.

 

Resposta ao Terno, Daniel Blume (2018)

 

  1. Paulo Rodrigues – O Antonio Candido comentava muito: “A literatura é um direito básico de todo cidadão”. O que falta para o Brasil garantir esse direito? 

Daniel Blume – Para o Brasil garantir esse direito, sem nenhum tipo de falácia quanto à acessibilidade à literatura, é muito importante primeiro que as políticas de alfabetização surtam efeitos massivos para a sociedade. Caso contrário, com os índices de analfabetismo alarmantes e em vários níveis, mesmo que o acesso seja democratizado, mesmo que muitos tenham livros à mão, mesmo que as bibliotecas se multipliquem, há que se lutar para que os alfabetizados sejam beneficiados com políticas de formação de leitores de literatura. Existem programas sim, mas me parece que o alcance ainda deixa a desejar, mesmo que as escolas lidem com essa perspectiva. Em resumo, esse é um assunto que precisa ser articulado à educação básica e superior do Brasil todo, nos diversos centros de ciências: humanas, sociais, tecnológicas e da saúde. Sem falar nas políticas de incentivo à cultura. Reunir livros e livros de literatura não é lucro quando a realidade está vazia de leitores. 

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os principais clássicos literários, em sua opinião? Eles têm relação com a sua evolução como jurista? 

Daniel Blume –   Li muitos clássicos. Triste Fim de Policarpo Quaresma de Lima Barreto com seu sonho político de transformar o mundo devorado pelas formigas. Machado de Assis e a rebeldia das ideias de um dialético canário. Sim, não parei aqui para escolher os principais. Muitos e muitos outros tenho lido, mas esses foram chegando primeiro na minha lembrança. A literatura sempre vem com suas surpresas, bem como Antonio Cícero subverte o sentido de guardar: não é trancar no cofre, mas deixar a coisa à vista. De preferência vigiar “o voo de um pássaro” e não ter “um pássaro sem voo”. Por aí eu posso pensar a lei. Mais pelo que ela liberta do que pelo que ela obriga. A lei pode ser mais do que algema, a chave para destrancá-la.

 

  1. Paulo Rodrigues – Como a literatura, a poesia, a ficção chegaram na vida do Daniel Blume? 

Daniel Blume – A minha infância já foi rodeada de livros e eu sempre ensaiava produzir o meu.  A minha redação no vestibular já me colocou a argumentar sobre voto e processo eleitoral sob o viés deste mundo feito de suas relações políticas, a partir da obra Esaú e Jacó de Machado de Assis. Fui aprendendo a fazer analogias até que o nó da gravata me trouxe o da garganta e tantas outras associações que me colocaram na fronteira entre o contexto jurídico e o literário. Quando a poesia poderia ter cessado, aí o contexto jurídico lhe abriu mais portas. E continua abrindo.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais autores da literatura maranhense influenciaram a produção literária do Daniel Blume? E como você avalia a literatura contemporânea do nosso estado?

Daniel Blume – Na verdade, difícil escolher entre autores da literatura maranhense, porque existe, nesse tipo de leitura, uma espécie de pacto da identidade. Mas vou seguir o mesmo critério de quem chegar primeiro à minha lembrança: o temperamento memorialístico de José Chagas sempre foi muito marcante; Bandeira Tribuzi com a possibilidade de pensar emoção e sentir ideias. Louvação a São Luís é um mergulho na poesia da nossa ilha. Ferreira Gullar com sua poética que me consome a cada vez que leio. O poeta que paga o preço do exílio porque tem algo de verdadeiro no poético com tal intensidade que ele voa por sobre o oceano com seus garfos enferrujados, suas facas cegas, cadeiras furadas, sua história que é tão ele mesmo que, quanto mais longe vai, mais habita na porta e janela da Rua dos Prazeres de onde parece nunca ter saído. 

 

 

Delações, Daniel Blume (2020)
  1. Paulo Rodrigues – Comente sobre o livro Delações para os nossos leitores? Você trabalha bem essa relação discursiva entre o Direito e a Literatura?

Daniel Blume – Na verdade as obras refletem nossa alma e nossa alma espelhas as experiências. Eu me realizo transitando no Direito. Me apropriei do discurso jurídico e isso seria inevitável porque não sei mesmo quem mergulhou mais fundo: se o Direito em mim ou eu no direito. Então minha cognição, minha razão, minha argumentação, minhas emoções têm sido gestadas nesse ambiente das iniciais, da gravata, das delações, do terno, enquanto transitam pela janela do escritório as acusações e defesas; as construções e destruições; as expectativas e decepções; as lealdades e traições, porque assim como o texto literário se manifesta em verossimilhança, os processos propõem o caminho da realidade dos fatos e não das semelhanças. Ou seja, ainda bem que existe a literatura para eu criar imagens e perfis que talvez estejam retratados em processos da vida, no vai e vem dos tribunais ou mesmo nas reuniões acadêmicas, sociais e talvez nas relações amistosas. Delações talvez seja a produção de perfis inspirados no mundo real, postos em fronteira com a ficção.

 

  1. Paulo Rodrigues – O crítico literário Antonio Aílton afirmou num ensaio: “CARTAS AO NETO de Daniel Blume é um dos mais fluidos e saborosos livros de poemas que tenho conhecimento, nestes anos de muita escrita boa, mas também de abundante literatura insípida”. Como foi o processo criativo de CARTAS AO NETO? 

Daniel Blume – Penso que a política é feita de cartadas. O que o avô faz é ensinar ao neto por meio de cartas. Existe aí um jogo que o leitor vai precisar decifrar. Qual relação há entre cartas e cartadas? Por que cartas ao neto e não carta ao neto, se os versos são maquiavélicos?

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

Daniel Blume – Eu desejo boas leituras aos nossos leitores e espero suas impressões quando os meus livros estiverem entre aqueles que estiverem lendo. Tenham certeza de que tem muito mais do que eu possa explicar sobre o que escrevo. Aliás vocês são co-autores. Uma parte dos meus poemas são meus e a outra parte é de vocês. Fiquem à vontade para compor comigo. E compartilhem.  

 

 

Cartas ao neto: versos maquiavélicos, Daniel Blume (2024).

 

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DANIEL BLUME

POEMAS

[ANTOLOGIA]

RESPOSTA AO TERNO:
Cópia, Capitu, Magma

DELAÇÕES:
Oculto, Leitora, Acenos, Interfone, Putrefação

CARTAS AO NETO:
O Professor, Moby-Dick, Escara

INÉDITO:
Sequência

 

 

CÓPIA

 

A vida é uma cópia

de um poema onde tudo

nada.

 

 

CAPITU

 

Hoje não quero ficar

aquém e a salvo.

Desejo é mergulhar,

mesmo pular de um penhasco

ao mar.

 

A despeito do posso,

peço ao menos um pouco

daqueles poemas sem pontos

do teu sonar solar.

 

Prefiro agora o verbo

na primeira pessoa,

com o nosso conjugado,

confissões e gingados.

 

Proponho sequer

as descritivas crônicas,

os inexatos poemas,

na indiscrição do aceite.

Desejo nadar de peito,

no leito, das tuas perigosas

e quentes águas amazônicas.

 

Pretendo a poesia dos teus tons e sons,

nem penso em pagar ou apagar,

mas apenas num lugar,

naquele oceano que não é mar

dos teus olhos de Capitu.

 

Busco então o abismo

de tua alma resiliente,

onde me abismo, esqueço

e mergulho.

 

 

MAGMA

 

Depois da erupção,

o corpo dessangra.

 

Um antes Etna,

nem mais é coração

ou vulcão.

 

De resto,

as rochas de magma.

 

 

OCULTO

 

Há um poema

que nunca se deu.

 

Um poema intocado

quase impossível.

 

Há um poema

que jamais escrevi.

 

Um poema sem página

como pintura sem tela.

 

Talvez haja um rosto

na nuvem do poema oculto.

 

 

LEITORA

 

Largo meu mundo parado

na esquina das palavras

enquanto me desgoverno

nas cruzadas de páginas.

 

 

ACENOS

 

A minha estrada passa

por várias pedras

enquanto jogo versos

            pelo caminho.

 

 

INTERFONE

 

Eram vizinhos

naquele prédio antigo

                                 do Leblon.

O rapaz morava com a mãe

no primeiro andar.

 

Depois da viuvez,

a mulher sozinha

                                 no último.

 

Era uma daquelas mulheres

movediças

das que não se consegue

                            libertar o olhar.

 

Falavam-se pouco.

                    Olhavam-se bastante.

O moço transpirava sonhos

                           homenageando-a

de quando em vez

                         em pensamento.

Talvez Vera se fizesse

                                      o mesmo.

 

Em um domingo carioca,

o interfone tirou o rapaz

                                 do prumo.

¿Subir ou não subir?

Questionava-se o virgem

na noite quente

                            em que a viúva

convidou-o

                  para sua cobertura.

 

De tão nervoso,

                          foi

        mas

                não subiu.

        Então voltou

         ao primeiro andar

         de sua adolescência,

bem assim

             quando as histórias

                                     não começam.

 

 

PUTREFAÇÃO

 

Uma rosa anteontem vermelha

apodrece em minha cômoda

         no copo d’água salobra

antes translúcido,

                             diante das grades

do Hospital Santa Marta

de onde moribundos

                         não me acenam.

 

 

O PROFESSOR

 

Mestre Naldo se mostra

mais que grande

um imenso

sabido.

 

Não se compromete

nem consigo,

não possui um lado

definido/defendido

sequer o próprio.

 

Não é espetaculoso

ou modesto,

é apenas nulo

para aquém de zero.

 

Never fede nem cheira,

gosta ou desgosta.

São frustrações

o pano de fundo

de suas críticas cutâneas,

por vezes defesas

indiretas frágeis.

 

Compilador de outras letras,

Juarez esgueira-se

no blecaute

de suas limitações,

enquanto sobrevive

das luzes dos que passaram

      mas permanecem.

Pernas cruzadas

punho no queixo

olhar como se atento

enquanto entretém

imaturos/incautos

com citações de Wikipedia.

 

Mestre exemplo

do servo

que se faz dono,

como porco

Napoleão.

 

Hoje o Tal prefere

cortes/palácios/mansões

das suas utopias,

seja para ligeiros regabofes

  ou longas ordens.

 

Das noites de reviver,

sobraram umas fotos

não rasgadas

em prol duma

historicidade insuscetível.

 

Restaram também poetas

poucos colegas

utilizados para dar-lhe

o que expor,

        expondo-se.

Definitivamente,

Professor Juarez Naldo

é um mestre

na arte

de lecionar

       como não ser.

 

 

MOBY-DICK

 

Não mera baleia

a cachalote branca foi

obsessão e fim

            do capitão Ahab.

 

Sempre tenho que ir.

Levantar âncora

e içar velas

ao vento!

Bradou

           o comandante.

 

Herman Melville

não leu apenas

a bíblia

           sobre Jonas.

 

Parece até ter ouvido

os canhões do silêncio

                  de Chagas

pois ir é o que importa

chegar é o de menos.

 

Não sou fraco

porque faço

o meu destino

não paro

lembrou Ahab

ao esquecer

da primeira lição

da caçada:

               a paciência.

 

Teve um final salgado

na gana pela baleia

              à barlavento.

 

Impetuoso

morreu amarrado

nos mares

       de sua compulsão.

 

Não raro

temor é salvação

um abrigo de escudos

como se paredes

          ao redor

— talvez tenha escrito

           o marujo Ismael.

 

Na tempestade,

            recolha as velas.

 

 

ESCARA

 

Augusto dos Anjos

não o conheceu

mas sabemos quem é

           e onde está.

Cárie fétida

de maledicências sociais.

 

Carne podre da mucura

          dos dentes desonestos.

 

Silêncio inato

da angústia popular.

 

Ferida purulenta carcomida

         por vermes de gravata.

 

Sombra pessimista

         da vendeta desumana.

 

Intestino esfaqueado

        por mazelas sufragadas.

 

Moribundo deitado

em sujeiras fiscais

                       secreta os líquidos

de problemas inflamados.

 

Dos Anjos não lhe conheceu

mas sabemos quem não é

        e onde não está.

 

 

SEQUÊNCIA

 

Desisti de desistir

pois quase tudo

acaba em uma

                      lágrima.

 

Acabei inimigo

do fim

pois amante

               do começo.

 

 

 

Daniel Blume no Convento das Mercês – São Luís, Maranhão

 

 

***

 

 

Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista, autor da trilogia poética Cinelândia (2021), A claridade da gente (2023) e Cordilheira (2024).