Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Valter Hugo Mãe, escritor português contemporâneo - Foto: Bruno Alves/Flipoços/Divulgação

WALTER HUGO MÃE – O AI JESUS DA FLIP

Por Ceres Costa Fernandes

            Das estrelas nacionais e internacionais que refulgiram na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2011, patroneada por Oswald de Andrade, uma saiu disparada na frente, em órbita própria nunca pensada por patrocinadores e todo o tipo de fauna amante das letras que compõem a organização e plateia dessa festa. E este não se chamava Antonio Candido, o monstro sagrado da crítica nacional acima de qualquer julgamento, que ainda leva a palma de ter sido amigo e confidente de Oswald de Andrade, ou João Ubaldo, o baiano de Itaparica campeão de vendas de livros, cujas mesas, assim que abertas, esgotaram todos os ingressos, não sobrando unzinho só, nem no câmbio negro. Ambos ovacionados e deificados, todavia, perderam o troféu Ai Jesus, que em 2003 pertenceu a ninguém menos que Chico Buarque – dodói de todas as mulheres maduras – para um escritor que não pontificava nas resenhas e entrevistas prévias dos jornais e das revistas especializadas, o angolano radicado em Portugal, romancista, poeta, artista plástico e vocalista, walter hugo mãe, grafado assim mesmo –  ele prefere –  unicamente em letras minúsculas, como todos os textos dos seus quatro romances, “para criar uma ligação mais direta à oralidade e uma espécie de humildade gráfica”, diz.

            Apesar de ser o mais prestigiado autor jovem de língua portuguesa da atualidade e ter ganhado o Prêmio Literário José Saramago, em 2007, com o romance O remorso de Baltazar Serapião, obra saudada pelo próprio Saramago como “um tsunami linguístico, semântico e sintático”, walter hugo mãe ainda era  pouco conhecido entre nós. Os editores apostaram menos do que deviam no seu sucesso no Brasil: o seu quarto romance, lançado na FLIP, pela Cosac Naify, A máquina de fazer espanhóis, ganhou uma modesta tiragem de três mil exemplares. Não contavam com seu carisma; foi o campeão de vendas da Festa. Não sei dos números, mas acho que vendeu todos os exemplares de A máquina…e  mais os de O remorso de Baltazar Serapião: sua conferência foi às doze horas, autografou a partir das quatorze horas e, quando saí da palestra da noite, perto das 21 horas, ainda estava ele a autografar. E muitos, como eu, compraram os livros e nem entraram nas filas de autógrafos.

            Na mesa 6, que dividiu com a argentina  Pola Olaixarac, forte candidata a musa da FLIP, ele começa dizendo que escritor é aquele que procura substituir com a literatura aquilo que lhe falta. Conceito freudiano, e daí? Eu gosto.  Ao contrário de muitos que dizem consumir-se, afirma: “não tenho sofrimento ao escrever, tenho prazer em criar, há sempre um lado de tragicomédia. […] me divirto com meus personagens, com quem vou passar muito tempo, são meus amigos”.  E termina a fala com a leitura de uma carta aos brasileiros. Voz mansa, modo de dizer assim com um quê de descuidado e jeito de quem está na festa alheia de favor, palavras seguindo em doce enxurrada, poucas pausas, confissões encabuladas de amar o Brasil e os brasileiros. Pronto. Houve até quem enxugasse os cantos dos olhos e o autor também marejou os seus, depois de aplaudido de pé por palmas que não queriam cessar. Lá estava eu e toda a plateia conquistadas. A Pola?  De repente, ex-musa e completamente ofuscada por ele.

            Noite. Chego ao hotel. Na minha cabeça ressoam as muitas conferências do dia e estou com os pés cansados das pedras cabeça-de-negro que calçam quase todas as ruas de Paraty. Faz nove graus, temperatura glacial para uma nordestina. Meto-me debaixo das cobertas e pego o livro O remorso de Baltazar Serapião. Logo, estou enleada pelo universo inusitado e alegórico do romance, walter hugo mãe   escreve como fala. A oralidade domina toda a obra, que embora pareça fluir-lhe espontânea, técnicas narrativas e descritivas estão presentes. Enormes parágrafos, ausência de maiúsculas e de quase todos os sinais gráficos, exceto a vírgula e raros pontos, despreocupação com a sintaxe que segue apenas o ritmo da fala das personagens, constroem um texto de largos espaços de pura prosa poética.

            A falta dos marcos tradicionais e a torrente linguística não extraviam os caminhos do discurso nem nos fazem confundir os interlocutores do diálogo.  Na linguagem branda, subjaz a violência brutal que perfaz todas as relações de poder ou de sentimento do romance. As mulheres narradas são  figuras negativas e malditas. Todo o mal se origina sempre da palavra da mulher, que só é positiva calada e quando se assume como animal, animal de trabalho ou de prazer.  Cabe aos homens dar-lhes o ensino. Talvez por isso a fêmea-símbolo das coisas boas seja a vaca sarga que permeia toda a narrativa como um fio condutor.  Se a linguagem recorre por vezes a construções arcaicas como o tempo em que se insere, época vagamente medieval, sem lugar definido, a estrutura narrativa é moderna.

            E mais não digo. Digo, apenas, usando o neologismo de Millôr Fernandes: walter hugo mãe é imperdível.

 

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Ceres Costa Fenandes é ensaísta, cronista, professora universitária, autora de O essencial de Lucy Teixeira (AML, 2023). Ocupa a cadeira 39 da Academia Maranhense de Letras.

*Fonte da foto de capa (imagem destacada): https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2025/05/01/como-o-brasil-influencia-o-escritor-valter-hugo-mae-despudor-em-relacao-a-lingua.ghtml