Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

“Os Quintos dos Morais”: romance de estreia de Samuel Oliveira de Moraes

A educação como fonte de emancipação social

em Os Quintos dos Morais

 

Por Gabriela Lages Veloso

 

Samuel Oliveira de Moraes, escritor – foto: divulgação

Samuel Oliveira de Moraes nasceu em João Pessoa (PB) em 1976 e passou parte de sua infância transitando entre a capital paraibana e a cidade do Recife (PE). Aos 13 anos, migrou para São Paulo onde viveu durante vinte e três anos, tempo suficiente para acumular as experiências que um dia viriam a se transformar em literatura. Em 2013, radicou-se em São Luís (MA), juntamente com sua família. O escritor é formado em Engenharia Industrial, com especialização na área pelas Universidades Federal e Estadual do Maranhão (UFMA e UEMA).

Os Quintos dos Morais (2025) é o livro de estreia de Samuel Oliveira de Moraes. O romance, que foi publicado em 2025 pela Arribaçã Editora, contém 51 capítulos e é de cunho memorialístico e de formação, visto que é inspirado na vida e memórias do autor, desde a infância até à idade adulta. A trama se inicia em João Pessoa na década de 1980 e acompanha a jornada do protagonista (autor), entrelaçando acontecimentos históricos e culturais paraibanos ao processo migratório de sua família do Nordeste à São Paulo.

“A vida é um frenético romance”, essa frase que dá início aos Quintos dos Morais dita a velocidade da narrativa. As mudanças e perdas nas vidas dos personagens são abruptas, eles não têm tempo para se acostumar ou se preparar para o que está por vir. Vivem em constante alerta. Narrado em parte numa prosa poética, o livro possui um título inspirado na expressão popular “quinto dos infernos” justamente para imprimir a dureza e sofrimento constante da família Morais.

O romance é narrado em primeira pessoa pelo protagonista-autor Samuel e acompanha, sobretudo, as peripécias do personagem junto aos seus irmãos Débora, Joab, André e Davi, bem como aos seus pais, Ivone e Francisco. A infância do protagonista, assim como toda sua jornada até a vida adulta, é dividida entre a alegria/esperança e a dor. O personagem relembra com saudosismo dos banhos de mar, do “céu estrelado de João Pessoa”, da contemplação dos rios e entardeceres, tal como é o possível notar na seguinte passagem:

Tempos depois, uma das minhas maiores saudades seria do meu céu, do meu mar e do meu sol paraibano. Tudo era meu e ali na minha terra era tão límpido, claro e simples, as nuvens perfeitamente terapêuticas como o seleto infinito que nos fazia inocentes, acreditando que nosso destino seria viver intensamente sobre as ondas de Tambaú. E tudo ali era tão meu” (Moraes, 2025, p. 37).

Contudo, o protagonista demonstra pesar ao recordar todas as dificuldades que enfrentou por ser nordestino, mas principalmente por conta do seu pai, que era alcoólatra e ausente, tal como pode-se perceber no seguinte trecho: “Não tínhamos consciência de que carregaríamos no sangue a marca do desprezo, da humilhação, das intrigas, das injúrias e do ódio. Descobriríamos que, para alguns, o destino reservara o caminhar em deserto árido, obrigando-os a seguir em frente, sem direito de voltar atrás” (Moraes, 2025, p. 30).

Os Quintos dos Morais aborda, de maneira crítica e reflexiva, alternando entre uma linguagem realista e lírica, temas delicados como: violência, migração, racismo, xenofobia, preconceito, bullying,  machismo e o perigo dos estereótipos. É impossível sair dessa leitura sem ser impactado com a dureza das situações vividas pelo protagonista e sua família; também não é possível concluir o livro sem se emocionar com a força, coragem e esperança que os personagens possuem. Assim, somos convidados a um exercício de empatia: sofremos com eles, mas também sentimos suas expectativas e torcemos por eles.

A princípio, a família do protagonista morava na Paraíba, contudo, depois de um sério desentendimento entre o pai e o tio mais novo de Samuel, eles precisaram se mudar às pressas para o Recife, deixando a “casinha branca” que tanto sonharam para trás e indo morar em uma “tapera que estava em ruínas. Piso batido de barro e paredes socadas de sapê. A sua estrutura rígida era formada por gravetos expostos à erosão das chuvas” (Moraes, 2025, p. 87). Essa foi a primeira ruptura que a família sofreu, após sérias ameaças foram forçados à abandonar sua terra natal e partir para a capital pernambucana. Lá, eles tiveram o primeiro vislumbre da face da insalubridade.

É importante ressaltar que toda a obra é rica em referências e relações intertextuais. Nela, são citadas músicas, brincadeiras tradicionais e vários elementos da cultura popular, sobretudo, do Nordeste. Além disso, é preciso destacar que a relação entre os pais do narrador-personagem era tóxica, cheia de conflitos. Por conta do alcoolismo, o pai do personagem era extremamente violento com a esposa. Vendo essa situação, a família dela, que também morava em Recife, veio ao seu favor. Houve uma segunda briga familiar, dessa vez, entre o pai de Samuel e o irmão de Ivone; o que levou à uma segunda migração forçada, cujo destino foi São Paulo: “Decolamos. E fomos nós para uma gélida terra, que, por um montante de tempo, relutei em aceitar como lar” (Moraes, 2025, p. 11 e 12).

Em São Paulo, eles enfrentaram a “indiferença reservada ao retirante e ao exilado filho de Francisco na Terra da Garoa. Uma Inquisição contra quem não tinha ferramentas físicas e psicológicas para se defender daquele gigantesco mar de opressão” (Moraes, 2025, p. 16). Nesse novo mundo, ainda mais cinzento e ameaçador, o pai de Samuel entregou-se completamente à bebida e, um dia, sumiu, deixando a esposa sozinha com cinco crianças para cuidar, em uma terra desconhecida.

Desesperada, Ivone retornou ao Recife e pediu ajuda de seus familiares. Lá, ela e seus filhos encontram abrigo por algum tempo. No entanto, ela novamente caiu nas artimanhas do marido e acreditou cegamente que ele se transformou em uma pessoa melhor e venceu a bebida. Desse modo, ela levou as crianças novamente para São Paulo e o capítulo mais brutal de suas vidas se iniciou:

Na região em que morávamos não existiam sítios, pomares, mangues, praias nem rios para qualquer tipo de diversão. O sol parecia frio e o céu acinzentado. O ar denso e poluído. E tudo parecia distante naquela selva de pedra. O que predominava no pobre era uma luta eterna pela sobrevivência, pouco importa se fosse adulto, criança ou adolescente” (Moraes, 2025, p. 192).

Francisco teve uma nova recaída e se internou em uma clínica para alcoólatras anônimos, mas fugiu. Então, foi para o Mato Grosso e viveu uma situação de escravidão em uma fazenda. Fugiu novamente e voltou para a família para, enfim, se despedir de suas vidas. Ele estava transtornado, era quase um bicho. Nesse instante, a família do protagonista foi expulsa do cortiço onde moravam, após várias reclamações de convivência e aluguéis atrasados “e, mais uma vez, as portas dos Quintos dos Morais” se abriram.

A partir desse momento, Ivone e seus filhos enfrentaram todos os dias a fome, a humilhação, a xenofobia, o frio e a dor. “Na favela, o Estado não se fazia presente” (Moraes, 2025, p. 266), aliás, “existia uma ligação muito forte entre a favela e o Nordeste. […]  O sofrido povo de um Nordeste estigmatizado pelos traumas vividos em sua terra natal e que buscava em São Paulo a cura para as suas frustrações” (p. 290-291). Nos últimos capítulos do livro, quando os personagens se tornaram favelados, é possível identificar uma narrativa que se assemelha à de Conceição Evaristo, com as suas vidas costuradas “com fios de ferro”, no seu livro Olhos D’água (2014), como também com Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus, pois nos três livros a educação é apresentada como um mecanismo de emancipação social e como a sua ausência ajuda a perpetuar a desigualdade.

Os Quintos dos Morais têm o sabor do reconhecimento não somente para aqueles que foram forçados a abandonar as suas terras natais, mas também para todos que lutam pela emancipação social. Esse livro nos inspira a ter esperança e sempre lutar por um futuro melhor e mais justo, tendo a educação como principal arma. Portanto, o romance é um belo cartão de visitas de Samuel Oliveira de Moraes em sua estreia como ficcionista.

 

REFERÊNCIAS:

EVARISTO, Conceição. Olhos D’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2018.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada [1960]. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014.

MORAES, Samuel Oliveira de. Os Quintos dos Morais. Cajazeiras (PB): Arribaçã Editora, 2025.

 

Gabriela Lages Veloso é escritora/poeta, autora de O Mar de Vidro (Caravana, poesia, 2023).

 

 

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Os Quintos dos Morais está disponível no formato e-book na Amazon. A versão impressa do livro pode ser adquirida (com autógrafo) diretamente com o autor através do Instagram: @de_morais76.