Por Linda Barros

Através das janelas de um “sobradão feio, no Beco dos Barqueiros, sem azulejos e balcões rendados”, Miss Maude acompanhava o vai e vem da vida, apesar de não sair de casa. O Tempo é um personagem à parte na obra de Conceição Aboud.
Simploriamente, “teia” em português pode significar várias coisas, mas geralmente significa uma estrutura feita de fios finos que se entrelaçam, como uma teia de aranha. Nessa novela, as teias, figurativamente, remetem a uma rede complexa de pessoas, ideias ou eventos. Descrevem as relações entre os personagens, cada um com seus dramas, com suas histórias de vida e suas vivências.
O tempo escorre pelos dedos, passando pelos laços da teia do tempo que compõe a narrativa. Conceição Aboud foi mais do que feliz ao trazer à tona dramas que já coexistiam na década de 90, embora fossem dramas velados, já que não se discutiam sobre eles.
Apesar de viver em “um casulo”, literalmente, a personagem central da novela tem uma vida, mesmo que contida em seu mundo particular. No entanto, ela é uma espécie de ponte entre a vida real e o imaginário de seus alunos e, nessa perspectiva, eles se sentem confortáveis, porque confiam em sua mentora.
Eleita em 1955, Conceição Neves Aboud tornou-se a terceira mulher a ser eleita e tomar posse na para a Academia Maranhense de Letras, depois de Laura Rosa e Mariana Luz. Com suas obras, romances: Grades & Azulejos; Teias do Tempo; A ciranda da vida; Rio Vivo, Conceição ganha prestígio e respeito, mostrando a todos que sua obra tem muito a acrescentar, numa sociedade em que os grandes romancistas de sua geração, eram em sua maioria, homens.
Desvalorização da literatura maranhense, de um nome esquecido ou raramente lembrado por muitos leitores, é no mínimo, injusto. Na obra de Aboud, encontramos conflitos internos de uma mulher em uma sociedade que não perdoa, uma mulher reservada que se escondia em sua própria sombra, para não mostrar seus conflitos internos, ainda que vividos intensamente.
A cidade das grades e dos azulejos era intolerante a comportamentos que feriam a dignidade de uma sociedade mergulhada na hipocrisia e onde “os complexos” adquiridos na infância em uma época em que não existia Freud, psicólogos ou psicanalistas para ajudá-los. Em Teias do Tempo, a romancista Conceição Aboud consegue trazer à baila personagens que têm vida própria e são tão comuns quanto essenciais para o cotidiano de qualquer sociedade contemporânea. Sua narrativa não deixa a desejar em nenhum momento no transcorrer da obra, é como uma espécie de prenúncio, “muitas coisas são tecidas antes de acontecerem” e assim as linhas do tempo, imaginárias ou não, têm seus reflexos no passado, presente e futuro.
Inteligência, rebeldia, espontaneidade, liberdade, simplicidade, mistério, conflitos e simpatia, são alguns dos adjetivos que caracterizam os personagens que fazem companhia à solícita Miss Maud, professora de inglês, que além dos ensinamentos com o novo idioma, acompanha de perto seus conflitos e angústias.
No centenário de nascimento (10 de julho de 1925) de Conceição Aboud e duas décadas de sua morte (13 de outubro de 2005), seria relevante a reedição de Teias do Tempo, pois a obra faz um resgate do comportamento da sociedade maranhense de uma época, além de ser um romance original em sua estrutura ficcional, que muito tem a dizer à sociedade ludovicense de hoje.
*

Linda Barros é escritora e atriz. Membro da Academia Poética Brasileira e ATHEART

Aguardarei a reedição da obra Teias do Tempo desta grande romancista maranhense, a Conceição Neves Aboud. Ela é uma imortal da Academia Maranhense de Letras.
texto profundo e belíssimo sobre essa grande escritora maranhense Conceição Aboud. Parabéns!!!