Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

César William, poeta - foto: divulgação

CÉSAR WILLIAM, EM ENTREVISTA DE PAULO RODRIGUES

Ser poeta independe da quantidade de livros que publiques ou da quantidade de sinos que badalem em torno da tua produção.”

(César William)

 

Poeta César William no lançamento do seu primeiro livro, O Errante – foto: divulgação

Filho de William David Costa e de Maria Rita de Sousa Costa, César William David Costa nasceu em São Luís – MA, no dia 22/05/1967, pertence à entressafra da Geração 90, desde cedo se demonstrou um vocacionado para as letras, vencendo o I Festival Intercolegial de Poesia Falada, em dezembro de 1984.

Tem participação em várias antologias poéticas locais e nacionais. Autor dos livros, O Errante (poemas, 1988), Oficina das PalavrasAlgumas Dicas Formais da Língua Portuguesa (2014 – 3ª edição), Carta (à) Margem (poemas, 2024); Recado Maior de um Menino ou Reinvenção do Zé (biografia), Jogo de Imagens em Salgado Maranhão (ensaio), inéditos. Teve poemas selecionados para a antologia Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão, projeto da Academia Maranhense de Letras. Tem publicações em vários jornais de São Luís.

É professor de Língua Portuguesa e Literatura, graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão – Uema, pós-graduado em Literatura pelo Instituto Educacional Superior Franciscano – Iesf e em Gestão e Supervisão Escolar pela Faculdade Maranhense – Fam.

É membro fundador da Associação Maranhense de Escritores Independentes – Amei, da Academia de Letras de Paço do Lumiar – ALPL; filiado à União Brasileira de Escritores – UBE, membro correspondente da Academia Icatuense de Letras – AILCA e pertence ao grupo Os Integrantes da Noite, uma agremiação virtual de poetas e escritores que difundem, discutem e defendem arte, sobretudo a literatura maranhense. 

 

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Paulo Rodrigues entrevista o poeta César William

 

  1. Paulo Rodrigues – César William, como foi seu encontro com a poesia? 

César William – Surgiu no antigo Secundarista, em 1984, quando venci o I Festival Intercolegial de Poesia Falada com um poema simples, bem simples e lírico,  intitulado Vento Mar. Em 1983, na mesma escola, Almirante Tamandaré, conheci Wilson Cerveira e Francisco Tribuzi que eram meus professores na referida instituição. Cerveira criou um Clube Literário com encontros aos sábados, ele fazia leituras, oficinas, recitais e isso me motivou bastante. E o fato de o Francisco ser filho do Bandeira Tribuzi fortaleceu minhas curiosidades no âmbito literário, sobretudo da poesia. Mais tarde, em 16 de dezembro de 1988, Francisco Tribuzi me apresenta no lançamento do meu livro, O Errante, no auditório do Sioge. Depois disso, tornei-me frequentador assíduo da Biblioteca do Sesc e da Biblioteca Pública Benedito Leite, engrenando-me cada vez mais no universo literário.   

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os autores preferidos do poeta César William? Quais autores destacaria na literatura contemporânea do Maranhão? 

César William – João Cabral de Melo Neto, Drummond, Bandeira, Quintana, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Emily Dickinson, Jorge Luis Borges, Florbela Espanca (…) – os básicos para todo e qualquer poeta (penso). Quanto aos meus preferidos maranhenses, o quarteto Nauro Machado, Ferreira Gullar, José Chagas e Bandeira Tribuzi (nessa ordem) é meu panteon E na lista dos contemporâneos, não posso deixar de citar: Salgado Maranhão, Antônio Aílton, Bioque Mesito, Carvalho Junior, Laura Amélia Damous, Paulo Rodrigues e Luiza Cantanhede (só para citar alguns). Um único verso que me faz admirar a criação de um poeta é-me suficiente para gostar da sua obra, como essa genialidade de Félix Aires: “Longe, a gaivota voando,/ é um til perdido nos ares.”  Ou de Paulo Melo Sousa, “a ausência é um animal de grande porte”, citando apenas dois autores de diferentes gerações e estilo.

 

  1. Paulo Rodrigues – Como é o processo criativo do poeta César William? Escreve com disciplina?

César William – Meu processo criativo é algo perigoso. Os textos me dominam. Enquanto não dou conta de prepará-los e deixá-los no ponto que eu julgar bons para serem publicados, eu mesmo não sirvo para muita coisa. Sou indisciplinado demasiadamente. Começo um livro e não concluo. Depois já estou com outro em mente. Mas, travei luta contra isso e penso que já melhorei bastante.

César William, no lançamento do seu primeiro livro, O Errante, com o também poeta Francisco Tribuzi.

 

  1. Paulo Rodrigues – César William, Antonio Cícero afirmou: “o bom poema é intraduzível”. Você concorda com ele? O bom poema é uma peça exclusiva? 

César William – Concordei durante um bom tempo, mas depois que me devotei mais a Manuel Bandeira, Manoel de Barros, José Chagas e Salgado Maranhão, fiquei em xeque quanto a essa sustentação. Por que em xeque? Porque me deparo com a genial produção de Nauro Machado, embrenho-me no seu campo semântico e, diante de alguns dos seus poemas (muitos), volto à primeira tese. Ater-se ao que Nauro fez com os versos é tão desafiador quanto investigar a fundo as técnicas para a construção das pirâmides do Egito. Tudo dele é sofisticado, seu produzir e seu olhar sobre essa missão. Tudo o que ele afirmou pode ir atrás que tem fundamento. E aí me vem à mente também Sousândrade.  

 

  1. Paulo Rodrigues – Poeta, você venceu vários prêmios. Eles ajudam a divulgar o trabalho do poeta? 

César William – Sim. Cada participação em antologia, cada premiação em festival, mesmo que seja apenas uma menção honrosa, vão dando visibilidade ao que produzimos e nos dando também mais responsabilidade para continuarmos no processo. Mas, só me considerarei realmente premiado quando eu tiver pelo menos um livro inteiro contemplado em concurso literário. O conto Cartinha a um velho poeta, de Dalton Trevisan, educa-me a não me envaidecer nem me iludir com qualquer coisa.   

 

  1. Paulo Rodrigues – Como você observa a formação do leitor no Brasil? É preciso formar o leitor do texto poético?

César William – Observo com muita preocupação, porque as grandes mídias incutem ideias errôneas sobre o fazer literário na mente das crianças, sobretudo no âmbito da poesia. Na maioria das vezes, as escolas pegam carona com essas mídias. Querem limitar a poesia e terminam fazendo com que quase todos concebam como poeta somente quem fala de flores, mares, dores, paixões e rimam céu com mel. É preciso leitura. Em 2016, conduzi uma estudante de Paço do Lumiar até Porto Alegre, pelas Olimpíadas de Língua Portuguesa, com o gênero crônica. Ela foi semifinalista no referido concurso, mas, para tanto, lemos em sala de aula cerca de 100 crônicas de autores estrangeiros, nacionais e maranhenses. Essas leituras e oficinas surtiram efeito positivo, trazendo consciência literária à estudante que somada à sua sensibilidade e inspiração trouxeram-lhe grande resultado. Tem que haver leitura, mais leitura que escrita!   

 

  1. Paulo Rodrigues – Fale um pouco para nós sobre o livro O Errante. E fale também sobre o livro novo, Carta (à) Margem.

César William – O Errante foi fruto das minhas primeiras inspirações. Apesar de não ter ainda maturidade suficiente para ser um autocrítico, consegui ser original, mas sofri muito. Ouvi conselheiros de plantão e saí do casulo. Deparei-me com críticos honestos e também com outros que julgam tua obra sem sequer lê-la. Ambos me ajudaram e continuam, continuarão me ajudando.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do poeta? 

César William – Estou escrevendo, sem me preocupar em ficar postando em blogs, grupos, redes sociais. No momento, prefiro mesmo o silêncio, até que eu me sinta no ponto de expor tudo o que eu for produzindo. Estou batalhando para lançar mais um livro ainda este ano.    

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores. 

César William – Ser poeta não é tarefa fácil para quem de fato o é. Há um chamado que nenhum cânone explica. Se és poeta, siga a missão. Busque a disciplina (estou buscando e o resultado é regozijante). Não se iluda com títulos, certificados, troféus, menções, cadeiras blindadas. Isso também é válido, mas não é o que de fato valida a tua poesia. Talvez ela não seja vista agora ou demore a ser vista, porém se ela tiver valor literário, surgirá alguém que tocado por ela, uma hora irá reconhecer o teu trabalho. Ser poeta independe da quantidade de livros que publiques ou da quantidade de sinos que badalem em torno da tua produção. Como disse o imortal Nauro Machado: “Ser poeta é duro e dura / e consome toda uma existência”. E se não és poeta, e ama poesia, continue lendo, os poemas te livrarão do senso comum de tudo e te oferecerão cada vez mais lugares que habitarás e que te habitarão.

 

Livro Carta (à) margem (2024), de César William 

 

POEMAS DE

CÉSAR WILLIAM

 

FLOR SELETA

 

Para Salgado Maranhão.

 

O melhor poema

ninguém o escreve

ele é pé-de-luz andarilho

inventando estradas de sonhos

não tem forma nem cheira

nem quer dizer coisa nenhuma

que o digam

o melhor poema

visita-nos

abriga-nos por dentro

e é sempre um fora.

 

 

POEMA PARA MEU PAI

 

Para meu pai, William David Costa, um ambientalista nato, amante da natureza, um poeta sem versos.

 

Meu pai é pedreiro

mas não é qualquer feitor

que enfrente as pedras.

 

Ele as benze

antes de lançá-las

no longo muro

duro de sonhos.

 

Sete vezes medita

cada vez que lê

tijolo que deposita

na textura do seu fazer.

 

E filosofa com o prumo

contextualizando sua mira

reinventando novo rumo

como se tocasse uma lira.

 

 

GALOPES AO ENTARDECER

 

Penélope sabe que há muito

vem na garupa comigo

no mesmo cavalo de Ulisses.

Cavalgamos por trilhas errantes

nos galopes de silêncio e suspiros

e tanto ela quanto eu sofremos por isso

porque vivemos só pela  sintonia

e Platão é padrinho desse precipício.

 

 

CÂMERA UM

 

Saga em mutirão no quintal de casa

formigueiro fervendo em terra removida

como se eu visse homens na Serra Pelada.

Em vão tento conferir operários

eles não se incomodam comigo e têm pressa.

Guardar suas quentinhas para o próximo inverno

é uma missão quase suicida na frente de um humano.

Rápido um corredor cor de gasolina se avexa

ziguezagueando os minutos de um relógio que desconheço.

Transeuntes com verdes torços vão tecendo a aba da manhã

e eu desisto de pôr o pé sobre aquela vermelha torre.

Não estão inscritos no programa Auxílio Brasil

O IBGE os desconhece e o Fantástico não sabe o que perde.

Tudo está formado e me torno cúmplice

do xadrez nas folhas do pequeno abacateiro.

 

(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)

 

 

PESCARIA

 

Enrugadas mãos tecem a tarde em linha reta

cruzando nó por nó  no nylon

por cima e por baixo vão conduzindo

agulha  desembrulhando  angústia na malha

como se fosse um poeta burilando a palavra

o velho tece e  retece sua rede num zigue-zague

feito piaba prateada furando as águas

no oceano da sua dúvida e no palhabote da sua alma

escorre do seu polegar  atalho ligeiro

formando nova  janela de onde escorrem suas mágoas.

 

(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)

 

 

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Paulo Rodrigues (entrevistador) é jornalista e poeta maranhense/brasileiro, autor de Moinhos (no prelo),Cordilheira (Patuá, 2025) e do romance O desencanto das águas (2025), entre outros livros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PINTURA QUASE ÍNTIMA

 

O fungo nas unhas desenhou um quadro barroco

nas mãos de barro do operário que ouvia ópera

pouco preocupado com os abismos  nos dedos

o homem  já concebia   as manchas como flocos

gastas  garras   desconfigurando-se e  derretendo

feito um sorvete suicida encarando lentamente  o sol.

 

(Tecido Tempo – Mostra da Poesia Contemporânea do Maranhão – Antologia da AML/2023)

 

 

 

SOBRADO

 

Feito androide perdido nos degraus do beco

da tensa escalada de escatologias nas trilhas de lioz e cantaria

onde Catarina deslizou os pés engrossou e esculpiu os tornozelos.

 

O sobrado abriga antigas histórias de uma cidade sem fronteiras

guarnecido por musgos e alimentado com óleo de baleia

desafiando limites nas passadas lentas de fino ponteiro.

 

 

 

 

CARTA (À) MARGEM

 

Poema que surge inexato

não sabes o quanto espero

emergires do poço fundo

após derretidas buscas.

 

Claro enigma em folha de relva

que descreva agora meu delírium tremens

nesta tarde naureana sem Nauro

na estranheza da ponderação do silêncio.

 

 

Salvai-me, poema, do antigo desencontro:

limão nos olhos, farpa nos dedos

cidade desaparecida, silenciando

como os canhões de Chagas.

 

Nebulosa batalha em impiedosa arena

alvura desenhando meus cacos

pondo-os como paralelepípedos

para transeuntes passarem

com seus objetos indiretos

na Grande Rua de encolhidos homens.

 

 

Sombra caída do Caiçara na calçada

límpido poema sujo correndo como um rio

dentro da noite veloz, lentamente em mim,

relato do escambau no umbigo do mudo

eis o exercício do caos na persona non grata.

 

Salvai-me poema, da morte do boi

na liberdade ou em sevilha

nos arraiais ou em câmaras frias.

 

 

Cândido como os dentes alvos de radamés

torna-me poeta, na calma ou na fúria

reconstituindo-me sob o signo de um sol sanguíneo

livrai-me do ser bissexto ou da penúria.

 

Minha república é a dos becos

habito na lâmina do grito

para servir tribuzi nos guetos

e me livrar de qualquer conflito.

 

 

Não fujo do jogo das serpentes

corro no círculo das pálpebras

numa compulsão agridoce

destemido e sem lamentos

sou fingidor e navego no (im)preciso

o mural que leio é o dos ventos.

 

 

Livrai-me poema, da morte plena

ainda que eu ande só pele e osso

que testemunhe o crime na flora

ou que me sirvam só “carne de pescoço”.

 

 

Nesta inconstante órbita dos extremos

releio as sete faces do poema

na rua do sol e da lua

como exímio navegante

em nau distante e nua.

 

 

De um mirante agonizando na rua do giz

vejo o pombo de paulo como visagem

revoando sobre os telhados da antiga são luís

saindo de um quadro sem moldura e sem imagem.