Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

INTERVALO MUDO – Poetas do Curso de Letras UFMA/Bacabal lançam livro coletivo

QUANDO O INTERVALO NÃO É MUDO

 

*Ricardo Nonato Almeida de A. Silva

 

Gravura de Ricardo nonato para a capa do livro Intervalo Mudo, 2026
Gravura de Ricardo Nonato para a capa do livro Intervalo Mudo, 2026

 

Poetas do Intervalo Mudo: Rayssa de Jesus, Wylmara Thaís, Mayara Miranda – foto: divulgação

No projeto EXPERIÊNCIAS CRIATIVAS do curso de Letras na Universidade Federal do Maranhão em Bacabal a atividade poética é central.

Entendemos, com Alfredo Bosi  (2000),  que a imagem no poema “é uma palavra articulada”. E, ainda seguindo o mesmo autor, também passamos a encarar a linguagem poética como um “sistema construído para fixar experiências de coisas, pessoas ou situações”. Assim, até mesmo aquele que não possui a prática da escrita de poemas, pode esboçar a arquitetura de versos nos quais manifeste suas particulares experimentações no/do mundo, uma prática humanística na formação dos envolvidos nas atividades, enquanto sujeitos críticos, autônomos e criativos alinhavados pelo letramento lírico e sua potência. Toda essa experiência é intensificada de forma contundente pelos poemas criados nas oficinas entusiasmantes do projeto, considerados o produto do trabalho. Assim, a experiência criadora tece a sua forma, dinamizada e partilhada como gestos de leitura. 

Tudo isso é parte do caminho que provocou e produziu o livro INTERVALO MUDO (2026) como objeto de realização de uma experiência poética, humanizadora e formadora.

Antes do livro veio a descoberta, às vezes confusa da palavra POEMA. Várias conversas sobre o fazer poético e muitos silêncios. Também a minha descoberta de encontrar as autoras a partir do interesse pela POESIA, um gênero literário que, ao contrário do que muitos pensam, ainda é pouco estudado no espaço acadêmico. Por isso, falar desse livro é acreditar na força das palavras, na potência dos afetos e dos encontros que diluem as distâncias.

Este livro é o resultado de um processo íntimo e seus entendimentos cruzados, instigados, de soluções desconfortáveis, felizes, de recusas, mas também de aceitações.

Também não saberia explicar como a poesia aconteceu para estas três, despretensiosas vozes – Mayane, Rayssa e Wylmara – que aceitaram o desafio. De algum modo, sou culpado pelo que repercutiu e como são poemas tão cheios de vida. Os poemas aqui presentes, antes de suas materialidades, percorreram caminhos dentro e fora da leitura, dos pensamentos e das vivências, como quem precisa mergulhar e voltar não desejando encontrar salvação, mas para consolidar a sua viagem na escrita.

            Como muitos livros, o título (Intervalo Mudo) veio depois dos poemas agrupados. Na verdade, a ideia do livro surgiu com a certeza de que ele seria possível, com muitos poemas ainda em curso e outros esperando findar. No fundo, pouco importa.

            O fato é que estar diante de um projeto não era garantia do resultado, mas uma intuição definiu a coragem. Isoladamente, cada autora já acenava a possibilidade para que isso acontecesse mesmo não declarada.

            Alguns poemas bem escritos, cheio do frescor dos inícios pediam por isso. Então, foi proposto para que cada uma produzisse dez poemas. Quando foram convidadas para o desafio já me era conhecida a dicção de suas escritas e a forma que adotariam, a do verso livre. Distintas, verdade, mas possível de estarem em um mesmo livro, muito por suas escolhas temáticas, muito pela afinidade que já existia visível nos encontros que fazíamos nos imprevistos de cada semana.

            Em uma das conversas com as autoras apresentei a questão: “agora precisamos de um título!”. Expliquei sobre a importância desse momento, apesar de o livro não estar totalmente concluído. Diante de tudo isso, estabeleceu-se um impasse dissolvido pelo silêncio. Nesse mesmo dia – 30 de julho – , Rayssa apresentou três títulos e neles estavam as duas palavras do título atual presentes nas poesias das autoras. Então foi sugerido juntá-las: intervalo e mudo. Naquele momento não havia consciência da expressão fora da leitura dos poemas, como o “Estelar”, de WylmaraThais, de quem cito os dois primeiros versos: “Estou em intervalos/Sou aquela tessitura baixa” ou “UM(N)DO”, de Mayane Miranda em que a palavra mudo está presente nas quatro estrofes do poema, evidenciando a força interior de uma eu-lírico que não silencia e com as palavras encontra libertação: “no meu mundo/ teu mudo/ trouxe barulho // no meu mudo/ toneladas de palavras/ no meu mundo /teu mudo/ trouxe colapso // do meu mudo/ não me restou/ palavras guardadas”. A escolha do título, a princípio, foi só intuição.

            Agora, chegou a vez de entregá-lo ao mundo. O livro Intervalo Mudo será lançado no dia 23 de junho/2026, às 16 horas, no auditório do Centro de Ciência da Universidade Federal do Maranhão, em Bacabal. 

 

 

Rayssa de Jesus, Wylmara Thaís e o Prof. Ricardo Nonato (UFMA/Letras-Bacabal) – foto: divulgação

 

*Ricardo Nonato Almeida de A. Silva é poeta, docente do Curso de Letras da UFMA/Campus Bacabal, coordenador do Projeto de Extensão Experiências Criativas, e organizador-editor do livro Intervalo Mudo.

 

*

 

MOSTRA DE POEMAS DO LIVRO

 

Mayane Miranda

  

PARASITA

 

rasteja sob a pele

rouba a carne

alimenta-se

 

faz refém

 

transporta-se para o cérebro

faz morada

cria milhões de ovos

 

some,

me deixa incompleta

 

  

DÉDALO

 

percorro

por traços puídos

páginas perdidas

 

aspiro o cheiro do mofo

até que se alastre

por cada parede

 

alimento-me

dos vãos

 

procuro saída

 

 

IN NOMINE PATRIS

 

Tenho uma serpente

Que me enrosca

do estômago ao peito

 

De hora em hora,

Me envenena.

 

Por causa dela

Carrego um sangue verde

Cérebro preto

Pulmão cinza

 

Beijou-me a testa assim que nasci.

 

 

Rayssa de Jesus

 

SÍNDROME DE UMA VIRGEM

 

Bela dos pés aos ombros

Vestia  imortalidade

Consumia inveja e rancor

 

Destrinchava a pele

Mordia os ossos

Chorava mentira

 

Ansiava no pecado.

 

Nas manhã rezava.

ave Maria cheia de graça

 

às 9h

fantasiou-se de morte

Na esquina da igreja

 

Saiu do prostíbulo às 10h

 

Se enforcou

A virgem de cabeça

 

 

SALADA DE ÓRFÃOS

 

Perfure o pulmão

Arranque as tripas

Faça uma sopa de salada

 

Das cordas vocais

 façam música

 

Da língua um churrasco

Use o fígado

ele regenera

 

Toda salada está pronta

Bata e coma

 

Por fim, a indigestão

 

Até 3 dias depois

Vou nascer

Da salada

viva

 

 

MEMÓRIAS ESQUECIDAS

 

Vista do alto

Perto do nariz de ouro

 

O intocável

 

Transformada em metapoesia

Sinônimo: Autores maranhenses

 

Os imortais

 

Preso na memória

Solto pra briga

 

Amarrados nas palavras/códigos

 

Traçados pelo breu da poesia

 

Memórias costuradas

Na pele do ser vivenciado

 

  

Wylmara Thais

 

ESTELAR

 

Estou em intervalos

Sou aquela tessitura baixa

 O valor me é tirado

 

Como tiro minha vida…

Sem sucesso

 

Pelo menos ganhei pulseiras novas,

Elas brilham, Star girl!

 

 

TERRAMAR

 

O poema não escrito,

Se afoga no mar do esquecimento

Cardumes de palavras,

dançam em uma só melodia

 

Nele, escuto o canto da sereia

Me afogo no verso, esqueço o presente

 

O poema não escrito,

Mantém intacto nas Fossas da Mariana

Tento recuperar, mas não consigo…

A terra sempre me arrasta de volta.

 

 

CORPO CÓSMICO

 

Laniakea pulsa vida- respira como pulmão,

Aglomeração de vastos, infinitos percursos.

Veias do coração

 

formas e dimensões, a espinha dorsal em explosão

Um corpo que dança e se enrosca,

caixa torácica em eterna eclosão

 

Rede cósmica ou cérebro em expansão?

Corpo sem carne- morre em fusão.

 

Filamentos fluem como veias cavas

Ecos da vida em  proporção

 

 

Laniakea: estrelas em aglomeração

Entre tantos, apenas poeira da criação