Marcos Fábio Belo Matos
Acabo de ler o livro O Desencanto das Águas, do poeta [e agora romancista, porque inaugurou com este romance a sua trilha narrativa, como deixa registrado no texto] Paulo Rodrigues. Paulo já é um escritor reconhecido e tarimbado, com alguns livros de poemas já publicados e prêmios, de âmbito nacional, na biografia. Portanto, para ficar no campo nocional da metáfora, já conhece bem as águas da literatura.
É um belo livro este que ele urdiu e que nos deu à luz pela Editora Litteralux, selo de Guaratinguetá, SP. Em sete capítulos, Paulo nos apresenta aos personagens que formam um pequeno mundo que tem o Pindaré como laço seminal. O foco é a história/vida de Bruno, um ex-estudante de Filosofia da UFMA que, por problemas estruturais, deixa o curso e volta para Pindaré. Lá, ele tem a vida entrelaçada a velhos e novos sujeitos, como Pai Velho [seu avô, quase um farol na sua vida], seu amigo Galileu, que vai puxar algumas cordas da sua vida, mudando aqui e ali o rumo dela; Dandara, um amor prostituído e que lhe deixa uma marca, “como tatuagem”, numa acepção buarqueana; Joana, seu segundo amor, amor de adultério, que o põe diante de uma tragédia e uma refacção de vidas, a dela e a do seu marido, João. E a dele próprio, por assim dizer.
Há ainda outros personagens que por Bruno passam, durante a sua trajetória. Todos, em maior ou menor grau, impactando a sua vida, levando-a para frente ou para trás, a depender dos meandros dos acontecimentos.
Mas há, no meu entender, um personagem maior que todos, e que escorrega por toda a história, ligando quase todas essas vidas e suas ações. É o rio Pindaré, com seus peixes, com sua liquidez densa, seus cheiros, os seres que o povoam, o macromundo de tudo o que está no seu entorno. O Pindaré é um personagem importante em toda essa história.
Entremeadas com as memórias das águas do Pindaré estão as da infância, do pai e da mãe e suas tragédias de morte, da pequena cidade e sua aura, seus encantos; está tudo o que ajudou a perfazer Bruno, Bruno Giordano. O homem e seus dilemas existenciais.
O livro é recheado de referências literárias e filosóficas, o que, inequivocamente, deixa entrever as cosmovisões do autor, suas leituras, suas predileções, suas concepções e seus estandartes. Sarte, Jessé de Sousa, Darcy Ribeiro, Carlos Assumpção, Drummond, estão lá, metidos como personagens, como norteadores do que Bruno pensa e vai dizendo, em pensamento e em ideal.
“Incrível como a literatura explica as esfinges dentro do homem”, citação retirada do livro As Moscas, de Sartre e que Paulo Rodrigues faz encontrar Bruno, no ar, rumo ao Rio de Janeiro. Pode ser esta também a epígrafe do que o autor constrói, narrativamente, para nos delinear que, entre as vidas de gente comum, há tantos enigmas – que são os de Bruno, de Dandara, de Galileu, de Joana, mas que poderiam ser, facilmente, os de cada um de nós, seres de carne e osso.
Paulo Rodrigues, com o seu O Desencanto das Águas, nos oferece um painel bastante amplo de tudo o que pode estar [ou caber] numa vida. Todas as profundezas que uma vida pode abarcar. Como as águas caudalosas do rio em que tantos dos seus personagens beberam…

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Marcos Fábio Belo Matos é jornalista e professor do Curso de Jornalismo da UFMA [marcosfmatos@gmail.com]

Marcos Fábio é um intelectual que conhece as trilhas da prosa. Parabéns ao Sacada Literária por divulgar a literatura contemporânea do Maranhão.
Dois notáveis e queridos escritores! Parabéns! E a Sacada extraordinário instrumento de conhecimento! Meus aplausos! Dilercy Adler