Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

José Maria Viana Filho, cineasta. Foto: divulgação

Cineasta JOSÉ MARIA SOARES VIANA FILHO entrevistado por PAULO RODRIGUES

PAULO RODRIGUES ENTREVISTA

O CINEASTA

JOSÉ MARIA SOARES VIANA FILHO

 

 

Cartaz do curta Tambores da Liberdade: vidas e lutas no Quilombo de Santana (2024-2025), do cineasta José Maria Soares Viana Filho

 

José Maria Soares Viana Filho é maranhense, de Santa Inês do Maranhão, 49 anos. É Bacharel em Administração pela UEMA e pós-graduado em finanças pela Universidade Tuiuti do Paraná. Bacharel em Cinema, pela UNESA, da cidade do Rio de Janeiro, sendo Mestre em Políticas Públicas e Governo, pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais; é funcionário público Federal há 14 anos, atuando na área administrativa do SUS (atualmente é Superintendente Substituto e chefe da Administração da SEMS-MA). Tem voltado seu aprendizado para a área de produção, captação e gerenciamento de recursos.

Foi redator do programa de Rádio “Estação Cinema” da Universidade FM de São Luís – MA, como também, foi produtor do projeto de cine clube com o SESC-MA. Trabalhou como assistente de produção e produtor de palco na gravação de diversos DVDs, como o Dvd Show, da Angela Ro Ro, Alceu Valença, Leandro Sapucaí e Jammil e Uma Noites, assim como de alguns videoclipes: Majori Estiano, banda Ponto de Equilíbrio, Seu Cuca etc… Produziu, dirigiu e roteirizou alguns curtas acadêmicos e produções independentes na cidade do Rio de Janeiro e em São Luís do Maranhão.

Trabalhou como staff e assistente de produção do 25th World Judo Championships (sediado na cidade do Rio de Janeiro,2007) pela Midmix Brasil na área de CATV em colaboração com a Tv Japonesa Fugi. Foi Produtor Geral, Produtor Executivo e Editor do programa infantil Fator X da Television Brasil(Grupo Televisa, México) e ainda roteirista e produtor do Almanarque News, programa  da mesma rede. Trabalhou na pré-produção do Longa em Digital “Autobiografia” de Henrique Saladine, como Diretor de Produção. Desenvolveu o projeto “cinema bairro”, nas cidades de Nova Iguaçu, Belford Roxo e Caxias na Baixada Fluminense, em parceria com as prefeituras e empresariado local. Foi Coordenador de Audiovisual da Cidade de Maricá- RJ, e desenvolveu diversos projetos na área, dentre eles o cinema escola, o caminhão de cinema itinerante, em parceria com o SESC- RJ e o polo de cinema da região. Atuou em mandatos de deputados federais, estaduais e vereadores sempre na área de cultura.

No ano de 2023, foi assistente de produção do Show do Roberto Carlos na capital São Luís, do Show Atemporal, como também, produziu e roteirizou (com fomento pela prefeitura de São Luís, através da Lei Paulo Gustavo) o videocast “Rádio com Chocolate” do radialista Flávio Chocolate.

Foi produtor, roteirista e diretor dos curtas: André Cavalcanti 174(2007/2008), Artesãos da Raposa: Tecendo Identidades (2024/2025), Vozes do Mar: a vida e a artes dos pescadores da Raposa – MA (2024-2025), Tambores da Liberdade: vidas e lutas no Quilombo de Santana (2024-2025) e Turma da Mangueira: verde que te quero Rosa (2024), sendo os quatro últimos com incentivo da Lei Paulo Gustavo. É autor do livro, publicado pela editora Litteris, O abominável homem de neves. É também colunista semanal do jornal AGORA SANTA INÊS, escrevendo sobre cinema, música e esportes.

 

 

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  1. Paulo Rodrigues – José Maria Soares Viana Filho, o Cacá Diegues afirmou certa vez: “tudo o que eu aprendi na vida, foi vendo filmes”. Ele tem razão? O que o cinema ensinou para você?

José Maria Soares Viana Filho – Paulo, o cinema é uma arte completa, dialoga com todas as outras artes, e nos apresenta, desde o final do século XIX, essa magia do controle do tempo. Costumo brincar que vejo cinema desde que nasci… Com certeza não me lembro, meus pais me disseram, mas parava de chorar ao ver um faroeste passando na televisão. Parece lúdico, mas acho que eram os sons que me acalmavam. Então é uma relação antiga: o cinema comigo. Ele me ensinou, em primeiro momento, a entender todas as artes, pois estão lá a música nas trilhas sonoras, a literatura e toda diegese que essa arte cria. O cinema me apresentou mundos, línguas diferentes e, em diversos momentos, foi um condutor, às vezes coadjuvante, do meu aprendizado até hoje. Isso tudo entretendo, divertindo, me fazendo pensar… Do ponto de vista profissional, me ensinou que é uma arte cara (rsrsrs) e trabalhosa. E, principalmente, me ensinou a hierarquia, a disciplina e a trabalhar em equipe de todas as formas que essa expressão possa significar. É uma arte coletiva e com um poder de reprodução muito maior do que eu imaginava.

 

Cartaz do curta Artesãos da Raposa: Tecendo Identidades (2024/2025), de José Maria Soares Viana Filho
  1. Paulo Rodrigues – O movimento do Cinema Novo contribuiu com a arte nacional e mundial. Terra em Transe, do Glauber Rocha, ainda é um filme para compreender o Brasil?

José Maria Soares Viana Filho – O cinema nacional vive de recomeços; eu chamo o Cinema Novo de o terceiro recomeço do cinema nacional, e não poderia recomeçar da melhor forma. Foi um grupo de cineastas e artistas em uma época efervescente no mundo. O movimento dialoga com o neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa: ideias novas, equipamentos novos, realidade pós-guerra. Fizemos nossa versão que explodiu em novas formas de narrativas, novos autores, atores e profissionais em todas as áreas que o nosso cinema necessitava. Glauber, nesse contexto, não é só o criador, é o pensador do movimento. A prática e a teoria na mesma pessoa. Terra em Transe é, na minha opinião, o que pode melhor exemplificar a obra do Glauber Rocha: estão ali expostos a política e os dilemas sociais. O país fictício Eldorado é o Brasil, em “carne e osso”. Tive o privilégio de rever quase toda a obra do Glauber na telona do cinema na faculdade. Obras restauradas do mestre Glauber, e Terra em Transe é inovador, provocativo e extremamente atual. Um bom começo para tentar entender o Brasil é assisti-lo.

 

  1. Paulo Rodrigues – Como você avalia o sucesso de “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles? As premiações são importantes para quem produz cinema?

José Maria Soares Viana Filho – Faltava essa premiação para nosso cinema, como diria o cineasta italiano Federico Fellini, “na história do cinema o Oscar é o prêmio supremo”. Batemos na trave algumas vezes, tínhamos o Oscar com Orfeu Negro, mas a produção é francesa e a estatueta ficou lá. Temos Palma de Ouro, Veneza, outros grandes festivais, mas faltava o Oscar. É importante, é reconhecimento, é mercado, é política. Cinema é uma arte cara, com um poder imenso de geração de empregos e conteúdos. Um sistema, uma engrenagem que, além da necessidade de público e toda uma lógica de mercado, necessita de reconhecimento, vitrine. Um produto nacional que deve ser exposto a outras culturas. Os festivais e premiações nos credenciam a essa lógica. E que bom que foi com Walter Salles e ainda mais com uma temática política tão importante para a gente. Nossa história exposta, um período que deve ser sempre lembrado. A arte tem essa função. Memória é história. E estamos ali, cada brasileiro que sofreu no período da ditadura nacional. Rubens Paiva foi “colocado” no seu devido lugar. E Eunice Paiva representa tantas mulheres do Brasil e do mundo, que sofreram com a violência de ditaduras. E a obra do Walter tem esse poder, nos mostrou  ao mundo, dialogando com um momento tão complicado de verdades falsas e flerte com ditaduras e discursos estranhos. Que bom que Walter Salles usou da sua narrativa e foi tão feliz em construir uma história tão real e tocante. Essa premiação é importante para ele e para cada diretor brasileiro que faz da sua obra uma construção da nossa história.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os diretores de referência para José Maria Soares Viana Filho?

José Maria Soares Viana Filho – Paulo, gosto de separar em categorias, vamos lá:

  • Os clássicos: Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Coutinho, o italiano e mestre Fellini e gosto do britânico David Lean.
  • Chamo de geração de setenta americana, o trio: Brian De Palma, Coppola e o meu predileto Martin Scorsese.
  • Vi toda a obra do diretor canadense David Cronenberg, então deve ser um sinal que sou fã mesmo (rsrsrs).
  • Dos mais novos americanos: Darren Aronofsky, Christopher Edward Nolan e David Fincher.
  • “Da nova onda coreana” sempre indico filmes de Kim Ki-duk e Park Chan-wook, como também, vejo tudo que o Bong Joon-ho faz.
  • Tem uma série de cineastas novos, e outros mais antigos que deixei passar, mas aí a lista ficará extensa demais.
  • Dos brasileiros mais novos: Walter Salles é um mestre, Fernando Meirelles é um gênio, Anna Muylaert me chama a atenção sempre e Kleber Mendonça é o nosso maior criador atualmente.

 

Viana Filho, cineasta e administrador, produtor e roteirista
  1. Paulo Rodrigues – Você fez faculdade de Cinema no Rio de Janeiro. Como foi essa experiência? Como consegue conciliar o administrador e o cineasta?

José Maria Soares Viana Filho – Fiz parte de um grupo de maranhenses que foram estudar a sétima arte no Sudeste e no Distrito Federal. Fiz na UNESA no Rio de Janeiro e foi um choque de realidade: prática e teoria. Foi uma escolha certa, e estava estudando no momento do boom de gravações de DVD. Entrei no mercado de produção de DVDs musicais, o que me levou para produções de shows. Paralelo a isso, fui “jogado” na televisão e produzi alguns programas também. Minha formação de administrador, especializado em finanças, foi quase que automaticamente inserida no mundo de produção e produção executiva. Captação de projetos, e toda essa logística de captação de recursos, caíram no meu colo. Minha formação me ajudou e muito. E fui “dividido” entre o público e o privado. Trabalhando com prefeituras, chegando até ao cargo de coordenador de audiovisual em Maricá – RJ. Diversas experiências, todas interrompidas quando passei para o concurso federal do Ministério da Saúde. Agora estou voltando aos poucos, trabalhando com incentivos diretos da Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc.

 

  1. Paulo Rodrigues – Você faz resenhas sobre cinema que são impecáveis. Gosta de escrever sobre filmes? Há leitores interessados no mundo contemporâneo?

José Maria Soares Viana Filho – Obrigado pelo elogio! Vim da escola de cineclubes, onde a minha geração mergulhava nos filmes clássicos e depois “descambávamos” para a resenha crítica. Fiz cineclubes no CEUMA e no SESC São Luís. Criei, com mais dois amigos, o programa de rádio “Estação Cinema” na rádio Universidade de São Luís – MA, participei da explosão dos blogs, criando páginas voltadas para cinema; também fiz duas colunas no jornal AGORA SANTA INÊS, da minha região. A escrita e a redação estão na veia, cinema sempre vai vir em primeiro lugar. Mas gosto de dar “pitacos” sobre literatura, música e esportes. Escrevo e não me importo com o alcance, jogo a obra nas redes, tenho me adaptado à linguagem mais rápida do Instagram e WhatsApp, mudei meu estilo para sobreviver nesse mundo acelerado e de poucos caracteres. Sempre terão leitores, mais interessados e ou melhores na interpretação, conforme seus interesses. Leitores sempre existirão, temos que nos adaptar à linguagem para continuarmos vivos nesse mundo tecnológico.

 

  1. Paulo Rodrigues – Quais são os novos projetos do José Maria Soares Viana Filho?

José Maria Soares Viana Filho – Ao voltar para São Luís, comecei a trabalhar na produção de shows, paralelo ao meu trabalho como servidor público federal. E conheci novos produtores, como também, a cena cinematográfica no Estado. Devagar estou, através dos incentivos da Lei Paulo Gustavo, refazendo minha carreira como diretor, roteirista e produtor de cinema. Já foram quatro projetos concluídos e agora é seguir esse caminho: editais e leis de incentivo. Produzi um videocast em 2023/2024 e gostei da linguagem: audiovisual com rádio, entrevistas etc… Estou na fase de captação de dois importantes projetos de séries documentais: sobre o lutador Rei Zulu e o outro é a história do Mocotó pelo Brasil. E estou vendo também, a viabilidade financeira de um videocast aqui na Ilha de São Luís.

 

  1. Paulo Rodrigues – Deixe uma mensagem para os nossos leitores (que são amantes do cinema).

José Maria Soares Viana Filho – Consumam sétima arte e outras formas de audiovisual, nas diversas formas e plataformas. Filmes, séries, novelas, videocasts, podcasts. Vejam o cinema nacional. Valorizem a nossa sétima arte. Com cinema tudo fica mais lúdico, ele ensina e diverte.

 

Cartaz do curta Vozes do Mar: a vida e a artes dos pescadores da Raposa – MA (2024-2025), de José Maria Soares Viana Filho

 

 

 

 

 

 

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*Paulo Rodrigues, entrevistador, é poeta e jornalista, com diversos livros publicados e premiados.