Sacada Literária

Cultura, crítica e divulgação

Nikitta Dede Adjirakor, Escritora/poeta de Gana (África) - foto: divulgação

3 poems by / 3 poemas de NIKITTA DEDE ADJIRAKOR

 Nikitta Dede Adjirakor

(3 poemas traduzidos por Sebastião Ribeiro, com colaboração e permissão da autora)

 

Nikitta Dede Adjirakor é uma pesquisadora, professora e contadora de histórias ganesa. Seus trabalhos exploram as interseções entre o corpo da mulher, o trauma, a linguagem e o pertencimento. Sua primeira coletânea de poemas, Learning to Say My Name (Aprendendo a dizer meu nome), foi publicada no box de livretos New-Generation African Poets: A Chapbook Box Set (Tisa) pelo African Poetry Book Fund, da Akashic Books (2023). Ela é a realizadora do filme A Thousand Needles (Mil agulhas, 2018), que documenta os estigmas da saúde sexual e reprodutiva das mulheres africanas por meio de poesia e filme. Também publicou vários livros infantis multilíngues com a editora Yellow Mango Press e seus trabalhos podem ser vistos em seu site: www.nikittadede.com

 

HOME IS NOT HERE IN THIS BODY

 I too want to remember how to wear my body again. In this house, everything remains unfinished and we mistake resignation for patience. I was named after a father’s hope, a future appointment that leaves me untethered in the present. Perhaps this is why I fold into myself, close my fists and wait for the world’s permission to be(come). When your name is a stranger, faith is what wears your feet through each door that arrives at nothingness. I ask myself, what is faith if not the emptiness I choke on while washing it down with possibility? Yet, mother tells me faith is all we have and when I filter the world through her gaze, I see her again. Longing for a lover’s promise. Waiting for a daughter’s survival. In my body everything remains unfinished and I mistake emptiness for peace. I am at war with myself. Home is not here in this body. On another trip to the emergency room, I ask the doctor to find my selves and pass them on to me. These hands are free to grasp them like a desperate prayer. When your name is a stranger, you learn that just because a thing is alive does not mean it is whole. By that I mean I have forgotten how to wear a body that is whole. I mean home is not here in this body. I mean even as I meet myself with violence, speak tenderness into me.

 

 

[O LAR NÃO ESTÁ AQUI NESTE CORPO]

de Learning to Say My Name (Aprendendo a dizer meu nome)

 

Eu também quero lembrar como usar meu corpo novamente. Nesta casa, tudo permanece inacabado, confundimos resignação com paciência. Deram-me o nome da esperança de um pai, um compromisso futuro que me abandona sem amarras no presente. Talvez por isso, me dobro em mim mesma, fecho os punhos e espero a permissão do mundo para (vir a) ser. Quando seu nome é um estranho, fé é o que desgasta seus pés através de cada porta que chega ao nada. Eu me pergunto: o que é a fé se não o vazio com o qual me engasgo, enquanto o lavo com possibilidades? No entanto, minha mãe diz que a fé é tudo o que temos e, quando filtro o mundo pelo seu olhar, a vejo novamente. Ansiando pela promessa de um amante. Esperando pela sobrevivência de uma filha. Em meu corpo, tudo permanece inacabado e eu confundo vazio com paz. Estou em guerra comigo mesma. Meu lar não está aqui, neste corpo. Em outra ida ao pronto-socorro, peço ao médico que encontre meus eus e os repasse para mim. Essas mãos estão livres para agarrá-los como uma oração desesperada. Quando seu nome é um estranho, você aprende que só porque uma coisa está viva, não significa que ela esteja inteira. Com isso, quero dizer que me esqueci como usar um corpo inteiro. Quero dizer que o lar não está aqui neste corpo. Quero dizer que mesmo que me encontre com violência, que você expresse ternura dentro de mim.

 

BECOMING A MOTHER

 

Lately I’ve been nourishing these tumors

inside me, thinking of myself as a mother,

running my hands over my rounded body

and looking for a heartbeat that isn’t there.

 

Perhaps there is something to be said

about madness, about finding consolation

in a swollen body that is an empty home

simply because it is a sign of possibility.

 

I’ve been trying to find language

that does not swallow my consolation

and no matter how they say it,

sorry, kpo kpo, there is something

 

disrespectful about how they choke

on my solace, as if finding consolation

in a wound that has made a home

out of me is not too an act of love.

 

 

(fonte: joom.com/pt)

[TORNAR-SE MÃE]

 

Ultimamente, tenho nutrido esses tumores

dentro de mim, me pensando como uma mãe,

passando as mãos sobre meu corpo rotundo,

em busca de um batimento que não está lá.

 

Talvez exista alguma coisa a ser dita

sobre a loucura, sobre encontrar consolo

em um corpo inchado, que é uma casa vazia

somente porque é um sinal de possibilidade.

 

Venho tentando encontrar uma linguagem

que não engula minha consolação

e não importa a maneira como dizem,

desculpas, kpo kpo*, existe algo

 

desrespeitoso na forma como abominam

esse meu refúgio, como se achar amparo

em uma ferida que fez de mim um lar

não fosse, também, um ato de amor.

 

(*significa “desculpas”, na língua Ga, falada em Gana.)

 

 

MY SAVIOR, SHE BLEEDS

OR: 1 IN 10 WOMEN HAVE ENDOMETRIOSIS

 

I’ve spent years dying without death

and now I worship

the unnamed woman in the Bible

who bled for 12 years.

 

I asked how you would rate your pain.

 

On a scale of 1 to 10,

the wounds have voices.

 

What do they say?

 

That death too is a journey

and like my body, elastic

enough to harbor everything.

 

Which number do they choose between 1 and 10?

 

They say my body is a sentence

for many verbs.

I am folding

and I am folded.

Its place is not with me.

 

Which number?

 

An open wound I arrange myself around.

I iron my tongue and stack

the diagnosis

neatly.

 

If you’ll just give me a number.

 

12, like my savior clogged

with blood, glowing

as she finds her savior.

 

 

[MINHA SALVADORA, ELA SANGRA

OU: 1 EM CADA 10 MULHERES TEM ENDOMETRIOSE]

 

Passei anos morrendo sem morrer,

e agora, idolatro

a mulher inominada na Bíblia

que sangrou por 12 anos.

 

Perguntei como você classificaria sua dor.

 

Em uma escala de 1 a 10,

as feridas têm vozes.

 

O que elas dizem?

 

Que a morte também é uma jornada

e, como meu corpo, elástica

o suficiente para abrigar tudo.

 

Qual número elas escolhem entre 1 e 10?

 

Dizem que meu corpo é uma frase

para muitos verbos.

Estou dobrando

e estou dobrada.

Seu lugar não é comigo.

 

Qual número?

 

Uma ferida aberta, me organizo ao seu redor.

Passo minha língua a ferro e armazeno

o diagnóstico

cuidadosamente.

 

Só preciso que você me dê um número.

 

12, como minha salvadora entupida

de sangue, incandescendo

ao encontrar seu salvador.

 

 

 

***

 

Sebastião Ribeiro, tradutor, é poeta, autor de Glitch (2017) e Solo (2024), entre outros.